274. Quinteto em Branco e Preto: “Mãe África”

Veja lá
Quem tem jongo, tem congada e capoeira
Bumba-meu-boi, roda de samba
Tem mais na festa afro-brasileira


Dia desses, numa boa troca de e-mails, meu grande (em todos os sentidos) amigo Bolão lançou uma questão desafiadora, a respeito da relação entre o samba paulista e o carioca. Não soube responder, mas acho que dei uma enrolada boa.

A tese que lancei – e procurei defender – foi a de que a dicotomia entre os dois estados, ao menos nesse contexto musical restrito, é bem menor do que se imagina. Talvez tenha sido maior há décadas atrás; hoje, no entanto, o Rio encontra em São Paulo uma terra receptiva aos melhores bambas cariocas. Com efeito, passaram, aqui pertinho de casa em Santo André, Almirzinho Guineto, Dudu Nobre, Fundo de Quintal e Toninho Geraes, só pra mencionar os mais recentes. O filho do Toninho, Alison Geraes, chegou a vim cantar semanalmente por estas bandas (até porque o moço mora na terra da garoa) e já trocamos umas ideias nuns intervalos de batucada.

Por outro lado, a referência principal para os bons conjuntos paulistas (sobretudo os que se revezam pelos palcos aqui do ABC) é o samba do Cacique de Ramos, com acenos para os portelenses do Clube do Samba e, apenas mais raramente, para compositores mais (Vanzolini, Eduardo Gudin) ou menos (Sombrinha) identificados com São Paulo.

No e-mail ao meu chapa, mencionei um conjunto que não cheguei a ver tocando ao vivo, ou pelo menos, não inteiro. Trata-se do Quinteto em Branco e Preto – e repare nas fotos do conjunto para sacar a genialidade do nome –, que nasceu entre as zonas sul e leste da capital paulista. Dois de seus integrantes, Yvison e Everson Pessoa, são figurinhas carimbadas nos batuques do ABC, sobretudo Yvison, a quem assisti diversas vezes cantar, ao vivo, a ótima “Mãe África”. Composta por Loverci Ernesto e Murilão, a obra aparece no disco de estreia do Quinteto, Riqueza do Brasil (2000) – que, diga-se de passagem, é repleto de faixas lindas, como a magnífica “Sempre Acesa” (que pensei em trazer ao blog, com a participação da saudosíssima Beth Carvalho).

Trata-se de uma canção sem segredos, que mobiliza a sonoridade do léxico ligado às tradições afro para criar versos e rimas que divulgam essas próprias tradições, além de personagens históricos e mitológicos: Mãe Menininha, Zumbi e os misteriosos orixás Oduduá e Obatalá.

Com a autoridade de quem já saracoteou ao som desse samba perfeito, digo que “Mãe África” anima (e muito), faz pensar, sorrir e celebrar o continente de onde todos viemos, embora haja quem teime em negar o óbvio.

Com humildade e reverência, os brancos irmãos Pessoa do Quinteto provam que o samba é mesmo a música do povo: democrático, não escolhe cor, nem coordenada geográfica. Assim, perdão, mas vou contrariar Noel: batuque não é privilégio!

quinteto-em-branco-e-preto.jpg
Quinteto em Branco e Preto: samba paulista orgulhoso de sua influência carioca.

3 comentários

    1. Parte de mim não sabia mais o que escrever, pois achava o conteúdo da canção bastante transparente, sem contar que o tema da afro-brasilidade aparece em 1 a cada 2 posts do blog! E outra parte de mim estava realmente sem tempo para fazer algo mais elaborado!
      Grato pelo elogio e pelo comentário.

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