275. Vinícius & Toquinho: “Samba Da Volta”

Você voltou, meu amor
Alegria que me deu
Quando a porta abriu
Você me olhou você sorriu
Ah, você se derreteu


No conjunto de samba (para saber do que estou falando, clique aqui), fazíamos um pot-pourri de canções de Vinícius e Toquinho, começando com o “Samba Da Volta” e encerrando com “Regra Três” – às vezes, passando também por “Como Dizia O Poeta”.

Quando o Prof. Henrique Rozenfeld começou a tocar conosco, tão logo o apresentamos ao medley, veio sua reação de estranhamento:

– Ué, mas o “Samba Da Volta” é uma resposta a “Regra Três”! Por que vem antes?

Era eu quem explicava:

– Vinícius e Toquinho gravaram um pot-pourri com mais canções, e nele também tinha “Samba Da Volta” antes.

Fim de papo. E eis o número em questão, um de meus favoritos da dupla, pra não dizerem que estava mentindo: 

Mas, de fato, Rozenfeld estava corretíssimo. Afinal, em “Regra Três”, o Poetinha manda um baita recado a um moço namorador, que insiste em usar e abusar da 3ª regra do futebol (dentre as 17, aquela que fala sobre os jogadores em campo) aplicando-a a seus efêmeros relacionamentos, que se sucedem freneticamente, tal e qual atletas que se substituem numa partida: “Tem sempre o dia em que a casa cai / Pois vai curtir seu deserto, vai / Mas deixe a lâmpada acesa / Se algum dia a tristeza quiser entrar / E uma bebida por perto porque / Você pode estar certo que vai chorar”.

Mais tarde, Toquinho revelaria que o moço namorador, recriminado em “Regra Três” (pela voz da razão) e perdoado em “Samba Da Volta” (pela mulher amada), seria ele próprio. Vinícius gostava de uma lição de moral e não poupou nem seu jovem parceiro:


Voltava de Santo André para São Carlos numa sexta, em fins de 2017. Quando o ônibus fez sua parada em Cordeirópolis, desci para tomar meu café, como de hábito naquele posto, quando vi se aproximar ninguém menos que Aprigio, meu ex-orientador (ex mesmo?).

Cumprimentamo-nos alegremente e ele explicou que vinha de Campinas e retornava às terras são-carlenses, trazendo no carro um pesquisador italiano e… esqueci o nome desse senhor. Convidou-me, então, a retirar as malas do ônibus e prosseguir na viagem com eles, para economizar tempo. Quanto ao outro convidado, Aprigio assim me apresentou a ele:

– Rafael foi meu orientando e só tem dois defeitos: é de esquerda e torce pro Corinthians!

Na mosca! São meus dois melhores defeitos, e rola uma alquimia danada entre eles e minha pior qualidade, ser virginiano (e é lógico que, cético como todo virginiano, não acredito nessa coisa de astrologia).

Ao entrar no carro, percebi que a trilha sonora eleita pelo chefe era mesmo uma bela seleção de Vinícius e Toquinho. E então veio a sacada, quando apareceu  “Testamento”, de Toquinho e Vinicius (1971): o puxão de orelha de “Regra Três”, lançado em São demais os perigos dessa vida (1972), já tinha aparecido no ano anterior.

Afinal, preste atenção aos versos de “Testamento”: “Você que não gosta de gostar / Pra não sofrer, não sorrir e não chorar / Você vai ver um dia / Em que fria você vai entrar” –  claramente, recriminando o comportamento de um companheiro cuja vida sentimental é marcada por uma elevada rotatividade de namoradas e nenhum apego ou envolvimento mais duradouro. 

Compartilhei minha conclusão com o motorista:

– Professor – sim, depois de mais de 13 anos de parceria, não consigo não chamá-lo assim –, acho que aí é o Vinícius falando do próprio Toquinho!

A réplica não poderia ser melhor:

– Se for, é o sujo falando do mal lavado! – e gargalhamos.

Hipocrisias à parte, gosto de observar que, em “Testamento”, aparece como que um mea culpa de Vinícius, que repensa completamente uma afirmação anterior sua, proferida no célebre “Samba Da Bênção” (uma de suas parcerias inaugurais com Baden Powell). 

Pois note. Em “Samba Da Benção”, num dos discursos recitados entre os versos da canção, Vinícius aparece com essa: “Uma mulher tem que ter qualquer coisa além de beleza […] / Uma beleza que vem da tristeza de se saber mulher / Feita apenas para amar / Para sofrer pelo seu amor e pra ser só perdão“. Mais lindamente machista, impossível!

Mas “Testamento” repensa essas afirmações: “Você que só faz usufruir / E tem mulher pra usar e pra exibir / Você vai ver um dia / Em que toca você foi bulir / ‘A mulher foi feita pro amor e pro perdão’ / Cai nessa não“.

No fim das contas, Toquinho há de ter sido perdoado, e o “Samba Da Volta” celebra a retomada da conjunção amorosa interrompida. Assim, o sujeito do “Tantas você fez” (que abertura fantástica essa de “Regra Tres”), seguindo o exemplo do Poetinha em “Testamento”, se apercebe de seu erro e promete se comportar daí em diante: “É verdade, eu reconheço / Eu tantas fiz / Mas agora tanto faz / O perdão pediu se preço, meu amor / Eu te amo / E Deus é mais”.

E assim fechamos um dos posts mais caras-de-pau deste blog (bem mais que o próprio Vinícius – com todo respeito a um dos maiores compositores do Brasil): anunciou uma canção, só para usá-la como desculpa para abordar outras três, para as quais não havia espaço entre as 90 de que precisamos falar até dia 31/12.

Mas, se o tema de hoje é o “perdão”, sem problemas, não é mesmo?

vinicius-e-toquinho.jpeg
Vinícius e Toquinho: descobertas sobre o amor e o perdão espalhadas por um extenso cancioneiro.

Há muitas versões para “Samba Da Volta”, então comentarei só algumas das mais significativas, para além da que abre o post, extraída de Vinícius & Toquinho (1974).

Gosto muito da versão voz-e-violão de Toquinho em Seu violão e suas canções (2010):

No mesmo ano de lançamento de Vinícius & Toquinho, Clara Nunes registrou a canção em Alvorecer:

E, ainda no mesmo ano, ninguém menos que Djavan defendeu a canção em Na boca do povo (o que se canta nas ruas):

Bem mais recentemente, temos o Quarteto em Cy, No show Vinícius e Caymmi em Cy (2008):

E, para valorizar os intérpretes com menor projeção, compartilho a versão da portuguesa Amália Baraona, em 3 mundus (2015):

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