276. Leo Jaime: “A Vida Não Presta”

Você vai de carro pra escola
E eu só vou a pé
Você tem amigos à beça
E eu só tenho o Zé


Dentre os cantores do BRock, um dos que mais levei tempo até conhecer foi Leo Jaime. Isso aconteceu depois que comprei, usado, um CD da coleção Frente a Frente, da Sony Music – série que reunia, num único volume, canções de dois artistas do catálogo da gravadora –, com oito canções do cantor goiano, mais oito canções do RPM.

As faixas de Leo Jaime me soaram vagamente familiares, só por terem tocado bastante nas rádios. Já o “lado” do RPM foi completamente descartado naquelas primeiras audições, pois apenas reproduzia o repertório de Rádio Pirata ao vivo (1986), disco que escutei até cansar (e, então, escutei mais um pouco) – com a curiosa inserção de “Loiras Geladas”, infelizmente, apenas em seu já conhecido registro original de Revoluções Por Minuto (1985).

A abertura da coletânea se dava com uma obra de andamento moderado, timbres oitentistas (ou seja, situados na fina linha entre o engraçado e o ridículo), uma letra deprimida e ótimos vocais. Leo era (e ainda é) um cantor competente e afinado, predicados nem sempre comuns entre seus pares dos anos 1980. A canção, “A Vida Não Presta”, então, me soava como se não pudesse ser cantada por mais ninguém.

Há dois elementos de destaque nela. Em Dias de luta: o rock e o Brasil dos anos 80 (2ª ed. Porto Alegre: Arquipélago Editorial, 2013), Ricardo Alexandre narra brevemente o passado de Leo, valendo a pena conhecer as palavras do autor, que traça as origens do cantor e compositor até vir a formar o cômico conjunto João Penca e Seus Miquinhos Adestrados:

Leo Jaime era um caso atípico no rock dos anos 80, quase todo formado por filhos da classe média. Vindo de Goiás, de família desestruturada (nasceu de uma recaída da mãe pelo pai, de quem já estava divorciada havia tempos e não cansava de lembrar ao menino que ele era um “acidente” em sua vida), Leonardo Jaime estava bem longe de casa desde os 16 anos. Era fã de Ringo Starr, o beatle triste, de Roberto e Erasmo Carlos, e foi tentar a vida em Brasília, atuando na peça Os Saltimbancos, de Chico Buarque, trabalhando em São Paulo no Teatro Oficina e, finalmente, no Rio de Janeiro, na peça Malaria Bar, de José Possi Neto. Antes de se tornar um miquinho, no final de 1980, compôs com Arnaldo Baptista, integrou um grupo performático com Tim Rescala chamado Grupo Escolar, e os conjuntos de baile Vagabanda e Nota Vermelha – este com a futura blitz Fernanda Abreu e o futuro produtor Fábio Fonseca (p. 148-149).

Ora, quem mais, além de Leo, com esse passado tumultuado, poderia cantar uma canção intitulada “A Vida Não Presta”? E Ricardo Alexandre traz mais detalhes, páginas depois, explicando o sentido da canção, que

[…] girava em torno do retrato do jovem pobre, com dificuldade de relacionamento social e amoroso […].

Pela habilidade em condensar sentimentos de inadequação em métricas simples, Leo lembrava em muito os melhores momentos de Erasmo Carlos […]. Mas era agridocemente pop. Era confessional, sem dúvida, tratando em primeira pessoa do garoto goiano que lavava copos nos bares de Copacabana e pedia comida na casa de Cazuza. […] E foi o último momento da fase mais espontânea, ingênua e cativante do rock brasileiro da década.

“Meu grande objetivo era fazer a música que eu quisesse escutar”, conta Leo. “No início dos anos 80, eu ouvia aquelas canções de Renato Terra falando de arroz integral e pensava ‘cadê eu?’. Ninguém falava da menina que não me dava bola na escola porque eu ia de ônibus e ela ia de carro. Ninguém. Eu queria tratar de emoções verdadeiras e pertinentes a todo mundo; por mais que me valesse de uma linguagem local, da garotada de Ipanema, aquilo atingia garotos do Brasil inteiro. Todo mundo sabe o quão difícil é, sem carro, arrumar uma namorada. O desapontamento com o amor existirá para sempre” (p. 246-247).

O outro elemento que me chama a atenção – além desse caráter ineditamente autêntico – é a harmonia da canção. Não se engane com a tonalidade de Sol Maior, pois não estamos no reino da alegria: a canção enfatiza os movimentos de repouso justamente no acorde do segundo grau, Lá Menor. A dialética entre o acorde maior da tonalidade e o destaque para um acorde menor é o cenário ideal para se ressaltar o distanciamento entre sujeito e objeto do desejo, o eu e o você: “Você vai de carro pra escola / E eu só vou a pé / Você tem amigos à beça / E eu só tenho o Zé”.

O mais interessante está por vir. A canção emprega simplesmente duas modulações: primeiro, no complemento às estrofes regulares do tom em Sol Maior, em que emerge a imagem do sonho. Assim, um expansivo Mi Maior sugere uma possibilidade de aproximação para com o objeto, uma alteração no cenário desolador. Mas, novamente, é uma ilusão, como todo sonho – e, em “A Vida Não Presta”, nem o espaço onírico refugia, consola ou dá luz à esperança. O sonho consegue até ser mais cruel que a realidade: “Quantas noites em claro eu passei / Tentando te esquecer / Quando à noite eu consigo dormir / Eu sonho é com você / A me dizer / Pra não ter ilusôes / Que entre nós não pode ser / E é mesmo assim / Nem mesmo no meu sonho / Eu posso ter você pra mim”.

A outra modulação, mais ao fim da canção, eleva o tom para Lá Maior, apenas reforçando a mensagem de perda e o sentimento implacável da derrota associada à disjunção amorosa. A conquista fracassada gera uma interessante ambiguidade, que não define o objeto do pronome “ela”: a vida ou a garota desejada – e estou falando dos  versos “Eu tentei naquela festa / Você fugiu de mim / Eu pensei a vida não presta / Ela não gosta de mim”.

A mensagem é tão certeira, o ouvinte se compadece tanto para com um sujeito assim, maltratado, que nem percebe que essa estrofe tem uma rima muito mais do que pobre: paupérrima, entre “mim” e… “mim”. Passa completamente batido.

Em resumo, a trilha perfeita para uma fossa daquelas.

leo-jaime
Leo Jaime: cantando os reflexos sentimentais da penúria material, com mais propriedade que os playboys dos anos 1980.

“A Vida Não Presta”, lançada em Sessão da tarde (1985) e composta com os miquinhos Leandro Verdeal e Selvagem Big Abreu, recebeu algumas releituras interessantes.

Em 2010, o cantor gaúcho Lord homenageou canções marcantes dos anos 1980, em Geração oitenta ao vivo. “A Vida Não Presta”, fiel ao arranjo original de Leo Jaime, recebeu uma esperta citação de “Eu Vou Estar” do Capital Inicial:

Explorando outras possibilidades para o arranjo, o grupo Ebony Vox transladou “A Vida Não Presta” para o universo black, em Ebony Vox (1998). Boa versão:

E tem também o Raça Negra, injetando seu característico balanço ao clássico de Sessão da tarde:

3 comentários

  1. A música remete à outro sucesso oitentista de Leo Jaime,”O Pobre” (ela não gosta de mim,mas é porque eu sou pobre),o que leva a uma frase de Nelson Rodrigues que diz ”Dinheiro compra tudo,até amor verdadeiro”.É claro que há um certo exagero na frase do dramaturgo,mas mulher valoriza e gosta (sim) de homem-bem-sucedido,quem gosta de homem em estado-puro são os homossexuais,e espero que nenhuma feminista leia meu comentário,rs.

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    1. Cuidado, minhas companhias são feministas e frequentam o blog!
      Quanto a “O Pobre”, é da mesma leva. Leo Jaime foi o primeiro “loser” do rock nacional, e meio que propõe uma releitura da Jovem Guarda à luz da realidade do Brasil profundo.

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