277. Almir Sáter & Renato Teixeira: “A Primeira Vez”

Todo homem vivido como eu,
Já tem muita estrada
Onde deixou pedaços do que é seu,
A sua história


Estava sentindo a falta de um Renato Teixeira aqui no blog.

Havia o plano de tratar de sua “Romaria”, canção que sempre me fascinou desde criança.

Lá em casa, zoávamos bastante minha prima Gabi, seis anos mais nova que eu, que fazia do refrão um “Nossa Senhora desaparecida”, quando ela era bem pequenina.

Outro episódio se refere à vez em que assisti a um belíssimo show de Teixeira em São Carlos, em 2007. Estava acompanhado de uma namorada e – jamais contei a ela isso – a certa altura, invadiu-me uma sensação muito ruim: havia visto um casal, pais de um grande amigo, e notado que a mulher estava sem cabelos. Depois soube que, de fato, enfrentava o câncer. Acabou que ela se curou completamente, anos mais tarde. De toda forma, fiquei preocupado e triste durante o show. Até que “Romaria” soou como um canto de redenção, reafirmando minha fé – logo eu, que nunca fui católico – e me tranquilizando por alguns minutos.

Arrebatamento semelhante senti em 2015, num cansativo sábado de trabalho, como eram todos os sábados no primeiro semestre daquele ano. Após lecionar por um dia todo, desci do campus da USP para o Sesc para assistir ao show da cantora Regina Dias, que faria uma homenagem a Elis. A apresentação ocorreu no menor palco do Sesc, mas reuniu bastante gente. E já estava emocionante o suficiente, até que veio… “Romaria”. Me arrepiei todinho. Aquela interpretação transbordava em emoção, tanto que a própria cantora, a certa altura, embargou a voz, deixou algumas lágrimas caírem e, por pouco, não conseguiu cantar a terceira estrofe. Foi uma cena belíssima! Abaixo, uma pequena amostra do que foi isso, com um vídeo que registra Regina interpretando a mesma canção, dois anos depois, no mesmo palco:

Bom, iria mesmo dissecar “Romaria” aqui. Fiz um estudo melódico, passei os últimos três meses criando um arranjo instrumental ao violão que explicitasse suas relações harmônicas, iniciei a pesquisa e… desisti: depois de encontrar um especial completo sobre a canção no programa Globo rural, já não havia mais nada a falar sobre a icônica obra imortalizada na voz de Elis. 


Mas aí lembrei do álbum AR (2015), em que o santista Teixeira registra dez obras com seu parceiro sul-mato-grossense, Almir Sáter, de quem já falamos há alguns meses (clique aqui). E ali há muitos temas em potencial para o blog, pois o álbum é nada menos que uma coleção de canções sublimes.

Embora goste muito – mas muito mesmo – do sabor blues das composições que têm mais a cara de Sáter, por assim dizer (como as duas que abrem AR, “D De Destino” e “Espelho D’Água”, além da incrível “Bicho Feio”), “A Primeira Vez” foi a faixa que mais chamou minha atenção, na primeira escuta.

A voz que canta pertence a um sujeito vivido, em cujo passado se acumulam conquistas e malogros. E, aflorando as recordações, as experiências primeiras vêm a lume: “O primeiro olhar, / O primeiro azul, […] / O primeiro sol, / O primeiro mar, / A primeira luz”.

Na vida de todo homem, numa sociedade machista e sexista como a nossa, é lógico que uma tal conversa conduziria a se falar “naquela” primeira vez. Pois os cantores tratam disso também: “Quando eu descobri o que é o amor, / Quando eu me despi para uma mulher, / A primeira vez”.

Mas o que me chamou a atenção, ao ouvir esses versos, foi a forma delicada como a iniciação sexual foi ali tratada. Ao contrário do que se poderia escutar num sertanejo “universitário” genérico, desses que violentam nossos ouvidos, essa experiência não é explorada em seu aspecto carnal. Não é midiatizada, digamos.

É, como disse, apenas uma experiência, entre tantas outras primeiras vezes, não sendo sequer a mais decisiva, dentre todas as enumeradas pelos demais versos. E gosto muito da forma como, nessa breve lembrança, a mulher não se apresenta como objeto: afinal, não é ela quem se despe para o deleite masculino, ao contrário, é o homem que se desnuda – o que posiciona o sujeito da canção numa inusitada situação de vulnerabilidade, diante de um corpo feminino.

Não há a necessidade de se reafirmar os valores masculinos; a própria lembrança da primeira vez emerge como uma casualidade. Não há afetação. E, a bem da verdade, passividade já se insinuara anteriormente, antes da enumeração das memórias. O sujeito, que mantém uma atitude contemplativa por toda a canção, foi mesmo surpreendido pelo emergir do passado: “Todo homem vivido como eu, / Tem muitas horas / De repente o tempo apareceu, / Cheio de lembranças”.

Desde o título, AR já nos dá a entender que, ao dar voz ao homem do campo (nesse sentido, escute a singela “Peixe Frito”), os cantores o farão a partir de um ponto de vista muito diferente daquele que é explorado no catálogo mais tradicional da música sertaneja. Nada de uma alegada dureza no trato, de uma necessidade de se consumir as companhias femininas, ou de se esbaldar no álcool: nem a inviolabilidade da terra, nem a entropia do fogo (sexual), nem a desesperada (mas autodestrutiva) sede por certa água. 

O elemento aqui é o ar que, no sistema aristotélico, é tomado como a combinação das qualidades quente + úmido – como um bom bangalô afastado da cidade, para relaxar na companhia de uma viola, de um café e de uma coleção de memórias, como propõe “A Primeira Vez”.

Com AR, Almir Sáter e Renato Teixeira nos transportam para esse mundo.

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Almir Sáter e Renato Teixeira: a simplicidade do homem do campo em melodias lindas e inesquecíveis.

2 comentários

    1. Pois é, a arte precisa dar um pouco de espaço para que nós mesmos a interpretemos. Sobre isso, lembro de um pequeno causo. Quando lançado disco “4” dos Los Hermanos, um repórter perguntou o que significava o espaço de silêncio deixado entre duas faixas, a certa altura do disco. Um dos compositores da banda respondeu algo mais ou menos assim: serve para você interpretá-lo, serve justamente para você pensar que função esse silêncio poderia servir. Achei genial.
      Grato pelo comentário.

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