279. Vanguart: “Se Tiver Que Ser Na Bala, Vai”

Sem resposta cruzei o céu
Dei a volta em tanto sem poder dizer
A origem do meu próprio ser
Me chamava pra onde eu devia ir


Minha única estória com o Vanguart é uma não-estória.

Isso porque os rapazes foram tocar em São Carlos na primeríssima edição do Contato – festival de que vivo falando, neste blog. Ou seja, estive perto de vê-los ao vivo, bem no comecinho da carreira, em 2007. Mas… “Vanguart, não fui” (e preciso contextualizar para os leitores de além-2019: no exato momento em que escrevo este post, rola mais uma edição do Rock In Rio).

Penso, penso, e não encontro a razão de não ter ido. Pode ser porque estava muito atarefado, cumprindo 14 créditos noturnos na licenciatura, e à época de minha qualificação no mestrado. Pode ser porque estava novamente avulso/solteiro/livre havia não mais que dez dias. Pode ser porque tenha subestimado o evento, decidindo apreciar apenas o segundo dia de shows. E, claro, pode ser que tenha esquecido.

O que consola é que não perdi a banda de Helio Flanders tocar uma de minhas canções favoritas suas. Isso porque ela, “Se Tiver Que Ser Na Bala, Vai”, apareceria apenas no álbum Boa parte de mim vai embora, que seria lançado dali a cinco anos. Menos mal…


Após uma audição desatenta, qualquer ouvinte poderia definir “Se Tiver Que Ser Na Bala, Vai” como um pop-rock sobre amor, como infinitos (e quase todos os) outros. Num nível menos superficial, é possível pensar em “Se Tiver Que Ser Na Bala, Vai” como um rock praticamente acústico, com um sabor folk que nos faz pensar em diversas influências (de Bob Dylan aos Smiths), e uma letra difícil – e, curiosamente, dividida em três partes, com versificação irregular. E há um terceiro nível interpretativo, que só é atingível por meio de um depoimento do próprio compositor, Flanders (que extraí do Reduto do Rock):

Essa canção surgiu como uma espécie de grito primal, como um chamado para algo muito importante, que pode ser um amor ou a própria vida sendo evocada para ser vivida. A letra é uma trip de insights, situações, provérbios que definem bem o que foi meu coração nos últimos anos. Foi uma das últimas a entrarem pro álbum e escrevi nas minhas férias, isolado quase um mês numa praia deserta. Gosto bastante de imagens como a de um amor que é como um raio que se opunha ao curso do céu e pela certeza do encontro do amor verdadeiro com a simplicidade da declaração: ‘Já sei seu nome’ “.

Pessoalmente, penso que as três partes da letra se referem a três momentos da existência, que podem ser infância, vida adulta e velhice; ou podem ser três fases de relação com o sentimento amoroso: sua descoberta, sua busca e sua vivência plena.

Há algumas pistas que sustentam esse ponto de vista. Se a parte I fala sobre “a origem do meu próprio ser”, a parte III é concluída com “Hoje é o céu, você e eu”. Da origem para o céu? E, para além do léxico, tomo como indicador dessa interpretação a enunciação de versos que, aparentemente, demolem a coerência interna da canção. Mas apenas aparentemente. Os versos em questão são, da parte I, “Mas ainda há um mundo por dizer / Acho que claro / E acho da hora“; e a parte II, “Não te opõe ao curso do rio / Prestidigitar a frustração / Tem dias que a vida é um ato de coragem”.

Note que o vocabulário da parte I é coloquial, juvenil. Por outro lado, na parte II, o sujeito enunciador aparece todo pretensioso: lança imperativos, arrisca umas palavras rebuscadíssimas (o “Prestidigitar a frustração” é o verso mais inusitado do mundo numa obra pop… e, por si só, já vale a canção) e expõe suas máximas nas formas proverbiais mencionadas no depoimento de Flanders. Na parte III, a letra é discreta, não entregando nem primarismo, nem pedantismo. Soa como a sabedoria dos velhos.

De qualquer forma, a sequência das três partes da letra se refere a um percurso narrativo que vai do desencontro (e repare nos valores negativos da primeira parte: sem resposta, sem poder (dizer), não foi suficiente, não sei pra onde, não diz mais) à conjunção total, sem a mediação de qualquer resquício de um passado doloroso: “Ele já não está mais aqui / E ela já não está mais aqui / Hoje é só você e eu / Hoje é só você e eu”.

Além dessas características especificamente líricas, gosto muito dos vocais de Flanders, que atuam de forma intencionalmente preguiçosa (à Rodrigo Amarante), mas crescem em intensidade ao longo da canção, até explodirem nos versos que a intitulam: “Se tiver que ser na bala, vai / Se tiver que ser sangrando, vai / Se você quiser, eu vou”.

Ainda, há a harmonia, que apesar de convidar um tom menor – em que o acorde C#m abre cada uma das três partes –, percorre mesmo a tonalidade de Mi Maior. Assim, se a impressão inicial – de nós ouvintes e, presumo, do próprio sujeito enunciador da canção – é a de caos, desintegração, desilução, o decorrer da narrativa trata de fazer aflorarem os festivos acordes maiores (o forte acorde da tonalidade e o sereno e distenso Amaj7, surgindo ainda, como novidade na coda, o Dmaj7, imprevisto na tonalidade), acompanhando as descobertas e vivências amorosas descritas na letra, até o momento em que já não há nada a se racionalizar (como nos fartos conselhos das partes I e II, “Não te opõe ao curso do rio”, que agora aparecem numa forma mais sentimental e direta: “Não te opõe ao curso de mim”), apenas a se viver – e na plenitude do amor: “Hoje é o céu, você e eu”.

Enfim: uma canção complexa e belíssima. (E ainda dá pra sonhar em escutá-la ao vivo, torcendo para que o Vanguart permaneça oxigenando nossa cena musical pelos próximos anos).

vanguart.jpg
Helio Flanders à frente do Vanguart, à época de Boa parte de mim vai embora: folkeadores contemporâneos no pop-rock brasileiro.

Não deixe de escutar a versão de Muito mais que o amor ao vivo (2015):

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