281. Paulo Vanzolini: “Tempo E Espaço”

Tempo e espaço eu confundo,
E a linha de mundo é uma reta fechada.
Périplo, cíclo, jornada de luz consumida
E reencontrada.


Em 2008, conheci uma personalidade que, de longe, já vinha admirando havia algum tempo: o professor João Zanetic, do Instituto de Física da USP.

Havia lido alguns de seus artigos e acompanhava sua atuação na presidência da Associação dos Docentes da USP. Combativo, mas sempre elegante e erudito, compareceu ao XIV Encontro Nacional de Ensino de Química, em Curitiba, para apresentar uma brilhante palestra em que discorria sobre artistas com veia científica (como Da Vinci e Salvador Dalí) e cientistas com veia artística (entre eles, Galileu e Einstein).

Ao final da exposição, fui cumprimentá-lo, ficando espantado sobre como aqueles olhos claros e límpidos, constrastando com sua pele já bastante enrugada, pareciam tragar seus interlocutores, como que dizendo: “Esta cor azul-esverdeada de minha íris é como um profundo lago de sabedoria; se mereceres, poderás banhar-te na infindável fonte do conhecimento”.

Nunca ousei dirigir-lhe a palavra com essa intenção de, quem sabe, vir a ser orientado por ele, na pós-graduação – sim, assustei-me de verdade com a profundidade daqueles olhos. Minha amiga Flávia Polatti, por outro lado, não teve esse medo: concluiu o doutoramento sob sua orientação há pouco, me explicando que o aposentado professor, apesar de algum probleminha de saúde aqui e outro ali, permanecia ativo e com a mente em ebulição.

Importa ressaltar que o primeiro artigo de Zanetic que li se chamava, justamente, “Física e Arte: uma ponte entre duas culturas” (Pro-Posições, Campinas, v. 17, n. 1, p. 39-57, 2006). Ali, no “intermezzo” do trabalho, como delimitava o próprio autor, havia algumas palavras interessantes sobre nosso tema de hoje:

Há mais de quinze anos eu ouvia [o também professor uspiano] Luis Carlos de Menezes relacionar a física à música de modo particularmente rico e instigante. Ele associava conceitos de diferentes partes da física moderna à letra do samba “Tempo E Espaço”, do zoólogo e sambista boêmio Paulo Vanzolini. […] É claro que um leitor desprevenido da ciência, mas bem familiarizado com textos literários, poderá interpretar o sentido poético da letra da música como um desabafo existencial do ser humano no início do terceiro milênio, contente que o mundo não tenha acabado, mas preocupado com as tentativas de muitos em destruí-lo. Um estudante atento da física poderá dar outro sentido para os versos, em função de várias de suas palavras ricas de significados científicos, como tempo, espaço, reta, luz, órbita, entre outras (p. 45).

E completava Zanetic, reproduzindo palavras de seu colega acima mencionado, Menezes:

O samba “Tempo e Espaço” de Paulo Vanzolini, por exemplo, eu já conhecia há muito tempo. Sempre havia entendido este samba como sendo a descrição do que vive um cidadão apaixonado, confundindo tempo e espaço, tropeçando universos. Ouvindo este samba, nessa manhã, percebi que ele incorporava o conceito da relatividade geral de Einstein. A seguir, fui surpreendido com conceitos de eletrodinâmica quântica! Toquei de novo… de novo… e fui encontrando outros elementos da Física. (MENEZES, 1988, p. 57-58 apud ZANETIC, 2006, p. 45).

Já o livro de Sônia Marrach (Música e universidade na cidade de São Paulo: do samba de Vanzolini à Vanguarda Paulistana. São Paulo: Unesp, 2011) posiciona “Tempo E Espaço” praticamente como a síntese de uma seção, no capítulo sobre Vanzolini, dedicada a sua paixão pela capital paulista, incluindo seu interesse pelos marcos arquitetônicos da metrópole.

De fato, versos como “Não sei de quem visse o começo / E sequer reconheço / O que é meio e o que é fim” podem ser remetidos às grandes obras modernistas de São Paulo, por exemplo, o magnífico prédio da Faculdade de Arquitetura da USP, projetado pelo célebre Vilanova Artigas – notável não apenas por sua genialidade em equilibrar as linhas retas com grandes espaços abertos, mas também por sua militância contra o regime truculento que comandou o Brasil de 1964 a 1985, ano em que nos deixou.

Da astrofísica à mecânica quântica, ou da prancheta ao concreto armado, “Tempo E Espaço” tem outro significado para mim: foi uma das canções que mais me fizeram companhia no momento em que, depois de 30 anos, finalmente me mudara de São Carlos, para morar sozinho. Viver só era um sonho antigo, mas que assustou bastante logo que realizado.

Com a letra de Vanzolini, repleta de recursividades, saltos em geometrias não-euclidianas, deslocamentos e paradoxos espaço-temporais, podia sentir-me menos como uma individualidade narcísica e egocêntrica, e mais como uma minúscula partícula nesse universo de flutuações quânticas e dobras gravitacionais. E, assim, com a ajuda da ciência (a técnica do pensamento) na arte (a técnica do sentimento), consegui o equilíbrio cognitivo-emocional tão necessário para minha ambientação num novo espaço. Ou melhor, espaço-tempo.

Vanzolini precisa ser lembrado, eternamente, como um renascentista contemporâneo, cuja atividade científica nunca se contrapôs a seu fazer artístico, nem à vida noturna pelos bares paulistanos.

Num país em que ciência, arte e a boemia enfrentam uma insana cruzada moralista, manter viva sua memória é uma necessidade constante.

E viva os Vanzolinis, Zanetics, Menezes e Artigas da vida.

paulo-vanzolini.jpg
Paulo Vanzolini: na esquina entre a ciência e a arte – e se for uma esquina perto de um bar, tanto melhor.

A versão de “Tempo E Espaço” que abre o post veio do álbum Por ele mesmo (1981), compilação que reúne raros fonogramas em que Vanzolini interpreta suas próprias canções. Que o mestre era um compositor formidável, isso ninguém tem dúvidas: sua concisa obra não concede espaço à mediocridade. Mas, como intérprete, realmente o zoólogo tinha suas limitações, e delas estava consciente.

Daí o imenso valor da caixa Acerto de contas (2004), organizada pela Biscoito Fino, que traz quatro volumes de composições vanzolinianas interpretadas por seus amigos. Ali, “Tempo E Espaço” recebe uma belíssima releitura de Ana Bernardo, então esposa do compositor. Pra quem não sabe, Ana é filha de Arthur Bernardo, um dos fundadores dos Demônios da Garoa. Enfim, não deixe de ouvir essa interpretação sublime:

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