282. Pessoal do Ceará: “Na Hora Do Almoço”

No centro da sala, diante da mesa
No fundo do prato comida e tristeza
A gente se olha, se toca e se cala
E se desentende no instante em que fala


Sempre considerei a hora do almoço como um momento a ser desfrutado coletivamente. Por isso, posso me considerar sortudo por ter almoçado (bem) acompanhado a maior parte dos mais de 12.000 dias que vivi.

Em casa sempre fui eu e meus pais; quando eles não estavam por perto, os almoços eram na casa dos meus avós. Até 1994, os domingos eram aqueles dias em que reuníamos a(s) família(s) para duas coisas: torcer pelo Senna na Fórmula 1 e, antes ou depois, dividirmos uma inigualável comida de vó com todas as gerações possíveis – e às vezes, pintavam até alguns primos, tornando o encontro familiar ainda mais prazeroso.

Gostava também de almoçar na escola, apesar da merenda ser quase sempre a mesma. Valia pela companhia dos coleguinhas, embora eu tenha passado por um sufoco, na 2ª série, que vale a pena narrar: num belo dia, e já a certa altura do ano, a inspetora percebeu que eu era o único que não fazia o Sinal da Cruz após as orações (e o que ela não podia perceber é que também não fazia as próprias orações, apenas fechava os olhos), e pediu para que eu realizasse o gesto, pois “enquanto você não fizer, ninguém aqui vai comer”. Todos olharam para mim, apreensivos: inicialmente recusei, disse que não sabia o gesto, “ah, você sabe sim, todo mundo tem que saber”, misturou-se a estupefação com a revolta e, por fim – e só para garantir a refeição de meus famintos companheiros estudantes –, fiz um rudimento de sinal, tentando lembrar mais ou menos a forma como as pessoas o executavam, e torcendo para não ter errado a ordem dos pontos cardeais. Hoje, essa passagem rende um pequeno conto que compartilho com os alunos de Políticas Educacionais, dando um testemunho concreto sobre o quão tardiamente a escolarização efetivamente se laicizou (se é que o fez). Foi uma estória tão chocante que, até hoje, jamais a contei a minha mãe – talvez por, à época, temer que, no dia seguinte, aquela mulher brava que nem arara fechasse a escola ou coisa parecida.

Já na universidade, os almoços eram no popular Bandejão, nosso amado e imprescindível Bandex. Eu era conhecido, por ali, por conta de dois fatores. Primeiro, porque era um verdadeiro “rato de restaurante universitário”: não perdia nenhuma refeição – afinal, não dá pra dispensar uma comidinha gostosa (sim, era gostosa mesmo) pela bagatela de R$1,90, não é mesmo? E depois, pela minha lendária demora em comer. Isso porque, em algum momento da vida, resolvi mastigar a comida (e tem muito marmanjo que não sabe fazer isso ainda, né *******? – ora, não vamos expor ninguém), levando a que minhas refeições se prolongassem para além do que já duravam exageradamente, dada minha incapacidade de comer sem conversar. Fiquei conhecido como o cara que almoçava sempre com nove pessoas (as mesinhas do R.U. comportavam quatro lugares): as três pessoas que vinham comigo, comiam e me deixavam; as outras três que tomavam os lugares vagos, também me abandonando antes que eu terminasse; e as três que se seguiam à segunda leva, comiam, ME ESPERAVAM e acabavam me arrastando para fora do refeitório. (Aliás, uma outra humilhação na hora da refeição foi, já na sobremesa, notar que as luzes eram apagadas e que um segurança, notadamente constrangido, pedia para que eu me apressasse, pois o espaço precisava ser fechado e os trabalhadores queriam ir embora).

Enfim, como é bom dividir a refeição nossos semelhantes!

Por isso, gosto muito da canção “Na Hora Do Almoço”, do mestre Belchior. A letra traz um sujeito que inicia uma discussão bem no momento da refeição sagrada. Os familiares à mesa protestam, até a voz da razão dar um fim ao bate-boca: “Minha avó reclama, é hora do almoço / Moço, moço, moço, moço, moço, moço / Que eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza / ‘Deixemos de coisa, cuidemos da vida / Pois, se não, chega a morte ou coisa parecida / E nos arrasta, moço, sem ter visto a vida'”.

Em Belchior: apenas um rapaz latino-americano (São Paulo: Todavia, 2017), Jotabê Medeiros explica que a canção, para além de retratar uma banalíssima cena de qualquer lar brasileiro, apresentava-se também como um contraponto a “Panis Et Circencis”, dos tropicalistas Caetano Veloso e Gilberto Gil, gravada pelos Mutantes. Afinal, no clássico presente em Tropicalia ou Panis et Circencis (1968), o momento da refeição é mobilizado para uma crítica à apatia geral, com a voz da canção implorando para ser notada, sem sensibilizar as pessoas ao redor – que querem mais é viver suas vidinhas, estando “ocupadas em nascer e morrer”. 

Não seria a única vez em que Belchior cutucaria Caê, Gil e seus correligionários – e seus colegas de geração, de forma mais ampla. Além de “Alucinação”, podemos citar, do mesmo álbum (Alucinação,  1976), “Como Nossos Pais” (“Hoje eu sei, eu sei que quem me deu a ideia / De uma nova consciência e juventude / Está em casa / Guardado por Deus / Contando seus metais”) e, do álbum seguinte (Coração selvagem, 1977), a incrível “Caso Comum De Trânsito” (cujo texto está escrito em prosa: “Faz tempo que ninguém canta uma canção falando fácil… claro-fácil, claramente… das coisas que acontecem todo dia, em nosso tempo e lugar. Você fica perdendo o sono, pretendendo ser o dono das palavras, ser a voz do que é novo; e a vida, sempre nova, acontecendo de surpresa, caindo como pedra sobre o povo”).

Voltando a “Na Hora Do Almoço”, Bel se opõe, em tudo, à perspectiva trocalista: se ali há o jantar, o cearense de Sobral propõe o almoço; se no álbum de 1968 há (malograda tentativa de) subversão de uma tradição familiar em prol de um ideal mais nobre, em “Na Hora Do Almoço” (apresentada em 1971, no IV Festival Universitário da MPB, e vencendo a competição) resguarda-se o momento da refeição, que permanece intocável e imaculado.

De certa forma, essa inércia é reforçada pelos próprios recursos musicais da obra, com uma melodia marcada pela tematização e um encadeamento harmônico quase modal, baseado em poucas variações de um único acorde e no baixo pedal que oscila entre apenas três notas, seguindo esquema 1-2-3-2-1.  Já em “Panis Et Circencis”, se a tematização é um recurso empregado no desenvolvimento do percurso fórico, a completa indignação à apatia à mesa eleva a melodia para outras regiões, passionalizando o canto, ao mesmpo tempo em que o andamento se acelera e acentua a irritação do verso “Essas pessoas na sala de jantar…”.

Enfim, compare “Panis Et Circencis” com a primeiríssima versão de “Na Hora Do Almoço”, lançada como compacto em 1971:


Ao longo de sua narrativa, Jotabê Medeiros menciona que Belchior, imerso num momento efervescente da música cearense, firmou diversas parcerias com seus novos amigos que, como ele, afluíam de outras cidades para Fortaleza.

A certa altura, parecia que toda a nova canção brasileira era impulsionada por coletivos musicais, verdadeiras comunidades de composição e execução cancional: os principais exemplos são, em Minas Gerais, o Clube da Esquina (que congregava Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes, os músicos do 14 Bis, Fernando Brant, Ronaldo Bastos, Wagner Tiso, entre outros); e na Bahia, a própria Tropicália (reunindo, além de Gil, Caê e os Mutantes, Gal Costa, Maria Bethânia e, de certa forma, os Novos Baianos – aliás, eles próprios uma comunidade hippie-musical-futebolística).

Ora, no Ceará também se observava um processo colaborativo semelhante, movido pelos intercâmbios entre Belchior, Ednardo, Fausto Nilo, Raimundo Fagner, Amelinha e outros mais. Era o Pessoal do Ceará que, a bem da verdade (e como nos mostra, ainda, Jotabê Medeiros), nem era um coletivo assim tão unido (e havia, de fato, dois “pessoais do Ceará”: da turma original de Fortaleza, um grupo se descolou e invadiu São Paulo; da parte restante, alguns se fixaram no Rio de Janeiro), nem era exclusivamente musical, acolhendo também artistas plásticos e literários.

De qualquer forma, em 2002, um disco intitulado Pessoal do Ceará reuniu Amelinha, Ednardo e o próprio Belchior, promovendo uma espécie de trégua entre os cearenses de Sampa e do Rio, que andavam já com os nervos à flor da pele, na bizantina disputa sobre quem seria o “pessoal do Ceará” original.

À época, o álbum foi maldosamente tratado como uma espécie de “2ª divisão” do Grande Encontro, designação já tardia para outra turma que tocava junto desde os anos 1970 (Alceu Valença, Geraldo Azevedo e os primos Elba e Zé Ramalho), dessa vez, no trânsito entre a Paraíba e Pernambuco.

Provocações e atritos de bastidores à parte, importa dizer que Pessoal do Ceará é uma obra importante artística e historicamente. E vale pela audição de uma luxuosa – e talvez definitiva – versão para “Na Hora Do Almoço”, uma das primeiras canções, daquele grupo de jovens idealistas que se reuniam em Fortaleza, a ganhar o Brasil, revelando ao país esse gênio que foi Antônio Carlos Belchior.

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Amelinha, Ednardo e Belchior: o Pessoal do Ceará se esforçando para mostrar união.

Em seu LP de estreia, de 1974, Belchior apresenta a versão clássica de “Na Hora Do Almoço”. Quando disse, acima, que a releitura de Pessoal do Ceará fosse talvez a gravação definitiva da canção, é porque a faixa de Belchior, de fato, é também memorável:

Existe uma versão meio disco, meio psicodélica, lançada no LP Todos os sentidos (1978). No mínimo, curiosa:

Em Divina comédia humana (1991), “Na Hora Do Almoço” ressurge com um arranjo minimalista e, pela primeira vez, acústico:

Outra versão rearranjada é a presente em Autorretrato (1999), em que Belchior relê seus sucessos. Ali, “Na Hora Do Almoço” até ameaça virar um rap, para enveredar por um arranjo repleto de teclados, sobre uma base percussiva eletrônica. Ninguém poderia acusar Bel de não ser ousado! Ouça:

Já em Um concerto bárbaro (1995) traz uma belíssima versão acústica e ao vivo. Aliás, conheci “Na Hora Do Almoço” por esse álbum. Vale pela citação incidental a “Águas De Março”, de Tom Jobim, relembrando os tempos em que a composição de Bel era tocada em Fortaleza como um dueto com Fagner. É interessante observar que Fagner, em Ao vivo (2000), tocou “Canteiros” incluindo citações a “Na Hora Do Almoço” e, como que de lambuja, também a “Águas De Março”. Enfim, escute Bel no Concerto bárbaro:

Uma versão semelhante, mas registrada em estúdio, é a de Um concerto a palo seco (1999), em parceria com o violonista Gilvan de Oliveira:

Quanto aos tributos, temos Belchior blues (2014), com Artur Menezes fazendo de “Na Hora Do Almoço” um funk-blues cheio de balanço:

E há o belíssimo De primeira grandeza – as canções de Belchior (2017), de Amelinha. Nele, a cantora apresenta uma versão intensa e que não deve nada às melhores gravações do autor de “Apenas Um Rapaz Latino-Americano”:

A curiosidade fica por conta da versão em castelhano, “A La Hora Del Almuerzo”, em Eldorado (1992). Nesse tributo, os uruguaios Eduardo Larbanois e Mario Carrero convertem a canção numa milonga – não tão grave quanto as milongas em geral:

4 comentários

  1. Uma das minhas favoritas,Belchior dá pano pra manga,rende assunto que não acaba mais.A biografia do compositor escrita pelo Jotabê Medeiros é muito boa.

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    1. Daria pra fazer um blog só sobre Belchior: suas canções, as releituras mais marcantes, as homenagens e citações, etc. Quem sabe no futuro, não é mesmo?
      Quanto ao livro, tem uma linguagem acessível e ilumina muitos aspectos desse ser incrível que (en)cantou o Brasil.
      Grato pelo comentário.

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    2. Que post mais completo! Gosto quando começa com um “causo”! Vou gastar umas horas ouvindo essas versões todas! Obrigada por isso! 🌼

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      1. Eu é que agradeço pela visita e pela audiência, Djúlia! É sempre bom ver que o blog continua sendo visitado para além de 2019.
        E sim, são muitas versões. Divirta-se e depois me diga qual é sua favorita!

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