283. Wander Wildner: “Eu Não Consigo Ser Alegre O Tempo Inteiro”

Voce sempre surge em minha mente
Sempre você e ninguém mais
É de você que eu me lembro
Sempre você e ninguém mais, e ninguém mais


A canção, em si mesma, é bobinha. Mas traz boas recordações.

O ano era 2009 e a rotina era frenética. Cumpria 14 créditos obrigatórios na graduação noturna, mais 4 que escolhi fazer na UFSCar; e vivia o primeiro ano do doutorado, cursando, então, uma disciplina também ali, na Federal, além de uma outra em Ribeirão Preto (às quintas-feiras, quando acordava às 4h30 para enfiar a bicicleta num busão da Cruz, descer na rodoviária e encarar a Avenida do Café até o bonito campus da USP, retornando a São Carlos apenas no final da tarde). Era puxado.

Mas havia diversões. Afinal, Sanca era a cidade do rock – pelo menos para mim. Podia frequentar o Armazém Bar aos sábados, conferir os palquinhos na UFSCar às quintas e, eventualmente, curtir bons sons nas noites de quarta e sexta, na USP.

Cumprir essa agenda (mal) dividida entre academia e entretenimento, hoje, me parece uma proeza. Por vezes, tenho minhas dúvidas se realmente consegui viver tudo isso.

Ou talvez tudo tenha acontecido, de fato, mas with a little help from my friends. Pois me lembro de um companheiro de noitadas inusitadíssimo, companhia constante naqueles rolês – e, possivelmente, sem sua presença e urgência em sair de casa, eu mesmo não teria me animado tanto a encarar aquelas aventuras noturnas.

Por anos, achava aquele japinha, que via andando pelo campus, um sujeito extremamente caricato, com seus figurinos como que desenhados a partir de páginas de mangás. Era um anime em live action, por assim dizer. Não à toa, era conhecido como Tenshi.

Não sei muito bem como foi que nos aproximamos. Talvez por conta do movimento estudantil da USP. Ou talvez porque ambos frequentávamos a biblioteca do centro acadêmico, a Bibliotecaaso – inexplicavelmente, sempre cheia daqueles nihonjin ou, mais precisamente, nikkey: além de nós dois, Sake, Hirono, Honda, Neide, Neusa, Yoshi, além dos “orientais honorários”, Zóio e Ize.

Só sei que, entre 2008 e 2011, fomos e voltamos juntos de muitos eventos: festas universitárias, palquinhos, shows de rock, concertos no teatro municipal, festivais… E isso, sem que fôssemos exatamente confidentes. Era mesmo uma amizade estranha. Tão anormal que Tenshi, simplesmente, saiu de nossas vidas sem dar qualquer explicação, e desapareceu no mundo. Por onde anda? Desde 2012, quando o vi pela última vez, não tive mais nenhuma – absolutamente nenhuma – notícia sua.

Mas, o que importa é que estávamos juntos em ocasiões marcantes, por exemplo, num show bacaníssima de Wander Wildner na Estação Cultura, naquele corrido 2009. O show fazia parte do festival Rock na Estação, evento que agitava o antigo prédio da Companhia Paulista (e que hoje abriga a Fundação Pró-Memória de São Carlos). Foi, na verdade, o (digníssimo) encerramento daqueles dois dias de apresentações roqueiras.

rock-na-estacao-2009.jpg

Eu e Tenshi nem conferimos a listagem de bandas, apenas combinamos de irmos juntos. Assim, peguei-o de carro em sua casa – o que parecia uma tarefa simples, mas se estendeu por quase uma hora, pois ele me fez esperar a conclusão de um novo drink que havia criado (não mencionei seu passado como bartender!) – e fomos para perto da linha do trem.

Minha expectativa era alta. Pensei que escutaríamos diversos hits dos Replicantes, banda que apresentou Wander ao Brasil. Ledo engano: não rolou nem um “Surfista Calhorda” – que dirá um “Astronauta”.

Em compensação, e como eu esperava, lá estava “Um Lugar Do Caralho” do Júpiter Maçã, com o cantor adaptando um verso da canção: “Sozinho pelas ruas de / São Carlos eu quero achar alguém pra mim / Um alguém tipo assim”. Só por isso, a apresentação já tinha valido a pena para mim, anulando aquela decepção inicial.

A ocasião também foi interessante por me apresentar ao repertório propriamente wildneriano, notável pela criação do punkbrega. Assim, além da conhecidíssima “Bebendo Vinho” – a mais representativa do gênero, que fez relativo sucesso no repertório do Ira! abrindo seu belo álbum de coversIsso é amor (1999) –, Wander cantou obras que eu ignorava, mas que me marcariam muito dali em diante. Duas delas, em especial, eram “Eu Tenho Uma Camiseta Escrita Eu Te Amo” e o tema de hoje, “Eu Não Consigo Ser Alegre O Tempo Inteiro”.

Como falei, esta última é uma canção relativamente banal. Mas vale pelo refrão que a intitula. Afinal, os versos “Eu não consigo ser alegre o tempo inteiro / Eu não consigo” provocam certo alívio, principalmente nesses tempos em que, ao nosso redor, todos se expõem nas redes sociais com sorrisos, sucessos e sábados de sol. Assim, quem tem a coragem de abrir seu coração e confessar a impossibilidade de sustentar perenemente um estado eufórico, precisa mesmo ser louvado.

De minha parte, a experiência de conhecer essas canções junto da companhia do japinha fez com que, sempre que as escuto, lembro daquela intrigante alma com quem compartilhei bons momentos, bons drinks e boas aventuras, num tempo em que a vida parecia mais longa e mais leve.

Para além disso, esse show fez com que eu buscasse explorar o punkbrega, na procura por outros artistas que pudessem ser enquadrados no gênero. E, assim, vim a escutar, por exemplo, os pernambucanos dos Textículos de Mary. Mas isso já é outra estória – que, inclusive já contei aqui.

wander-wildner.jpg
Wander Wildner: canções confessionais inaugurando o gênero do punkbrega.

A versão que abre o post consta no álbum Paraquedas do coração (2004). Existe uma gravação mais singela, sem o adorno das cordas, lançada no mesmo ano, na coletânea No ritmo da vida (2004). Bem próxima da versão que escutei ao vivo em 2009:

No ano seguinte, Wander Wildner apresentou “Eu Não Consigo Ser Alegre O Tempo Inteiro” no Acústico MTV: bandas gaúchasAcho que foi a versão que mais escutei, mas não difere tanto dos registros elétricos. Ouça:

E, por fim, há o registro mais recente de Wanclub, cheio de peso e punch. Possivelmente, a versão definitiva:

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