286. Dudu Nobre: “O Amanhã”

A cigana leu o meu destino
Eu sonhei
Bola de cristal
Jogo de búzios, cartomante
Eu sempre perguntei
O que será o amanhã
Como vai ser o meu destino
Já desfolhei o mal-me-quer
Primeiro amor de um menino


Uma boa roda de samba precisa passar, entre os autores contemporâneos, por Dudu Nobre. Nas rodas que andei frequentando, principalmente as do ABC, é fácil escutar ao menos duas obras gravadas pelo compositor carioca: a deliciosa “Xodó De Mãe” (que exige, sem dúvidas, participação da plateia nas palmas) e o samba-enredo da União da Ilha do Governador (de 1978), “O Amanhã” – e vamos falar dela.

Composto pelo mestre de bateria João Sergio, foi gravada também por Elizeth Cardoso, no mesmo ano em que foi entoada na passarela, quando a escola conquistou o 4º lugar entre as que desfilaram no Grupo 1.

A letra traz um menino se perguntando sobre “O que será o amanhã? / Como vai ser o meu destino?”. É a dúvida de todos, não é mesmo?

Eu, por exemplo, tenho dormido, todos os dias, pensando nisso. Tudo o que sei é que, apesar de nosso relativo livre-arbítrio, uma coisa é certa: daqui a no máximo 100 anos, eu e todos que conheço já não deverão estar por aqui. Haverá perdas e revezes pelo caminho. Sem dúvidas, virá muita dor: a doença, a morte, a desgraça, a derrota, a decepção.

Mas, se isso é certo, por que deveríamos nos pré-ocupar? Não faz sentido: muitas águas vão rolar e a inevitabilidade do fim deveria, na verdade, nos tranquilizar, em vez de afligir.

E, para além disso, a mensagem de “O Amanhã” nos lembra de um dado essencial: se é verdade que virão tristezas, muitas alegrias também nos esperam. Como diz a letra, “E vai chegando o amanhecer / Leio a mensagem zodiacal / E o realejo diz / Que eu serei feliz”.

É um pouco patético e lindo pensar que o garoto, a voz da canção, convoca uma série de oráculos – a cigana e sua bola de cristal, os búzios, a cartomante, a sorte do mal-me-quer, o zodíaco, o realejo – só para receber essa resposta que, no meu pensar tentativamente dialético, é a única possível. A felicidade (seja ela mais ou menos passageira) é tão inevitável quanto a morte, e virá, de um jeito ou de outro.

Não se trata de auto-ilusão ou confiança cega em algum tipo de desígnio divino. É a lógica. Mesmo que não estejamos tão empenhados ou crentes em nosso sucesso futuro, há sempre alguém olhando por nós. São nossos familiares, companheiros, amigos, colegas de trabalho. Se não é possível agradar a todos, o oposto também é verdadeiro: sempre tem quem goste de nós – e eis a fonte das alegrias que virão.

Talvez seja isso o que João Sergio tenha desejado afirmar, na letra, ao mesclar as indagações do personagem sonhador com sua perspectiva de, um dia, encontrar um grande amor.

Com a bela e festiva gravação de “O Amanhã” em seu álbum de celebração de sambas-enredo (Os mais belos sambas-enredo de todos os tempos, 2007), Dudu Nobre nos ajuda a lembrar desse dado essencial – e imprescindível, nos dias de hoje, para não nos imobilizar em posições fatalistas, nem deprimir a luta por dias melhores.

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Dudu Nobre: continuando, com muita alegria, a boa tradição do samba carioca.

A canção foi gravada por muita gente, por isso, vou destacar apenas alguns registros.

Dudu Nobre gravou novamente “O Amanhã” em 2014, no álbum que relê, ao vivo, o repertório de Os mais belos sambas-enredo de todos os tempos:

Em termos de gravações clássicas, “O Amanhã” foi registrada por outra cantora, além de Elizeth Cardoso: a maravilhosa Simone, em Delírios, delícias (1983). Foi o registro que tornou célebre o samba da União da Ilha. Gravação perfeita, com o delicioso sotaque baiano da cantora:

Como curiosidades, seguem abaixo duas versões instrumentais.

Os grandes Sivuca e Rildo Hora incluíram o samba-enredo em Sanfona e realejo (2001), num registro de gaita que atravessa passagens mais improvisadas e brilhantemente executadas:

E há também a gravação de Primo (João Peixoto), em Piano romântico (2017):

4 comentários

  1. Ouvi muito na voz incrível de Simone.Quanto ao ”relativo livre-arbítrio”,é isto mesmo,o meu tão propalado ”livre arbítrio” sempre foi limitadíssimo.Eu sempre acho que os excessos de uma vida limita a liberdade de ação e escolha na vida seguinte;e sendo assim,eu devo ter aprontado demais no passado,rs.

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    1. Exato! E, se for mesmo assim que as coisas acontecem, é bom ja irmos pensando na próxima, não é mesmo? Cometei com minha amiga Julia que, se reencarnação existe mesmo, é da seguinte forma: precisamos deixar um mundo em ordem (verde, limpo, justo, etc.) porque retornaremos a ele um dia, num futuro não tão distante.
      Grato pelo comentário.

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  2. Quando Globo fez 40 anos, em 2005, as vinhetas de final de ano ( 2004) eram recitais de música que falavam de tempo/futuro. Acredito eu, inspirada em um peça do Pedro Paulo Rangel, muito aclamada à época, chamada ” Sopa de Letras ” em que ele recitava clássicos da MBP. Me lembro da Fátima Bernardes, ainda apresentadora do JN, recitando ” O amanhã “, ficou muito lindo!! Já procurei em tudo que é lugar é não achei. Uma pena.

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