287. Vitor Ramil: “Loucos De Cara”

Vem, anda comigo pelo planeta
Vamos sumir!
Vem, nada nos prende, ombro no ombro
Vamos sumir!


Conheci Vitor Ramil justamente pela primeira canção que o tornaria famoso mundo afora – ou, pelo menos no início, renomadíssimo em sua terra natal, Pelotas, e no Sul do Brasil como um todo.

Estava curtindo uma coletânea da dupla Kleiton & Kledir (que já rendeu dois posts aqui, um sobre sua “Roda Da Fortuna”, outro sobre a “Canção Da Meia-Noite” dos Almôndegas, o conjunto que os lançaria), quando veio a faixa “Estrela, Estrela”. A introdução instrumental vinha com ares de fábula infantil e de psicodelia, e a letra seguia a mesma toada: parecia ser enunciada por uma criança que, em sua extrema ingenuidade, pergunta “Estrela, estrela / Como ser assim, / Tão só, tão só / E nunca sofrer?”.

Fiquei besta, e meio sem entender de onde viria uma obra assim, tão linda, e tão diferente das demais canções dos irmãos. Conferindo o encarte, percebi que era uma composição alheia: era, de fato, trabalho do irmão mais novo da dupla, Vitor Ramil.

“Estrela, Estrela” ficou conhecida do público por meio de duas gravações de 1981: essa de Kleiton & Kledir (seu segundo álbum, que traz duas favoritas minhas, “Lagoa Dos Patos” e “Navega Coração”) e a do disco inaugural do jovem Vitor, justamente intitulado Estrela, estrela.

Nessa sua estreia, o ainda adolescente Vitor já se apresentava como um compositor promissor, embora ainda não houvesse, ainda, delineado um estilo próprio. Na verdade, Estrela, estrela pode enganar os distraídos: o timbre de Vitor, à primeira audição, soa muitíssimo parecido com o de Milton Nascimento.

As semelhanças não param por aí: os arranjos lembram em tudo as canções do Clube da Esquina (e a ficha técnica não mente: tem um dedinho de Wagner Tiso ali), assim como – e principalmente – os temas das canções. As work-songs se destacam entre o material do álbum. “Tribo” é uma delas, começando com vocais agudos (cortesia da incrível Tetê Espíndola) e uma lista de ações no infinitivo, percorrendo do cosmo etéreo ao chão da terra: “Levantar mais cedo / Com as cordilheiras / Calar as estrelas / Como as cigarras / Acordar a tribo / Para um novo dia / Colher o centeio / Pra fazer o pão / Dividir a plantação”.

Alguém falou em “Cio Da Terra”? E isso é um baita elogio: apesar da influência de Bituca permear todo o álbum, é a força das composições próprias de Vitor que se sobressai. E, curiosamente, anos depois, Milton Nascimento releria “Estrela, Estrela” – que viria a integrar o repertório de muita gente boa, incluindo Gal Costa e Maria Rita.

Enquanto os irmãos Kleiton & Kledir permaneceriam na boca do povo, nos anos 1980, Vitor continuou compondo e, eventualmente, lançando álbuns próprios, de forma esparsa. Seu terceiro lançamento, Tango, veio três anos após o segundo (A paixão de V segundo ele próprio), que veio três anos após o primeiro.

É desse álbum de 1987 que trago a canção de hoje, “Loucos De Cara”. A faixa, composta por Vitor a partir de uma base instrumental de Kleiton, se destaca por sua beleza melódica, sua simplicidade harmônica e, principalmente, por sua longa duração.

O mote da letra aparece logo nos primeiros versos: “Vem, anda comigo pelo planeta / Vamos sumir!”. E, a partir desse pedido – que soa quase como um refrão –, Vitor elenca uma série de imagens que, soando mais ou menos escandalosas ou surreais (“Não importa que Deus / Jogue pesadas moedas do céu / Vire sacolas de lixo / Pelo caminho” ou “Não importam vitórias / Grandes derrotas, bilhões de fuzis / Aço e perfume dos mísseis / Nos teus sapatos”), servem apenas para reforçar a urgência do convite ao interlocutor da canção: “Fica na tua”, esquece disso, vem, vamos embora.

Uma terceira estrutura lírica, também com jeito de refrão, mas dificilíma de memorizar, aparece após algumas dessas enumerações de eventos que devem ser deixados de lado: “Poetas loucos de cara / Soldados loucos de cara / Malditos loucos de cara / Ah, vamos sumir! / Parceiros loucos de cara / Ciganos loucos de cara / Inquietos loucos de cara / Ah, vamos sumir!”.

Num especial do jornal Zero Hora, a série “Ao pé da letra”, Vitor explica a expressão “loucos de cara”: são todos os doidões que não precisam de drogas para ficarem (ou serem) chapados. E o próprio cancionista se inclui nesse grupo. Mas, na canção, a lista dos loucos de cara surge para reforçar o convite: ignoremos tudo, incluindo aqueles que escandalosamente clamarem por nossa atenção. Ou, como propõe o compositor, “Vem, nada nos prende, ombro no ombro / Vamos sumir!”.

“Loucos De Cara” é uma canção bárbara e prova que Vitor faz jus ao nome Ramil. Mas talvez possamos dizer o contrário: se Kleiton & Kledir, ainda nos Almôndegas, já provavam ao Brasil que o extremo-Sul do país tem a oferecer muito mais que milongas e outros ritmos regionais, Vitor foi, com seu lirismo e seu senso melódico, ainda mais além que seus irmãos.

Talvez os autores de “Deu Pra Ti” e “Vira Virou” é que tenham que se sentir honrados por terem aberto o caminho – se é que o fizeram, de fato – para o Ramil caçula.

vitor-ramil.jpg
Vitor Ramil: musicalidade e bom gosto, de Pelotas para o resto do Brasil.

A cantora Glória Oliveira, também sulista, gravou “Loucos De Cara” em Por favor, sucesso (1988), numa vibe ainda mais oitentista que a da gravação original:

Mas é do próprio Vitor o registro definitivo para a canção, que aparece na antologia Foi no mês que vem (2013). O belíssimo álbum duplo (que abre já com a impressionante canção título) é calcado numa sonoridade minimalista e acústica, e é assim que o compositor reinterpreta “Loucos De Cara”, numa versão que valoriza sua melodia sublime:

6 comentários

  1. Uma pena que o irmão caçula nunca teve a popularidade dos irmãos mais velhos,primeiro porque o popular de hoje é muito ordinário,e segundo porque a musicalidade de Vitor Ramil é ainda mais requintada.Quanto à ”Estrela,Estrela”,eu tenho um LP onde Gal Costa canta com Zé Luiz,um lindo dueto de 1981(também);a gravação de Kleiton & Kledir eu não conhecia.

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    1. É uma leitura muito interessante a que você faz. De fato, Vitor parece estar não um, mas vários passos à frente de seus irmãos. Grato pelo comentário e pela dica.

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  2. Outra das minhas músicas favoritas aqui. Muito contente com esse blog. “Loucos de cara” é a nossa música do casal aqui em casa.

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    1. Que bacana, André Luís! Essa postagem me surpreendeu, pois pensei que seria pouquíssimo visitada. Depois, acabei descobrindo que “Loucos De Cara” é a canção de muita gente! Realmente, é um lindo tema para casal.
      Grato pelo comentário.

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