288. Sérgio Ricardo: “Bichos Da Noite”

São muitas horas da noite
São horas do bacurau
Jaguar avança dançando
Dançam caipora e babau


Ainda estou anestesiado – não, não estou sob efeito de algum “poderoso psicotrópico” – após ter ido conferir, ontem no cinema, o aguardado Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, com a incrível Sônia Braga no elenco.

Foi Julia quem insistiu para que eu assistisse ao filme antes que ele saísse de cartaz. E foi um ótimo conselho, pois agora me sinto, finalmente, como um espectador-participante de nossa sétima arte.

Com efeito, apesar de ter prestigiado diversas obras nacionais em circuitos alternativos (principalmente nos cinemas do Sesc), de já ter chegado a colecionar curta-metragens exibidos no programa Zoom da cultura, e de ter até mesmo um diretor brasileiro favorito (Jorge Furtado), jamais havia conseguido flagrar alguma obra tupiniquim (séria e, digamos, do mainstream) na telona, fosse um O que é isso, companheiro? (1997), um Central do Brasil (1998) ou até um Tropa de elite (2007).

Mas eis que investi duas horas (e mais algumas outras para me deslocar até o cinema em São Paulo) de uma agenda corrida para forjar minha opinião sobre um filme que impactou o público, já foi considerado (talvez prematuramente, mas isso só o tempo dirá) divisor de águas e acirrou a disputa de narrativas entre direita e esquerda, no âmbito estritamente cultural.

Não vou fazer uma sinopse – como pedi a Julia, recebendo um resumo repleto de spoilers, mas amizade é isso mesmo! – da obra, nem estou habilitado a analisar qualquer produção cinematográfica, simplesmente por não possuir um repertório conceitual que me autorize a tanto.

Só que gostaria de externar algumas impressões desse filme que tanto mexeu comigo.

Primeiro, acho curioso como, recentemente, têm surgido (boas) produções em que é difícil – ou impossível – classificá-las em algum gênero. O incrível mãe! (2017) de Darren Aronofsky, por exemplo, parte de um suspense, evolui para o terror psicológico e atravessa passagens mais ou menos surreais e até gore, se revelando, no fim das contas, uma obra alegórica e talvez gnóstica. Mais recentemente, assisti ao incensado sul-coreano Parasite (2019), que transforma uma comédia de costumes num terror, sem abandonar o drama e a crítica social.

Pois o mesmo se passa com Bacurau: ficção-científica, western, terror, suspense ou ação? Ou tudo isso? Para alguns, o filme soa como se emanasse de um Tarantino cabra-da-peste. Eu já prefiro situá-lo na escola de John Carpenter (com referências explícitas na película), o que me faz lembrar de seu Fuga de Los Angeles (1996).

Pelo que li por aí, ninguém propôs nenhum elo entre a narrativa situada em Pernambuco e o filme estrelado por Kurt Russel. Mas li em algum lugar que a pacata Bacurau, a pequena cidade que é, ao mesmo tempo, cenário e personagem, representa uma espécie de mundo utópico: vivem ali, em paz, algumas dezenas de pessoas de todas as cores, idades e até sexos (da sentinela transexual ao impiedoso anti-herói andrógino). Pois em Fuga de Los Angeles temos a personagem justamente intitulada Utopia, que se volta contra seu pai, o presidente estadunidense (um conservador fundamentalista), para cair nos braços de um pastiche de Che Guevara, Cuervo Jones. No fim das contas, quem controla a narrativa é mesmo Snake Plissken, o mercenário vivido por Russel, emergindo como um herói pós-moderno que (atenção, spoilers!), no fim das contas, desliga a Terra com um pulso eletromagnético que inativa todos os aparelhos eletrônicos. Utopia se salva da morte na cadeira elétrica, mas é irônico e mesmo absurdo se falar em salvação, ao fim da jornada de Plissken. De toda forma, a conta sai muito mais cara para aqueles que viviam confortavelmente desfrutando das benesses do capitalismo: os excluídos de Los Angeles, a ilha-prisão separada do continente por um terremoto, já não tinham nada a perder. Mesmo que por linhas tortas, o sonho de liberdade de Cuervo Jones parece ter se imposto – ainda que com um resultado literalmente sombrio.

No filme brasileiro enxerguei ecos dessa narrativa. Em Bacurau, assegura-se o prestígio da cultura e das artes: um dos personagens principais é um professor, Sônia Braga interpreta a médica Domingas, os planos focam diversas vezes na fachada da escola “João Carpinteiro” (!!!), o desprezo do prefeito pelas letras é retratado de forma aviltante, um repentista insiste em propor uma trilha sonora natural e, mais importante, os cidadãos mantêm com orgulho um pequeno museu histórico da cidade. É a utopia possível, no plano intelectual, em meio às inevitáveis privações materiais do interior pernambucano. (Caramba, não tem jeito, vêm spoilers de montão daqui pra frente). Quando estrangeiros sem nenhum apreço pela vida decidem fazer da cidade o cenário para suas diversões sádicas, só resta a luta. E, no fim, quem vence são os golpeados moradores da cidade-vilarejo, que revestem sua fortuna espiritual de um poder de fogo insuspeito. Sob certo ponto de vista, na briga entre quem pouco tem e quem tem de sobra (com tempo suficiente para se dar ao luxo de satisfazer, num safári humano, seus instintos mais primitvos, de forma a aplacar supostas dores morais), o povo está mesmo, paradoxalmente, em enorme vantagem: como disse, justamente por não ter absolutamente nada a perder. (Os indígenas equatorianos, nas ruas, não me deixam mentir).

A moral da história é que nenhuma utopia é deixada sobreviver impunemente, e todo sonho de liberdade implica certa desumanização por parte de quem o sustenta. (Obviamente, já está dado que, do lado de fora da utopia, só resta mesmo a des-humanidade).


Toda essa leitura pode ser pura viagem minha, mas é o próprio Bacurau que nos incita a acrescentar, na lida com a realidade nua e crua, uma dose de alucinação e, talvez, de crueldade.

No fim das contas, a canção de hoje virou só um mote, pois foi grande a tentação em embarcar nesse delírio cinematográfico, em que a fantasia parece dizer mais sobre esse “mundo de ponta-cabeça” (como afirma um personagem, a certa altura) do que a própria realidade e sua tradução nos signos que nos rodeiam (assolam?).

“Bichos Da Noite”, de Sérgio Ricardo – um cancionista de quem nunca tinha ouvido falar até os 20 anos, quando vi espantado, pela primeira vez, as imagens dele lançando violentamente seu violão para a plateia do III Festival de Música Popular Brasileira, em 1967 –, aparece logo no primeiro ato de Bacurau.

Alexandre Matias, no Trabalho Sujo, discorre sobre a importância da canção para a trama, considerando que suas incontáveis referências e pistas (como o próprio nome escolhido para a escola da cidade) não são gratuitas:

A canção foi originalmente composta para uma peça de Joaquim Cardoso, poeta e dramaturgo pernambucano que começou tardiamente a vida artística, lançando seu primeiro livro de poemas aos 50 anos de idade, época em que passou a escrever suas peças. “Bichos da Noite” foi escrita para a primeira peça de Cardozo, O Coronel De Macambira, antes de Sérgio Ricardo ser chamado para compor a trilha sonora de dois clássicos brasileiros que ecoam em Bacurau, Deus e o Diabo na Terra do Sol e Terra em Transe, de Glauber Rocha. Cardozo, antes de se assumir poeta, era engenheiro civil e foi o responsável por transformar em cálculos matemáticos boa parte dos devaneios arquitetônicos de Oscar Niemeyer – incluindo aí parte de Brasília e especificamente o Palácio do Planalto. Numa única canção, que menciona nominalmente o título do filme, Kleber e Juliano plantam referências ao Cinema Novo, ao governo federal, à cultura pernambucana, à construção de Brasília, à paisagem nordestina.

De minha parte, complemento que “Bichos Da Noite” – com seu instrumental que evoca o suspense do caçador espreitando a presa, até tomá-la de assalto, além do tom agreste acrescentado pelo som do berimbau, sendo a capoeira o objeto de uma bela tomada de Bacurau – parece nos atirar diretamente para a obra de Kleber e Juliano.

Poderia, no mais, ser um perfeito resumo do que o filme reserva ao espectador: “Festa do medo e do espanto / De assombrações num sarau / Furando o tronco da noite / Um bico de pica-pau […] / Medo da noite escondido / Nos galhos de pé de pau / A toda dança acompanha / Tocando seu berimbau / Um caçador esquecido / Espreita de alto jirau / Não vê cotia nem paca / Só vê jaguara e babau / Alguém soluça e lamenta / Todo esse mundo tão mau”.

sergio-ricardo.jpg
Sérgio Ricardo: de um revoltoso cantor nos festivais (e tinha suas razões) à trilha sonora de um momento-chave do cinema nacional.

P.S.: está rolando um debate interessante no post sobre Bacurau que o blogueiro Wilson Ferreira propôs em seu (sempre ótimo) CinegnoseSugiro uma visita – até porque o texto ali proposto, diferentemente do meu, problematiza o impacto inicial da obra na crítica, especialmente aquela afinada com o ideário de esquerda – e uma conferida nos comentários lá registrados.

3 comentários

  1. Gostei muito da música e do texto.Quanto ao filme,não vi,na minha cidade,que está mais para vilarejo também,não tem cinema.

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    1. Se você assistir ao filme, vai pensar duas vezes antes de comparar Populina com Bacurau! hahaha
      Grato pelo comentário e, na primeira oportunidade, procure prestigiar essa bela obra cinematográfica brasileira. No começo, também não dei atenção, mas as pessoas foram insistindo e tive que dar o braço a torcer. Valeu muito a experiência.

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