289. Jair Rodrigues: “Disparada”

Prepare o seu coração
Prás coisas que eu vou contar
Eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão
E posso não lhe agradar


Ainda estou sob o impacto do legítimo “faroeste caboclo” de Bacurau. E então me lembro que a expressão, antes de nomear canção de nove minutos, apareceu numa crônica de Lima Barreto, que li na 8ª série. E o professor de História que nos fez ler uma antologia desses textos do autor de Triste fim de Policarpo Quaresma era Dagmar – o personagem do post sobre “Arueira”, canção de Geraldo Vandré, justamente o mestre que me apresentou o compositor paraibano. Completando a corrente, Vandré aparece na trilha de Bacurau com “Réquiem Para Matraga”.

Quando a canção soou na película, pensei: “mais apropriado, impossível”. Afinal, as peças de Vandré têm essa característica meio épica, meio cinematográfica. São obras grandiosas, que transformam eventos banais (uma caminhada ou uma cotidiana disparada bovina – cotidiana, é claro, para o homem do campo) em fatos quase revolucionários.

“Disparada” entra, facilmente, no top-5 das melhores canções abordadas no blog. Composta por Vandré e Theo de Barros, a conheci (meio tardiamente) quando a TV Cultura celebrou os antigos festivais da música brasileira propondo, em 2005, um novo festival e uma grade de programas (que durou uns bons três meses) dedicados a narrar as estórias que ficaram daqueles agitados fins dos anos 1960. O verso inicial “Prepare o seu coração”, inclusive, era uma espécie de slogan que a emissora utilizava como senha para divulgar algum desses programas.

Assistindo a esses especiais, compreendi a importância histórica da canção. E havia toda a mística que mesclava conspiração, marmelada, indignação e coleguismo, quanto ao resultado do festival de 1966, que quis premiar “A Banda” de Chico Buarque (interpretada por Nara Leão) e não a composição sublime de Vandré e Theo. No fim, decidiu-se pelo – injustíssimo, como reconheceria o próprio Chico – empate. Afinal, como afirma o sapientíssimo Caetano Veloso em Verdade tropical, “Disparada” era simplesmente o ponto mais alto (e insuperável) da carreira de Geraldo Vandré como compositor.

Para além disso – incríveis bastidores da canção em suas primeiras apresentações –, “Disparada” é perfeita em forma em conteúdo. E não me refiro ao arranjo, que privilegia timbres e instrumentos que remetem diretamente ao boiadeiro do sertão, mas à forma divina como foi interpretada por Jair Rodrigues. Desde 66, seria impossível dissociar a canção do intérprete nascido no município paulista de Igarapava.

Afinal, quem além de Jair poderia cantar (da parte mais elevada da tessitura, ganhando gravidade e um caráter asseverativo conforme vão sendo entoados) os versos “Na boiada já fui boi, mas um dia me montei / Não por um motivo meu / Ou de quem comigo houvesse / Que qualquer querer tivesse / Porém por necessidade / Do dono de uma boiada / Cujo vaqueiro morreu”?

Enfim, “Disparada” não precisa ser desvendada, apenas ouvida. Por isso, continuo o post apenas com mais duas estorietas.

A primeira é mais uma curiosidade: Jair viveu a juventude em minha terra natal, São Carlos. Meu avô, o ali conhecidíssimo comerciante nissei Jorge Mori, tinha uma tinturaria ao lado do Hotel Accacio, na Avenida São Carlos, esquina com a Sete de Setembro. Jair Rodrigues, lembra meu ojiichan, era o engraxate que diariamente, após alguns períodos de trabalho na praça Coronel Salles (ali do lado), aparecia na tinturaria para bater papo e dar umas risadas.

A outra é sobre o show de Jair a que assisti também em São Carlos, em 2012. Lembro que fiquei chocado com a vitalidade daquele homem, dando cambalhotas, pulando e se sacolejando o tempo todo, do alto de seus 72 anos. O repertório foi lindíssimo e emocionou a todos com “Se Todos Fossem Iguais A Você” e “Arrastão”, dedicada a Elis. O cantor ficou bastante emotivo ao falar sobre a amiga que nos deixara havia 40 anos, contou alguns causos sobre a amizade e, olhando para o céu, disse: “Elis, meu anjo, aguenta mais um pouquinho aí, que jajá a gente tá chegando!” A plateia toda se riu mas, penso eu, ninguém poderia imaginar que o gracejo (dirigido a nós e à própria Elis Regina, percebo agora) estava mais para premonição. Pois dali a menos de três anos Jair faria a viagem derradeira – e quero acreditar que, hoje, no Céu, esses dois estejam fazendo ótimos shows juntos.

O que ficou inesquecível, dessa única vez a que presenciei Jair cantando diante de meu olhos, foi a aguardadísima versão para “Disparada”. Foi, sem dúvidas, um dos mais emocionantes momentos musicais de minha vida. Marejou.

Para além das emoções (que são tantas), gosto de ver como a canção acabou sensibilizando uma outra geração de compositores, de um espaço-tempo muito diferente daquele em que floresceu Jair. É que “Disparada” foi atualizada, naquele mesmo 2005 em que a escutei pela primeira vez, pelo rapper Rappin’ Hood, em Sujeito homem 2.

Surgiu, daí, uma “Disparada Rap”, cantada com a participação do próprio ex-engraxate de São Carlos. 

O colega Leonardo Davino, dono do primeiro 365 Canções, abordou “Disparada Rap” no dia 179 (que, aqui, foi dedicado a “Amigo É Pra Essas Coisas”, coincidentemente, também mais ou menos da época dos festivais), deixando esse belíssimo texto, com o qual encerro o post:

Em seu imprescindível texto A fratria órfã, a psicanalista Maria Rita Kehl faz lúcidas abordagem e análise sobre o esforço civilizatório do rap. Entre outros aspectos, a autora escreve que se por um lado os rappers “parecem interessados em radicalizar um discurso contundente de oposição”, por outro lado, a consciência e a atitude (cuja força vem do investimento na palavra) significam “orgulho da raça negra e lealdade para com os irmãos de etnia e de pobreza”.

Recusando a postura de pop star os rappers falam para seus semelhantes: os jovens da periferia. O sentimento de proximidade daquilo que é dito (cantado) com a realidade do ouvinte (que precisa preparar o coração para ouvir a realidade cantada) é a meta do rapper. “As letras são apelos dramáticos ao semelhante”: os manos. Ainda para a autora citada acima, “a designação de ‘mano’ faz sentido: eles procuram ampliar a grande fratria dos excluídos, fazendo da ‘consciência’ a arma capaz de virar o jogo da marginalidade”.

Dito isso, pensar sobre a versão que o rapper Antônio Luiz Júnior – o Rappin Hood – fez para a clássica e canônica “Disparada”, de Théo de Barros e Geraldo Vandré, amplia nossa consciência das verdades brasileiras. A “Disparada rap” de Rappin Hood, registrada no disco Sujeito homem 2, 2005 (um disco assumidamente brasileiro: cheio de misturas luminosas e iluminadoras), além de evocar o castigo da seca, aponta para onde os retirantes (ainda) migram: a periferia das grandes cidades.

Novos sentidos são disparados. Outras verdades são investigadas. Rappin Hood, como sugere sua persona, “rouba” dos ricos e entrega aos pobres. Ou melhor, desliza o lugar da canção “Disparada” para presentificá-la (dar de presente) aos manos. Ao mesmo tempo em que restitui a valorização de “Disparada” na história da canção brasileira. “Eu não quero que o irmão escute e se revolte, que queira quebrar tudo. Quero que ele aprenda a contestar, perguntar, tudo de forma organizada”, afirma.

Ora se dirigindo a um mano, ora falando com um dessemelhante, o sujeito da canção desenha o percurso do seu cotidiano: produz novo significado à exclusão social. A voz de Jair Rodrigues (o homem que cantou “deixe que digam, que pensem, que falem” marcando a clara entoação da fala no canto), entrecortada pela voz de Rappin Hood (que ora ratifica, ora faz pequenas alterações no que é dito por Jair), fortalece a mensagem cantada, pelo sabor da importância de Jair na nossa canção.

As sonoridades nordestinas e o sampler misturam passado e presente a fim de abrir um futuro possível: a hibridação (em um país misturado, miscigenado) que une canção e rap, negros e brancos. Happin Hood encontra uma terceira margem. Distante da segregação racial (e consequentemente total).

Se “é para entrar na história”, “Disparada rap”, tensionando a mistura que constitui o Brasil, já entrou. O rap já se inscreveu na história da música popular brasileira: Rappin Hood prova isso: “Em cima da cadência do samba, eu vou rimando. Não quero ser cópia de um rapper americano”.

jair-rodrigues.jpg
Jair Rodrigues: provável criador involuntário do rap e quem deu voz e alma a “Disparada”.

Existem muitas e muitas versões para “Disparada”. Mas, como a gravação original de Jair, em 1966, é insuperável, vou compartilhar apenas uma releitura digna e interessante: aquela registrada por Elba Ramalho, Geraldo Azevedo e Zé Ramalho em O Grande Encontro 2 (1997). Abrindo o álbum, o registro não traz a “disparada” no andamento da canção, marca da gravação original, mas consegue transportar o ouvinte para o coração do sertão nordestino – o que, afinal, também deveria ser o desejo de Vandré, ao compô-la: 

2 comentários

  1. ”Disparada” é (talvez) a música mais representativa dos anos sessenta.Eu gosto muito da canção singela de Chico Buarque,que segundo Nelson Motta e Zuza Homem de Mello (corroborando com Caetano Veloso) era,sim,inferior à música de Théo de Barros e Geraldo Vandré.

    Curtir

    1. “Disparada” está muito, mas muito mesmo, à frente de “A Banda”.
      Quanto a Nelson e Zuza, eu gostaria de dar mais crédito a eles, quanto às coisas que aqui escrevo. Acho que eles foram minha primeira escola sobre narrativa e crítica musical – e isso numa época em que era preciso dar a sorte de trombar algum deles na televisão, e só assim para ter acesso a seus depoimentos. Por sorte, se Nelson frequentava mais a Rede Globo, Zuza costumava dar as caras na TV Cultura – e esses foram, por muitos anos, os dois únicos canais que nossa antena captava.
      Grato pelo comentário.

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s