290. Zeca Baleiro: “Bandeira”

Eu não quero ver você cuspindo ódio
Eu não quero ver você fumando ópio
Pra sarar a dor
Eu não quero ver você chorar veneno
Não quero beber o teu café pequeno
Eu não quero isso seja lá o que isso for


Quando fui adolescente, o Sesc idealizou o projeto “Os cinco no palco”, que reunia jovens talentos da nova MPB de então. O ajuntamento, que chegou a excursionar por algum tempo – pelo menos no próprio circuito Sesc – era formado por Chico César, Lenine, Marcos Suzano, Paulinho Moska e Zeca Baleiro.

Nessa época, 1998, tinha apenas 13 anos e conhecia canções de dois membros do supergrupo: “Mama África”, maior hit de Chico César, e “O Último Dia” de Moska, que abriu a mini-novela global O fim do mundo (1996).

Vinte anos depois, posso me orgulhar por conhecer um repertório muito mais vasto, associado a esses nomes, e de ter assistido a apresentações ao vivo de todos eles.

E hoje percebo que, entre os cinco, talvez o que mais me agrade seja Zeca – embora tenha sido, também, o último que fui conhecer. O percussionista Marcos Suzano (como repararia mais tarde) estava na ficha técnica de incontáveis álbuns de minha discoteca; de Lenine, devo ter escutado (e adorado) “Jack Soul Brasileiro” na virada para os anos 2000; mas só fui apreciar um disco inteiro de Zeca no início de 2004.

Um casal de tios havia viajado e precisava de alguém para cuidar da casa. Eu estava de férias e tinha disponibilidade. Meus pais incentivaram, talvez para desfrutarem de um sossego a mais, ainda que por apenas uma semana. Então, juntei umas tralhas e me mudei temporariamente para aquela enorme casa no Jardim Paulistano.

Não havia internet nem qualquer outro tipo de distrações, exceto a rica coleção de discos de meu tio. Assim, dediquei meus dias de caseiro a debravar aquele universo musical, encontrando, numa pequena caixa guardada no rack da sala, o álbum de estreia do cantor e compositor maranhense, Por onde andará Stephen Fry? (1997).

Já conhecia, desde 2002, o hit “Heavy Metal Do Senhor”, que achava divertido. Mas não tinha me animado a ouvir outras canções de Zeca. Quando me deparei com o álbum, pensei: “por que não?”. E foi paixão à primeira audição.

Adorei o ponto “Mamãe Oxum” (gravado com Chico César), soltei um baita sorriso quando saquei a citação de “Não Vá Se Perder Por Aí” (dos Mutantes) em “Salão De Beleza”, dei muitas risadas com “O Parque De Juraci” (com Genival Lacerda) e fiquei embasbacado com “Flor Da Pele” – uma homenagem a “Vapor Barato”, de Jards Macalé e Waly Salomão.

Aliás, quanto a “Flor Da Pele”, rolou até uma dobradinha bacana: na mesma caixa onde encontrei Por onde andará Stephen Fry? estava o Acústico MTV (1997) de Gal Costa, que trazia a baiana cantando “Vapor Barato” justamente em companhia de Zeca, num pot-pourri com sua própria composição. Pirei, num revezamento infinito, entre essas duas canções – pulando de uma para a outra, e voltando ao começo.

Mas a canção que mais me deixou impressionado foi “Bandeira”, que se seguia à abertura do álbum com o “Heavy Metal Do Senhor”. A letra me soava ao mesmo tempo linda e muito difícil de cantar junto, dados os recursos poéticos de que Zeca lançara mão, com destaque para a abundância de aliterações e assonâncias.

Sempre gostei, especialmente, do jogo de rimas entre aquilo, crocodilo, (Rio) Nilo, estilo e mamilo – aparentemente, palavras que só a duras penas poderiam ser articuladas semanticamente de forma a constituir um poema. Curiosamente – ou não –, o Capital Inicial já as tinha alinhado (exceto “mamilo”) numa composição antiquíssima, lançada no primeiro e único compacto da banda, Descendo o Rio Nilo/Leve desespero, em 1985: “A Europa está um tédio / Vamos transar com estilo / Nós só temos um remédio / Descendo o Rio Nilo / Descendo o Rio Nilo / Eu fico pensando no que você faria / Se tivesse visto aquilo / O quê? / O quê? / Amor de crocodilo descendo o Rio Nilo / Amor de crocodilo descendo o Rio Nilo”.

Voltando a “Bandeira”, destaco também a dialética entre o /não querer/ e o /querer/, as modalizações imperantes na letra. A harmonia ressalta a forma como o polo negativo da relação, progressivamente, se acentua e acumula tensões, até ser resolvido no refrão que restaura a tonalidade com acordes alterados – diria até “amaciados”.

Assim, o Dó Maior que inicia a canção, embora convide o acorde da subdominante, Fá Maior (que aparece como Fmaj7 e F6, além de alterar o baixo de um acorde da dominante, G/F), acaba se desviando para notas estranhas ao modo jônio, como seria o esperado. Insinua-se, conforme a letra atravessa imagens cada vez mais carregadas de dramaticidade e ares de tragédia (“Peixe na boca do crocodilo”, “Eu não quero ter o Tejo escorrendo das mãos”), outros modos, talvez o inesperado modo eólio: aparecem aí acordes como B♭dim, A♭maj7 e E♭9, que trazem uma melancolia linda à canção. E veja como o refrão retorna ao Dó Maior, com um colorido suave, bem de acordo com os valores positivos da letra: Em7/9, F6 e Am(maj7) – ainda que guardando resquícios das dissonâncias pretéritas, na forma de B♭7/9 e Fm6.

Uma obra belíssima e completa. Não à toa, Zeca Baleiro se firmou rapidamente, após Por onde andará Stephen Fry?, como um dos nomes mais promissores de sua geração.

E a promessa foi e continua sendo cumprida, na brilhante carreira do cantor de São Luís.

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Zeca Baleiro: a nova MPB mostra suas armas, e elas são feitas de inteligência, lirismo e competência musical.

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