291. Monica Salmaso: “Navegante”

Navegador sem paz
Meu coração
Que deixa o cais
E vai sem direção
Em busca de emoção
A navegar por navegar
Solto na imensidão
Do mar
Terra distante meu peito amante
É um navegante que vai


Em 2014, Monica Salmaso lançou Corpo de baile, disco dedicado ao cancioneiro de Paulo César Pinheiro em parceria com Guinga – dupla que se uniu nos anos 1970, compôs grandes canções, e se separou repentinamente, na década seguinte.

Quando a capa do álbum foi divulgada, houve quem chiasse. A capa! Que, no fim das contas, é charmosa e linda sim. Já o conteúdo do disco demorou a me cativar.

Embora a crítica tenha sido unânime em apontar que Corpo de baile é um discaço – e não estou negando isso, porque o álbum é realmente belíssimo –, acho que Monica e os arranjadores pecaram pelo excesso. Com efeito, embora as canções sejam executadas com perfeição, incomoda bastante os ares camerísticos que as envolveram.

Penso que uma obra dedicada à produção cancional de Paulinho e de Guinga poderia fazer ressaltar o que os compositores têm de melhor: respectivamente, o riquíssimo conteúdo lírico e a inventividade ao violão.

Vivo de colocar Corpo de baile para tocar na esperança de que, um dia, esteja plenamente satisfeito com a forma como a antologia foi pensada, e passe a apreciá-la ainda mais.

De qualquer forma, uma das canções me fisgou de cara: o fado “Navegante”, onde os tais ares camerísticos são menos proeminentes.

(A propósito, o gênero português foi muito pouco abordado aqui no blog e, salvo engano, só o trouxemos aqui mediante “Desencontro De Primavera” – e, ali, compartilhava a versão de Roberto Leal para essa obra de Hermes Aquino, coincidentemente, apenas cinco dias antes da morte do cantor português).

Embora isso esteja escondido no meu fenótipo de yonsei, tenho sangue lusitano nas veias, cortesia de minha bisavó, Dona Francisca, vinda direto de Trás-Os-Montes. Por isso, nutro enorme simpatia por tudo o que vem de Portugal e acho lindo quando artistas brasileiros decidem reler ou reinterpretar algum fado.

Bom, Monica Salmaso, ao fazê-lo, atingiu a perfeição: sua interpretação é precisa e sabe se equilibrar entre momentos mais contidos e mais expansivos. Até porque, na esperta letra de Paulinho, combinada com a harmonia proposta por Guinga, o eterno movimento das ondas do mar é sugerido por modalizações, que acumulam energias a serem liberadas, resolutamente, no movimento da melodia para os pontos mais altos da tessitura. E no deslocamento entre as regiões graves e agudas, Monica se apresenta com máxima desenvoltura, com seu tibre entre soprano e contralto.

A letra também é repleta de imagens que nos sugerem a ideia de jornada ao desconhecido, o abrir-se à experiência mundana – como fizeram os navegantes portugueses há cinco séculos. No entanto, não se trata de uma viagem em termos literais, pois estamos no campo da metáfora, como explicita a própria letra (e preste atenção às rimas): “Canoa / A paixão é uma canoa / Com meu coração na proa / A serviço da coroa / De minha alma que é Lisboa, ai / Navegador”.

Para fazer nossos corações navegarem, de fato.

monica-salmaso.jpg
Monica Salmaso: o timbre Mezzo numa tênue linha entre o popular e o erudito.

Disse que, no meu entender, as composições de Paulo César Pinheiro e Guinga precisam ser interpretadas de forma a ressaltar as principais qualidades dos cancionistas. Pois Dudu Sperb, justamente num álbum intitulado Navegante (2019), parece ter chegado à mesma conclusão. Ali, recebendo o próprio Guinga ao violão, o cantor porto-alegrense refaz “Navegante” com simplicidade e elegância, até arriscando um sotaque português lá pelas tantas. E fico imaginando como não seria lindo um dueto entre ele e Monica, acompanhados de Guinga. Quem sabe? Aprecie:

Já falei bastante de Paulo César Pinheiro no blog, mas o post que dediquei a Guinga, com “Contenda”, permanece em certo ostracismo. Não deixe de apreciá-lo, pois a canção é belíssima – aliás, como tudo o que o carioca toca.

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