292. Luiz Melodia: “Esse Filme Eu Já Vi”

Tô na rua fim de semana
Não venha me por medo
Eu já saio um rochedo
Não te vi, não te conheço
Você tá falando grego
Esse filme eu já vi


Minhas recordações associadas à figura de Luiz Melodia são esparsas.

Lembro que, na época do lançamento de seu Acústico – ao vivo (1999), o artista foi convidado para o programa Musikaos, da TV Cultura, apresentado por Gastão Moreira. Acostumado a ver, naquele palco do Sesc Pompeia, nomes do rock nacional (fossem mais do mainstream, ou mais alternativos), foi com surpresa – e admiração – que conferi a apresentação de Melodia, cercado apenas por dois violonistas. Na certa, foi o nome “mais MPB” que já passou pelo palco do programa.

Anos depois, teria duas oportunidades de conferir a Pérola Negra ao vivo.

A primeira vez ocorreu no 5º Chorando Sem Parar, num eletrizante show de encerramento em que Melodia dividiu o palco com ninguém menos que Elza Soares. Que química entre esses dois! Cantaram, dançaram (juntos) e deixaram a heterogênea plateia do festival boquiaberta. Particularmente, acho meio difícil acreditar que tudo isso realmente aconteceu naquele saudoso 2008: dois de nossos maiores artistas, privilegiando um repertório chorão, num pequeno palco montado na praça mais animada da cidade. Mas, sim, foi real!

E em 2012, num ano em que muitos artistas passaram por São Carlos e imediações, Melodia se apresentou no Sesc são-carlense, num frio 10 de agosto. Fui ao show acompanhado da turma do doutorado, imaginando que, então, Melodia estaria mais à vontade do que naquela apresentação de 2008. A certa altura do espetáculo, o artista carioca deixou o palco, e a (competente) banda que o acompanhava preencheu o tempo com alguns números instrumentais. Vinte minutos depois, nada da estrela retornar. Foi uma situação esquisita. Quando enfim o cantor voltou, surgiu paramentado de um belo cachecol, e explicou-nos que, dada a corrente de ar frio que partia da entrada do Sesc e chegava ao palco, acabou por ficar, simplesmente, afônico. (A foto abaixo, registrando o momento, roubei do São Carlos Agora).

luiz-melodia-sesc-sao-carlos.jpg

E, assim, a duras penas, Melodia cantou mais alguns números e encerrou a apresentação abruptamente com “A Voz Do Morro” (de Zé Keti), se desculpando literalmente às lágrimas. Todos compreenderam, apesar da decepção generalizada, pois esperávamos uma apresentação inesquecível, mas por outros motivos.

Apenas cinco anos depois, Luiz Melodia nos deixaria.


Julia pediu Melodia aqui no blog por volta de fevereiro, e estava enrolando para atender seu pedido desde então. Como se não bastasse, estou propondo outra canção como tema!

Com efeito, minha parsa solicitou um post sobre “Congênito” (dos geniais versos iniciais “Se a gente falasse menos / Talvez compreendesse mais”), mas resolvi trazer “Esse Filme Eu Já Vi”. Sorry!

Composta em parceria com Renato Piau, a canção apareceu no álbum Retrato do artista quando coisa (2001), como uma azeitada síntese pós-tropicalista entre a embolada e o rock, se assim podemos defini-la. A levada é conduzida ao pandeiro, mas Piau acrescentou guitarras agrestes, que diluem os ares regionais da faixa e a inserem num contexto mais cosmopolita e urbano – que, aliás, a própria letra procura descrever. Na verdade, nem se trata do mundo urbano, e sim suburbano.

Falando assim, lembro da leitura de O que é umbanda, de Patrícia Birman (São Paulo:  Brasiliense, 1985), que faz um estudo antropológico sobre a religião sincrética brasileira. Ali, a autora propõe que a umbanda se apresenta como uma forma de espiritualidade mais abrangente que as demais religiões que aqui floresceram, explicando que suas entidades são remetidas aos três mundos possíveis da realidade brasileira: o não urbano (o campo, dos caboclos), o urbano (erigido desde as casas-grandes dos antigos senhores de terras, habitadas por pretos-velhos e crianças) e o suburbano (o mundo dos exus e pombas-giras).

Talvez uma leitura possível, para “Esse Filme Eu Já Vi”, envolva identificar a voz que canta com a expressão de alguma dessas entidades da sub-urbanidade, talvez um malandro. Faz sentido considerar os seguintes versos, que aparecem praticamente como um refrão, com a fala de um Zé Pelintra: “Passo eu a navalha na noite / Fatiando o que não vi / Passo eu a navalha na noite / Esse filme eu já vi”.

De toda forma, a letra desloca o ouvinte para o mundo das transações informais, a furtividade das noites em seus becos e vielas e as drogas nas esquinas, trazendo também a dialética entre o eterno retorno (“Esse filme eu já vi”) e a novidade emergente (“Eu esse filme eu não vi”), que se desenvolve justamente nessa penubra do espaço público.

Apesar da canção, em forma e conteúdo, se apresentar esquiva às interpretações e às leituras mais simplistas, não deixa de possuir vocação popular: escutei-a, pela primeira vez, ouvindo rádio.

Uma obra e tanto, emanada de um autor e intérprete que faz falta.

luiz-melodia.jpg
Luiz Melodia: voz do Estácio que transcendeu rótulos e gêneros.

“Esse Filme Eu Já Vi” foi lançada em Com você meu mundo ficaria completo (1999), álbum de Cássia Eller que fez o hit “O Segundo Sol”. Ali, a canção recebeu um arranjo caprichado e cheio de volume, com uma respeitável orquestra de sopros:

Mais recentemente, o compositor Renato Piau releu sua parceria com Melodia em Renato Piau em casa com a música (ao vivo) (2017), numa concisa versão voz-e-violão, propondo uma levada mais próxima do arranjo de Retrato do artisa quando coisa:

3 comentários

  1. Não conhecia a música,muito boa.Quanto ao Luiz,o Melodia,se não fosse compositor poderia ter feito carreira como intérprete,tinha um dos timbres mais bonitos que eu já ouvi.

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    1. De fato, ele tinha um timbre muito gostoso de escutar. Mas, nos anos finais de vida, sua voz já estava soando mais rasgada e anasalada – o que não diminuía sua importância para a MPB.
      Grato pelo comentário.

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