293. Teixeirinha: “Coração De Luto”

O maior golpe do mundo
Que eu tive na minha vida
Foi quando com nove anos
Perdi minha mãe querida
Morreu queimada no fogo
Morte triste, dolorida
Que fez a minha mãezinha
Dar o adeus da despedida


Em 2006, quando comecei uma nova iniciação científica, inaugurava as manhãs de trabalho lendo crônicas de Millôr Fernandes publicadas no Pasquim. Os textos estavam reunidos na antologia Millor no Pasquim (1977), editada pelo Círculo do Livro. (Contei mais sobre essa época aqui).

A página 124 começava com a crônica “E isso é isso”, publicada na edição 167 do Pasquim. O texto me pareceu indecifrável, cheio de referências ao contexto político e social dos anos 1970. E, numa frase enorme – que me fez rir com a seguinte passagem “bíblica”: “o grande erro de Noé é que ele botou na arca dois animais de cada espécie mas, quando chegou a vez do burros, deixou entrar todos” –, o escritor mencionava o fato de que o Rio de Janeiro vivia um calor insuportável, “o lugar mais quente sendo, agora, a churrascaria Carreta, cujo dono se chamando Teixeirinha estava mesmo dando sopa pros engraçadinhos encomendarem a ele churrasco de mãe […]”.

Sem conhecer Teixeirinha, não entendi a piada. Mas não demoraria muito a que, enfim – e por acaso – eu viesse a sacar a referência. Isso porque havia comprado, em 2007, o álbum de título autoexplicativo Clássicos do Sul (1997), da dupla pelotense Kleiton & Kledir. E lá havia uma regração de “Coração De Luto”, talvez o maior sucesso do cantor sulista que nos deixou em 1985.

A letra é bastante conhecida e narra a tristeza de um garoto – o próprio Teixeirinha – ao voltar da escola e se deparar com muita fumaça e uma multidão reunida próxima a seu rancho. E logo o guri se apercebe de que o fogo partia mesmo da casa onde vivia com sua mãe. Acidentalmente, a mulher havia se incinerado e morrido carbonizada. Restou ao infante o sofrimento da perda e o cair no mundo, sozinho.

“Coração De Luto” – capaz de expressar tanta dor que mesmo eu, gélido como sou, me enterneci e me emocionei imediatamente ao ouvi-la pela primeira vez – aparece no LP O gaúcho coração do Rio Grande (1960) e chegou a originar um filme, de mesmo nome, lançado em 1967 e contando com o próprio Teixeirinha na concepção do roteiro e no elenco. De fato, o cantor riograndense se notabilizaria por, além de compor prolificamente, vir a desenvolver uma relativamente bem-sucedida carreira cinematográfica.

A piada que fez “Coração De Luto” se tornar conhecida como “Churrasquinho De Mãe” (como registrou o texto de Millôr) é de péssimo gosto e não merece nossa atenção. O que importa destacar é que, nessa bela canção sobre a vida no campo, tudo é o avesso do que se ouve, atualmente, como sendo o gênero “sertanejo”.

Em vez de exibir feitos e comemorar conquistas – a suposta macheza dos agroboys é algo mesmo a ser estudado! Quem precisa cantar esse tipo de coisa pro Brasil inteiro só pode estar num baita conflito com a própria sexualidade! –, temos um sujeito que se desnuda,  expondo sua total fragilidade. O enunciador da canção chora, se refere à figura falecida (carinhosamente) como “minha mãezinha”, enfrenta uma torrente de dificuldades (“Passei fome, passei frio / Por este mundo perdido”) e, então, confessa que irá respeitar, para sempre, a ética que aprendera no lar: “Quando mamãe era viva / Me disse: filho querido / Pra não roubar, não matar / Não ferir, não ser ferido / Descanse em paz, minha mãe / Eu cumprirei o seu pedido”.

O final da canção, com a repetição dos versos “Desde nove anos tenho / O meu coração de luto”, é simplesmente de cortar o coração, e dispensa que prossigamos na análise dessa canção tão bela, sobre o que deve ser mesmo a pior das perdas.

teixeirinha.jpg
Teixeirinha: a voz do campo que emociona do Sul ao Norte.

Mais tarde, “Coração De Luto” ganharia uma continuação. “Resposta Ao Coração De Luto” (às vezes constando como “Resposta Do Coração De Luto”) apareceu em Assim é nos pampas (1976) e traz o mesmo sujeito da canção de 1960, relatando ter sonhado que recebeu uma carta de sua falecida mãe. Ou seja, estamos diante de uma mistura de onirismo com psicografia! Importa destacar que, na carta, está a exortação da mulher pedindo para que o filho se ergua e supere o luto. O texto epistolar não é cantado, mas declamado de forma emocionante. Linda canção:


“Coração De Luto” recebeu diversas releituras, tanto internas ao próprio gênero da música caipira, como de autores nem tão identificados com os sons ditos regionais. Vale a pena comentar algumas delas.

Primeiramente, temos a versão que me apresentou “Coração De Luto”, no álbum de Kleiton & Kledir. A principal qualidade do disco, e também seu maior defeito, foi a tentativa de modernizar os clássicos regravados. Isso foi proporcionado, geralmente, com a adição de programações eletrônicas às faixas, comprometendo seriamente algumas (por exemplo, “Nuvem Passageira”, de Hermes Aquino), e funcionando em outras (poucas) gravações. “Coração De Luto” fica no meio termo; embora a percussão eletrônica seja dispensável, não estragou a obra de Teixeirinha:

Um registro muito bonito é o do sempre craque Sérgio Reis, em Saudade de minha terra (1975), LP que traz a canção-título, a linda “Chalana” e “Rio De Lágrimas”. “Coração De Luto”, nessa gravação, parece ganhar intensidade, graças ao vocal emocionado do cantor paulista:

Também do mundo caipira, temos Milionário & José Rico, em Decida!!! (2003). O que poderia ser uma versão breguíssima acabou se mostrando uma gravação quase tão intensa quanto a já belíssima releitura de Sérgio Reis:

Emocionante também é a versão familiar da canção: em Sucessos de Teixeirinha (2013), os descendentes Teixeirinha Filho & Neto prestam tributo ao velho Rei do Disco. “Coração De Luto” aparece levemente modernizada, e vale mais pela curiosidade e pela questão afetiva, pois dificilmente supera as versões acima:

E a curiosidade final fica por conta da releitura de Humberto Gessinger, acompanhado do gaiteiro riograndense Luiz Carlos Borges, no tributo Especial Teixeirinha (2008). O cantor egresso dos Engenheiros do Hawaii, acompanhado de sua viola caipira, imprime uma inusitada pegada rock n’ roll a “Coração De Luto”. E não é que ficou bom? O andamento acelerado chega a lembrar o som ganchudo dos primeiros álbuns dos Engenheiros. O arranjo também faz citações às milongas gaúchas e bota Luiz Carlos para cair no rock – o que ele faz sem desapontar. Curta:

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