297. Jota Quest: “Fácil”

Tudo é tão bom e azul
E calmo como sempre
Os olhos piscaram de repente
Um sonho
As coisas são assim
Quando se está amando
As bocas não se deixam
E o segundo não tem fim


Mais um post da série “senta, que lá vem estória”.

Falei, aqui e aqui, sobre meu primeiro show de rock, aos 14 anos, no Sesc São Carlos. Oficialmente, de fato, foi naquele dia que debutei nesse universo de (longos) cabelos esvoaçantes, pulos, urros, bate-cabeças e outras demonstrações de pertencimento à tribo roqueira – as quais fui aperfeiçoando com o tempo, até abandoná-las quase que por completo na presente década.

Porém, devo fazer uma confissão, ou retificação. Ao menos extra-oficialmente, minha primeira experiência com o (pop) rock, ao vivo, aconteceu naquele mesmo ano, mas num outro ambiente: minha escola.

Estava na 8ª série, meu último ano a ser cursado naquela instituição – que abrigara, também, minha mãe e meus tios – e vivia com intensidade aqueles dias de primeira adolescência. Foi o ano em que vim a explorar as maravilhas da discoteca de meu pai, e ostentava, orgulhoso, algum conhecimento sobre sons internacionais, mesclados a meu já conhecido fanatismo sobre as bandas brasileiras dos anos 1980.

Era uma quarta-feira, 11 de agosto, Dia do Estudante. Naquele contexto micro, ganharíamos uma comemoração, fruto de alguma política populista do corpo gestor escolar. Num contexto mais amplo, algo mais terrível estaria para acontecer: o fim dos tempos! Pelo menos, era o que pareceria dizer certa profecia de Nostradamus, combinada com um fato astronômico (-lógico?) igualmente dramático: o último eclipse solar do milênio.

Bom, o que vimos, naquele dia, teve um pouco de tudo isso: celebração e drama.

Havia uma banda na escola – o que fui descobrir exatamente naquele dia –, que fora convidada a se apresentar após o intervalo. Todas as turmas foram dispensadas e poderiam prestigiar a apresentação. O guitarrista era um rapaz tranquilo, amigo de um amigo meu. Não lembro quem pilotou a bateria, e sei que o baixista, definitivamente, não era da escola: parecia bem mais velho que seus colegas de conjunto, que já eram mais velhos que a maioria de nós (meros pivetes do fundamental, enquanto eles já estavam no médio). O vocalista, por sua vez, era um cabeludo relativamente popular, com fama de skatista e – como dizíamos maldosa e preconceituosamente – puxador de fumo.

Som passado, instrumentos plugados, e eis que o repertório estreava com tudo: “I Saw You Saying”, dos Raimundos, então, já um clássico que todos na escola deveriam saber de cor. Ainda na introdução, o cantor destacou o microfone do pedestal e se pôs a pular. Cinco segundos depois eu, baixinho que sou, no meio daquela muvuca, só consegui distinguir, entre o som distorcido da guitarra e os golpes na bateria, um suspiro da plateia. Me ajeitando entre a multidão de gigantes, consegui flagrar um pequeno instantâneo do que se sucedera: o cabeludo jazia no chão, chorando de dor, segurando um tornozelo com as mãos. Ao lado dele, uma pequena poça de sangue. “Alguém chama os bombeiros!” E correm professores, inspetores, faxineiros para providenciar o socorro.

A apresentação fica interrompida por uns 10 minutos, quando chegam os paramédicos que, numa maca, conduzem o fraturado vocalista (sim, ao que parece, sua tíbia, já anteriormente acidentada numa queda de skate, havia se partido em duas) à ambulância. Deitado, ele acena para o público com o sinal de “joia”, tranquilizando-nos. Os bombeiros são aplaudidos. A banda se reúne rapidamente, o baixista assume os vocais e o show escolar é retomado.

Com a pequena balbúrdia que se instalara após o acidente, consegui contornar o palco – que não era palco coisa nenhuma, era o chão do pátio – e alocar-me num banquinho bem atrás do baterista. E foi dali, “de camarote”, que assisti ao resto da apresentação.

Talvez pensando que o som dos Raimundos trouxesse mau agouro, ou talvez para tornar o clima mais leve (inteligente providência, pois a fratura exposta – que não consegui ver – deve ter impressionado muita gente mais sensível), a banda não continou “I Saw You Saying”. A primeira canção, agora, seria o hit do momento: “Fácil”, do Jota Quest.

Todos cantaram juntos e, alguns minutos depois, os integrantes remanescentes souberam conduzir o show de tal maneira que havíamos esquecido do incidente com o primeiro vocalista. Aliás, havíamos esquecido que aquele seria o dia do “fim do mundo”. E mais importante ainda: havíamos esquecido que estávamos na escola!

Foi uma manhã única, um dos eventos mais marcantes para minha formação musical, ouso dizer. E sempre será lembrado pelo pátio escolar entoando, em uníssono, o refrão de “Fácil”.


A canção do Jota Quest foi lançada em De volta ao planeta (1998), disco que colocou três obras da banda mineira nos primeiros lugares das paradas de sucesso: a própria “Fácil”, a ótima “Sempre Assim” e a melosa “O Vento”.

Não há muito o que se dizer sobre o maior sucesso do Jota Quest, mas me arrisco a uma pequena análise. A obra é relativamente solar, sendo marcada pelo tom de Sol Maior. A harmonia percorre esse campo harmônico sem surpresas. A letra, marcada por um /querer/ metalinguístico (“Quero uma canção fácil, extremamente fácil”), acompanha rigorosamente o movimento da harmonia: nas passagens determinadas pelos acordes maiores (com a presença marcante da tônica, sempre passando pelos acordes da dominante e da subdominante), imperam os valores positivos; já nas pequenas quebras de continuidade introduzidas por uma harmonia menor, emergem pequenos óbices à euforia total (“Um dia feliz / Às vezes é muito raro”). Essa ponte, marcada pelo aparecimento do Si Menor (seguido de um grave Mi Menor), gera o álibi perfeito para que a euforia, ao menos no plano prospectivo da busca, seja retomada, juntamente com a bonita introdução, de volta ao Sol Maior: estamos no refrão que pede uma canção fácil, objeto/momento capaz de gerar uma conjunção num nível ainda mais amplo do que o do desejo anunciado na estrofe introdutória (“Quando se está amando / As bocas não se deixam / E o segundo não tem fim”), agora, o nível da coletividade (“Pra você, e eu, e todo mundo cantar junto”).

São cinco minutos que mal vemos passar. “Fácil”, composta pelo vocalista Rogério Flausino e seu mano Wilson Sideral (de quem já falamos aqui – e veja, nos comentários, que o homenageado daquele dia ficou sabendo da existência deste blog!) é uma canção pop perfeita. E, diante da análise lírico-harmônica acima, lembro de um fato dos anos 1980 (por sinal, época bastante cultuada pela dupla Rogério/Wilson): Lulu Santos, em seu início de carreira, viera a conhecer um livro que traçava os caminhos para a composição de sucessos radiofônicos e, seguindo direitinho as receitas ali expostas, começou a emplacar hit atrás de hit.

(Coincidência ou não, Lulu está representado em De volta ao planeta, com uma versão para “Tão Bem”).

Fico com a impressão de que os irmãos nascidos em Alfenas leram o mesmo livro. Mas, se não leram, captaram intuitivamente essa receita para o sucesso certeiro.

Considerando o fanatismo dos dois pelo Atlético Mineiro, penso numa analogia que se usa nos comentários futebolísticos: Rogério e Wilson parecem ter entrado em campo com o manual das 17 regras embaixo do braço. Aí, não tem erro mesmo.

jota-quest.jpg
Jota Quest: sabendo os caminhos do som fácil, extremamente fácil, de curtir.

“Fácil” recebeu muitas versões, que geralmente não inovam quanto ao arranjo original. Afinal, em time que está ganhando, não se mexe.

Assim, destaco apenas duas releituras, as mais inventivas – e bonitas.

A primeira é de Wilson Sideral, tocando ao vivo em Belo Horizonte em 2008. A versão é acústica e minimalista, coerentemente com a simplicidade requerida pelo cativante refrão:

Mais recentemente, o Jota Quest, em seu aguardado Acústico (2017), reviveu “Fácil” com uma pegada folk. Não supera a original, mas ficou bonita. Confira:

E, antes de encerrar, a curiosidade: a banda gaúcha Nenhum de Nós (já trazida ao blog, com “Eu Caminhava”), acompanhada de Rogério Flausino, propõe uma releitura de “Fácil” fiel ao arranjo original, mas com seus característicos toques gaudérios, graças à gaita de João Vicenti. A apresentação, datada de 2018, não foi prensada num disco oficial, mas mesmo assim vale a escuta:

2 comentários

  1. Essa todo mundo conhece e o refrão é extremamente fácil…
    Fiquei com pena do vocalista,tomara que ele tenha recuperado a tíbia.

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