298. Daniela Mercury: “Alegria Ocidental”

Tem que ter “Bah”
Tem que ter “ia”
Tem que ter alegria ocidental
Pode ser banal
Tem que ser Bahia
Tem que ter carnaval


Uma de minhas primeiras memórias a respeito de Daniela Mercury era sua participação numa propaganda, que talvez fosse mais uma campanha da ONU ou outra organização, veiculada por volta de 1992. Não lembro se a trilha sonora era dela; mas lembro da imagem fechando no rosto daquela mulher, e então sempre vinha o mesmo pensamento: “Como é bonita!”

Sim, confesso, leitores: Daniela Mercury deve ter sido minha primeira crush no meio artístico.

Foi nessa época que Daniela invadiu as rádios. Não tenho dados precisos a respeito de vendagens e semanas nas paradas de sucesso; tenho, entretanto, a memória. Nela, percebo estarem grafados muitos (muitos mesmo) sucessos da cantora baiana. Quando parei para escutar alguns de seus álbuns, já imaginando um post aqui, percebi que sabia de cor – sem saber que sabia – no mínimo três ou quatro canções de cada um de seus lançamentos dos anos 1990. Não é pouca coisa.

Embora meus caminhos estéticos e musicais tenham me afastado daquilo que viria a ser a axé músic, passei a admirar, nos últimos anos, todos os artistas mais associados ao gênero em suas origens. Essa turma, inclusive, já gerou alguns posts aqui: este, este, este e este, por exemplo. E, (nas raras vezes) em que estou me divertindo em São Paulo, é sempre um festejo ouvir o DJ sacar algo nessa linha. Principalmente Daniela, que tem ganhado muitos pontos comigo, por conta de sua militância e de seu posicionamento corajoso nas últimas eleições.

Para além disso, celebrei muito a edição do videoclipe de “Proibido O Carnaval”. Junto de um pintoso Caetano Veloso, a cantora deu o tom para minha folia em 2019, que rendeu boas e inesquecíveis experiências – e isso, apesar do clima pesado que se instaurara no país desde 1º de janeiro.

Foram dias tão bons que a parceiríssima Julia já começou a pensar no “carná 2020”. O que será de nós, então? Conseguiremos repetir os êxitos – e as aventuras cheias de te(n)são, enquanto aconteciam, despertando saudade depois de finalmente resolvidas – de 2019? Como nos prepararmos para alguns dias de celebração (descanso, jamais) sem excessos, com o espírito leve, mas cheio de animação e… àṣẹ?

Já tenho a receita: dá-lhe Daniela na gente.

E lembro, aqui, de uma canção que é pura positividade e, portanto, cabe perfeitamente na playlist desses preparativos. O título é pra lá de sugestivo: “Alegria Ocidental”.

A obra foi lançada em Música de rua (1994), álbum em que Daniela buscava repetir o sucesso estrondoso de seu disco anterior, Canto da cidade (1992). O tempo atesta: são dois lançamentos fantásticos! Mas, contrariando os críticos e toda a torcida do Flamengo, vaticino: sou mais Música de rua.

Com efeito, temos ali animação radiofônica (“Música De Rua”), exortação à ação popular (“Vulcão Da Liberdade” – que poderia ser a trilha sonora dos movimentos de rua que estão incendiando, literalmente, o Chile: “Saia de baixo meu bem / Lá vem o vulcão da liberdade / Com as suas labaredas / Vem tremendo a cidade”), balanço soul-funk (“Saudade”), romantismo (“Rosa” e a belíssima “Sempre Te Quis”, de Herbert Vianna – que, mais tarde, reapareceria no álbum de 1996 dos Paralamas do Sucesso, Nove luas, com arranjo semelhante, mas sem o mesmo brilho), uma delícia de reggae (o sucesso “O Reggae E O Mar”, lembrando que o oceano tem tudo a ver com Bob Marley), uma faixa tipicamente “browniana” (“Folia De Reis”, de Carlinhos Brown e Alain Tavares) e uma ousada síntese entre o gueto urbano e o sertão nordestino (a visionária e impressionante “Rap Repente” – que mistura hip-hop, samba, maracatu e rock, antevendo o fenômeno do manguebeat).

E, como se tudo isso fosse pouco, temos ainda uma desenvolta Daniela não apenas cantando, mas também compondo. Inclusive, nosso tema de hoje é de sua lavra, numa parceria com ninguém menos que Liminha.

Quanto a “Alegria Ocidental”, não há muito o que se explorar. A letra é explícita e totalmente dirigida aos valores eufóricos, lançando ao ouvinte um convite irrecusável: “Vivo dizendo que é bom / Danço morrendo de rir / Canto pra você me seguir / Se quiser, se quiser, se quiser”.

Mas destaco duas questões mais ou menos subjetivas.

A primeira é referente à impressão de que a faixa representa um dos melhores desempenhos vocais de Daniela. Infelizmente, não sou versado em análise vocálica, mas ouso afirmar que, em “Alegria Ocidental”, a cantora propõe inflexões que, comuns na fala cotidiana, não lembro de ter escutado alguma vez incorporadas à canção popular. Os trechos que mais me chamam a atenção, nesse sentido, dizem respeito aos versos iniciais, epigrafados no post, principalmente em “Pode ser banal / Tem que ser Bahia / Tem que ter carnaval”. Minha impressão é que, nesse canto, Daniela adiciona pequenas variações nas alturas, à escala dos microtons, fazendo dessa interpretação um registro único e dificilmente emulável ou reproduzível.

A segunda é ainda mais pessoal, e diz respeito aos versos “Cantoria unindo as palmas / É canteiro de flor / A multidão sorrindo às claras / O carnaval inventou”. Pois me lembro que, no carnaval de 2018 – e num estado análogo ao dos personagens de Bacurau, sob efeito de um “poderoso psicotrópico” – tive uma espécie de epifania diante de uma paisagem relativamente arborizada. Madrugando na casa de meu parsa MP, já por volta das 6h30 da matina, eis que percebo as copas das árvores como que louvando o universo: dirigidas ao céu, pareciam congeladas num estado celebrativo infinito e inesgotável, plena e eternamente devotadas ao cosmos. E pensei que essa seria a melhor atitude possível a se cultivar naquele fevereiro (e em todos os demais). Sábios vegetais! Será que Daniela passou por experiência semelhante, ao estabelecer a analogia entre a multidão e o canteiro de flores?

Pensando ou não a respeito, curta “Alegria Ocidental” e vá entrando no espírito da euforia. Nada de deixar o negativo, que está em toda parte, nos dominar. Daniela nos ensina, com Música de rua, que dançar se faz com o corpo todo, incluindo cabeça e coração.

daniela-mercury.jpg
Daniela Mercury: musa e alma de carnavais e canções inesquecíveis.

Em Belas e feras (1999), Vânia Bastos relê a canção de Daniela e Liminha com uma gostosa pegada reggae, em arranjo assinado por Mário Manga e pela própria intérprete. Repare que as mencionadas inflexões vocais da versão original, infelizmente, não conseguem ser reproduzidas até por uma competentíssima cantora como Vânia. Mesmo assim, a versão é impecável:

2 comentários

    1. Grato pelo comentário. Está cada vez mais difícil escrever algum texto que comova os visitantes, e é um alívio quando consigo isso, a essa altura!
      Mas a canção e a cancionista ajudaram bastante.

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s