299. Blues The Ville: “Stay With Me”

In a hard moment
A good soul told me
Believe tomorrow
It was just a bad dream


Estou com uma baita saudade de minha terra.

Segunda-feira é feriado e, por isso, valeria a pena tomar um busão e, neste fim-de-semana, descansar lá na companhia da família – afinal, já não os vejo há mais de um mês. Mas há muito trabalho a se colocar em dia e, sendo bem franco, estou exausto demais para encarar as viagens de ida e (principalmente) de volta.

O jeito é se virar com as cartas que tenho nas mangas e, por sorte, São Carlos é uma cidade musical: valeu a pena adquirir os CDs dos artistas carlopolitanos. Assim, nada como se sentir, novamente, em casa, ouvindo um som da terrinha – e posso me orgulhar do fato de a cidade, nas últimas décadas, ter se tornado um cenário musical prolífico, contribuindo com ótimos artistas para a cena cancional brasileira.

Já falei disso em alguns outros posts, mas vale a pena reunir as informações aqui. Danilo Zanite e Paulonez Carvalho, da Tarja Preta (abordada aqui), viriam a integrar a última formação da Patrulha do Espaço, banda por que passou ninguém menos que o ex-Mutantes Arnaldo Baptista – portanto, um dos maiores conjuntos brasileiros de hard rock (como já falamos aqui). Rodrigo “Digão” Lanceloti, guitarrista da Banda Tao (meu segundo show de rock), foi parar na banda de apoio de Nasi, à época em que seu Ira! estava em recesso. Mauricio Dotto Martucci, egresso da Bifidus Ativus (som punk dos bons, que você pode conhecer aqui), se tornou Marky Wildstone ao integrar a banda surf The Dead Rocks, que rodou o Brasil – e o mundo.

E não para por aí – e então chegamos ao artista de hoje, Blues The Ville.


Conheci a banda ao vivo num festival que aconteceu no Centro Acadêmico Armando de Salles Oliveira (CAASO, na USP) no início de 2002, em três dias. Com a intenção de assistir aos shows da Tarja Preta e do Homem Com Asas, deparei-me também com apresentações memoráveis (saca os nomes!) do Jardim Cefálico e do Pardal Paraplégico. Mas foram os caras do blues quem me conquistaram com seu som classudo e retrô, tocado de forma extremamente competente.

Naquele mesmo ano, assisti a mais algumas apresentações da banda, com seus indefectíveis macacões de mecânicos, culminando no Sanca Blues Festival, aberto por eles. (Já falei um pouco do festival aqui). Antes de entrar no pequeno (mas aconchegante) teatro do Sesc, uma repórter da EPTV me interpelou:

– Vem cá, me fala da banda que vai abrir o festival, o Blues The Ville. Você acha que os rapazes prometem?

– Eles prometem… e vão cumprir! – respondi, taxativo, olhando para a câmera.

(E até hoje não sei se minha primeira declaração à imprensa foi ao ar ou não).

Com o tempo, me aproximei dos integrantes. Lembro que, em 2004, fui com os amigos Pamela, Melina, Cláudio e Régis ao Reveillon da Bio (ao final de novembro, quando o pessoal das Ciências Biológicas, da UFSCar, fazia uma pequena farra, no centro acadêmico, comemorando o encerramento do semestre), e lá encontrei Netto Rockfeller, o estilosíssimo guitarrista da Blues The Ville. Meio na cara-de-pau, cheguei no sujeito com o seguinte xaveco:

– Mano, é o seguinte: curto pacas o som de vocês! E estou numas de colecionar materiais das bandas de São Carlos. Tá faltando Blues The Ville no meu acervo… vocês ainda não gravaram nada?

– Pô, cara, que legal… mas não temos nada lançado ainda.

– Não tem nem uma demo pra me arrumar?

– Nada, nada!

E, percebendo meu interesse sincero na banda (apesar do migué pra conseguir um CD “di grátis”), Netto fez o convite:

– Aê, cara, é o seguinte: se você curte a banda, cola amanhã no Sesc, pois vamos tocar no festival.

A questão é que eu e minha turma, então, acabávamos de vir, justamente, do primeiro dia do (então) Sanca Blues, Jazz & Rock Festival. O ingresso para a abertura, com os shows de jazz, custava módicos R$2. Na bilheteria, abri minha carteira e era só o que tinha ali dentro, de modo que, no Reveillon da Bio, não pude tomar nem água. Comovido com tamanha pobreza, que me impediria de engrossar a plateia do show de sua banda no dia seguinte, Netto ofereceu a alternativa:

– Então faz o seguinte. Amanhã, chega às 17h no Sesc e vai entrando pelo portão dos fundos. Se alguém perguntar alguma coisa, você é do staff da banda, pode ser?

E não é que deu certo? Dei esse “olé” nos seguranças e pude apreciar mais uma apresentação impecável de Netto e companhia. A partir desse episódio (sobre o qual já tinha falado, brevemente, aqui), sempre nos cumprimentávamos e trocávamos algumas palavras, a cada encontro pelos palcos da cidade. Mariel Coxa, o excelente baixista, também virou um parsa dessa magnitude. Com os demais integrantes, o batera Danilo Hansem e o vocalista/gaitista David Tanganelli, jamais cheguei a ter tamanha intimidade; nem por isso os admirava menos.

blues-the-ville.jpg
Blues The Ville: da vila para o blues – ou para o Brasil, ou para o mundo.

Foi em 2008, finalmente, que pude levar o som da Blues The Ville para casa. Os rapazes lançaram o álbum Da vila para o blues, com dez faixas, a maioria composições próprias, e presenteei meu pai com o CD. No fim das contas, quem ouviu mais fui eu, e o disquinho rodou à exaustão durante os meses iniciais de 2009.

O título da obra alude ao costume são-carlense de se orientar, pela cidade, a partir das “vilas”: pra lá da linha da Fepasa, a Vila Prado (onde nasci e fui criado); e para o lado oposto, indo em direção à zona leste, a Vila Nery (onde fui morar, depois dos seis anos). Até onde sei, a turma da Blues The Ville pertence ao primeiro desses dois subdistritos – uma região calma, povoada principalmente por descendentes de italianos, já abrasileirados como legítimos caipiras. A faixa de abertura de Da vila para o blues, uma “Intro”, traz um poema recitado que situa a produção cancional da banda nessas origens interioranas: “Eu sou da vila / Soltei pipa e andei de rolemã / Brinquei na areia / Nem chinelo, nem meia / Pé no chão / Manga, jaboticaba e romã / Eu sou da vila / Futebol na rua / Bolinha de gude / Joguei botão / Figurinha, esconde-esconde / Polícia-e-ladrão / Batuquei na bacia / No balde / E em tudo que pude / Até bomba na lata eu já pus / Eu sou da vila / E também gosto de blues”. (Tirando o jogo de botão e o rolemã, tudo isso fez parte de minha infância também).

A partir daí, o disco passa por diversos subgêneros do blues, como o boogie, o slow e o acoustic blues. É acústica, aliás, a canção de hoje, a linda “Stay With Me”, composta por Tanganelli. Na verdade, está longe de ser a melhor composição da banda (e olha que a canção é muito boa), mas foi a única que encontrei, com qualidade aceitável, para compartilhar no início do post. Queria mesmo é ter trazido “Apoteose Do Blues”, baseada num insano sonho de Netto, e cuja letra vale a pena compartilhar: “Sonhei com Stevie Ray tocando com a Mangueira / E o samba rolava a noite inteira / E pra botar mais lenha na fogueira / Pensei em Janis Joplin de porta bandeira / Imaginei um Woodstock com Dodô e Osmar / Com um trio elétrico botando pra quebrar / E no fundo, o som de um pandeirinho / Com Jimmy Hendrix tocando ‘Brasileirinho'”. Genial!

Importa ressaltar que, à época do lançamento de Da vila para o blues, a banda gozava de um reconhecimento para muito além do solo são-carlense. Qual não foi minha surpresa, num belo dia, ao ligar a TV e captar os rapazes tocando no programa noturno de Jô Soares! Se você duvida, assista ao vídeo abaixo:

E não era pra menos. Afinal, o conjunto mais importante do blues brasileiro, o Blues Etílicos (que já trouxemos ao blog, aqui), também percebera o enorme potencial daqueles quatro sujeitos do interior de São Paulo, cantando suas raízes numa canção tão bacana quanto afetuosa, como “Blues Da Mama”. O próprio Greg Wilson, um dos etílicos blueseiros, acabou participando de uma das faixas de Da vila para o blues, a ótima “On The Blues Road” (como “Stay With Me”, cantada em inglês), que rendeu um videoclipe cheio de efeitos modernos (para a época, claro):

A última vez a que assisti os moços, ao vivo, foi no Sesc em 2012, no show em que foi captada a imagem que ilustra o post. Ali ficou claro, pra mim, que o Blues The Ville era uma unanimidade até entre as demais bandas de São Carlos, cujos integrantes jamais viram, nos blueseiros de macacão, inimigos ou concorrentes (até porque, naquela cidade, todo mundo já tocou com todo mundo). Com efeito, logo que cheguei ao Sesc, trombei meu chapa Gustavo “Gus” Arruda, vocalista do Homem Com Asas, e puxei conversa:

– E aí, Gus, veio pra curtir um blues? – dãhhhhh…

– Ah, Japonês… os caras tocam pra caralho, né? – respondeu meu amigo cabeludo.


Hoje, até onde sei, a Blues The Ville está desativada. Mas Netto Rockfeller e, principalmente, David Tanganelli, são hoje músicos com elevadíssimo prestígio na cena musical tupiniquim. Tanganelli, por sinal, é tido como um dos maiores gaitistas do Brasil, se não for o maior. E, além disso, ficaram por aí bons registros da banda. Não é fácil encontrar Da vila para o blues para escutar, mas há canções dispersas, por vários canais do YouTube, e destaco a bacaníssima “Sweet Love Sound”. A faixa pertence ao segundo álbum do conjunto, Tupiniking (2011), e ganhou um videoclipe caprichadíssimo, todo reverente aos anos 1950 – década para onde nos transportam muitas das obras da banda. Não deixe de conferir:

2 comentários

  1. Parece que o Blues é a base,o fiat-lux de boa parte da música norte-americana;quanto à sonoridade da banda é simplesmente ótima.

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