301. Rita Lee: “Doce Vampiro”

Venha me beijar
Meu doce vampiro
Na luz do luar
Venha sugar o calor
De dentro do meu sangue
Vermeho


Nas últimas semanas, alguns pequenos instantâneos do dia-a-dia me conduziram à questão: Freud explica, mesmo?

Pois, numa aula de História da Educação, diante da leitura de um autor marxista (eita professor doutrinador!), um aluno me perguntou se eu achava que o capitalismo era sádico. Respondi que sádicas são as pessoas, não as próprias relações de produção. Depois, comentei com Julia, que estava presente à mesma aula: se explicássemos a destruição operada pelo capitalismo recorrendo ao sadismo, poderíamos desprezar Marx, e ficar apenas com Freud. Obviamente, não acredito nisso; pra mim, Marx explica.

Por outro lado, caminhava com um outro aluno da universidade, em direção ao obrigatório café da tarde, e ele em contava de sua admiração – por vezes, erótica – por outra professora, colega minha. (Não vou delatar ninguém!). Nem bem ele pronunciou o nome da docente, e eis que ela surgiu em nosso caminho. Alguém ficou babando enquanto ela passava, e o moço comenta comigo, diante da visível atração de um moleque por uma mulher mais madura: “Não adianta, Édipo é mais forte!”.

Dá o que pensar.

E antecipava abordar, justamente pelo viés psicanalítico, a canção de hoje, “Doce Vampiro”, da rainha Rita Lee. Foi um pedido da Jaque lançado há tempos, e fiquei meses ensaiando o post que o atenderia.

Mas não seria tão difícil falar dela, lançada em Rita Lee (1979), mobilizando os conceitos da psicanálise. Afinal, a narrativa de “Doce Vampiro” é simples: um pedido, mais com cara de súplica, de uma protagonista que deseja ter sua carne rasgada pelo vampiro, figura associada (de forma supercial) à pulsão de morte. E isso num cenário noturno (“Na luz do luar” – claro, pois o vampiro não sobrevive sob o sol), permeado por signos que remetem ao erotismo (o álcool, o calor, o beijo e, de novo, a morte – pois toda sedução é também um ato de risco).

Por outro lado, e (ufa!) me livrando dessa verdadeira sedução da psicanálise, eis que encontro o trabalho de Sílvio Anaz (A erotização do imaginário do pop-rock brasileiro nas canções de Rita LeeMúsica Popular em Revista, Campinas, ano 3, v. 1, p. 80-100, 2014), propondo uma leitura que, se não diverge dos caminhos indicados pelos conceitos de Freud e seus seguidores, ao menos demonstra a proficuidade de se analisar a produção cancional de Rita com outros referenciais teóricos.

Em primeiro lugar, há que se destacar que “Doce Vampiro” foi composta num período muito particular da vida de Rita: após passar pelo cárcere por “porte de drogas”, teve que amargar um período de prisão domiciliar na casa de sua família. Não havia muito tempo que a cantora paulistana havia conhecido seu grande “muso”, Roberto de Carvalho, que vivia em outro estado. Segue um depoimento de Rita, em sua obrigatória Uma autobiografia (São Paulo: Globo, 2016), sobre o processo de composição da canção:

Roberto continuava morando no Rio e semanalmente vinha a São Paulo de ônibus, se hospedando no casarão-prisão. A família toda apaixonada por ele, e eu mais ainda. Uma noite, enquanto aguardava sua chegada, compus “Doce Vampiro” de uma só tacada com o violão apoiado no barrigão [Rita já estava grávida de seu primeiro filho, Beto Lee], imaginando Rob Drácula entrando pela janela do meu quarto e me dando uma bela chupada na nuca (p. 159).

Dito isso, o artigo de Anaz parte da hipótese de que, na produção cancional de Rita, há

a presença de elementos simbólicos que produzem uma erotização acentuada do amor romântico no pop-rock brasileiro da época, fruto de uma atualização de imagens femininas arquetípicas que emergiam com mais força naquele contexto social e histórico em que se inseria o trabalho de Rita Lee como compositora e intérprete (ANAZ, 2014, p. 82).

Utilizando o conceito de imaginário, conforme autores como Michel Maffesoli e Gilbert Durand, Anaz se propõe a analisar cinco canções, cobrindo as fases que Rita viveu dos Mutantes à parceria com Roberto de Carvalho, passando pela banda Tutti Frutti: “Ando Meio Desligado”, “Menino Bonito”, “Agora Só Falta Você” (por muito tempo, minha predileta de Rita), “Mania De Você” e o nosso tema de hoje.

Bom, já indiquei o link da referência de Anaz, portanto, convido os leitores à sua leitura. Aqui, vou apenas resumir alguns achados do autor, reproduzindo o quadro por ele elaborado, a respeito da canção de hoje:

doce-vampiro.jpg
(Fonte: Anaz, 2014, p. 93).

Os efeitos de sentido, paralelos aos versos cantados, foram obtidos mediante o emprego da técnica de análise textual que remonta a Roland Barthes, com alguma influência de Algirdas Julius Greimas (nome essencial para a semiótica da canção).

Observe os sentidos transmitidos por “Doce Vampiro”, e sua interpretação pelo autor do artigo:

A protagonista recorre à metáfora do vampiro romântico para comparar o tipo de relacionamento que mantém com a pessoa amada. A carga de erotismo e sedução é construída ao longo da canção com várias metáforas: Vou abrir a porta / Pra você entrar; Que me bebe quente / Como um licor / Brindando a morte e fazendo amor. O “doce vampiro” por quem a protagonista está incondicionalmente seduzida e apaixonada é humanizado a partir da descrição de seus defeitos banais: Me acostumei com você / Sempre reclamando, da vida / Me ferindo, me curando… a ferida / Mas nada disso importa. A imagem da morte é associada à do sexo como ponto alto do erotismo (Vou abrir a porta / Pra você entrar / Beijar minha boca / Até me matar…) no relacionamento entre a protagonista e a pessoa amada. A sonoridade calma, com andamento lento em tom de balada, reforça a atmosfera de sedução construída pelas letras (p. 93-94).

E mais interessante são as colocações finais de Anaz, nas duas seções derradeiras de seu texto, que vou unir numa única citação:

A erotização do imaginário do amor romântico nas canções de Rita Lee vem principalmente do predomínio das imagens da “sedução”, “erotismo”, “corpo”, “obsessão” e “querer-possuir”. São imagens que revelam: os desejos e sensações eróticas dos sujeitos amorosos, como o de ser beijado e ter relações sexuais em cenários “românticos”; a capacidade da pessoa amada de enfeitiçar e encantar apenas com a sua presença física (o abismar-se em relação à beleza de um que enfeitiça o outro); as sensações eróticas dos sujeitos amorosos e a obsessão de um em relação ao outro.

[…] a erotização que emerge de suas canções traz como contribuição para o imaginário do pop-rock brasileiro colocar em evidência a imagem arquetípica feminina e elevar a questão da sexualidade e do erotismo a partir do ponto de vista da mulher para o primeiro plano. Além disso, o predomínio do imaginário noturno em suas canções, com movimentos de mergulho no mais íntimo e de amadurecimento, contrapôs-se ao do imaginário diurno da Jovem Guarda, de estruturas heroicas e movimentos beligerantes (p. 95-98).

Sei que não é preciso que a ciência mostre isso, que todos sabemos: Rita é foda. Mas achei muito interessante essa conclusão do artigo, explicitando o quanto a vocalista egressa dos Mutantes deve ter chacoalhado as estruturas da canção popular brasileira: em meio a um cenário machista – e seus roqueiros em barulhentas motocicletas, sendo “terríveis” e atrevidos conquistadores –, surge uma cantora despojada, nada afeita às extravagâncias do showbizz, desnudando em suas letras o desejo por… sexo. E de um ponto de vista absolutamente feminino.

O quanto Rita incomoda até hoje – e mesmo sem cantar “Doce Vampiro” e outros clássicos, desde sua reclusão iniciada no meio da década –, isso sim Freud explica.

rita-lee.jpg
Rita Lee: sem medo de ser uma mulher no rock domimado por (supostos) machões.

Eu tinha o LP – roubado de minha tia Soraia – do show Rita Lee em bossa n’ roll – ao vivo (1991), onde consta uma bela versão voz-e-violão de “Doce Vampiro”. Certo personagem, por sua vez, o tomou de mim (esse eu delato: foi você, MP!). Ali, são Rita e o violonista Alexandre Fontanetti mostrando o que é a canção, nua e crua, quase da forma como foi composta pela cantora em sua prisão domiciliar:

Outra versão desplugada é a que aparece no belo Acústico MTV (1995) de Rita. Como eram lindos os acústicos de antigamente! Confira:

A última vez em que a canção apareceu na discografia de Rita foi no Multishow ao vivo (2009). Versão poderosa, cheia de volume. Rita, no início da faixa, viaja no teremim. Assista:

Compartilho também duas curiosidades.

A primeira é a versão em castelhano, “Dulce Vampiro”, que aparece em Baila conmigo (1982):

E a segunda é o remix do DJ Mau Mau, em Rita releeda (2000):

Quanto aos intérpretes, temos ao menos duas boas versões.

A primeira é dele, o insuperável Ney Matogrosso, em Sujeito estranho (1980), antevendo que a canção de Rita se tornaria um clássico. Quanta sedução… curta:

E depois, temos a belíssima Ná Ozzetti em Love Lee Rita – canções de Rita Lee desde Os Mutantes (1995). Nesse disco-tributo, a também paulistana empresta um ar sinfônico (diria até etéreo) ao clássico de Rita:

7 comentários

  1. Poxa que honra ter mais um pedido meu fazendo parte do blog! Atrasadissíma, essa me foi prometida antes do nascimento do blog! Mas antes tarde do que nunca hahaha
    Musica belíssima! Eu amo ela! E o post fez jus a essa música e além de tudo, descobri ser meio feminista, valeu a pena a demora 🙂

    Beijão Rafa e obrigada novamente

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    1. Ufa, consegui cumprir seus pedidos “abordáveis”! Agora preciso percorrer as outras listas de pedidos. Vieram muitas sugestões, Jaque, e precisei desse tempo todo para escutar (novamente) as canções e bolar algum bom texto.
      Por sorte, o artigo do Sílvio me ajudou bastante a preparar um post razoável sobre essa que é uma canção maravilhosa da Rita.
      A cantora é uma personagem fantástica e, se você ler a autobiografia, acho que se identificará muito com ela.
      Bjos e grato pelo comentário.

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  2. A Elis já dizia que Rita Lee compunha com um olhar diferente,colocava a mulher no polo ativo do jogo amoroso e sexual.

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    1. Muito interessante isso, não? A percepção da Elis foi comprovada cientificamente! Por isso é que Tatit tem razão: quando os cancionistas já fazem semiótica (mesmo que sem saberem), cabe aos semioticistas apenas explicitá-la.
      Grato pelo comentário.

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  3. Rita Lee junto com Lulu Santos, são os maiores hitmaker desse país ( para os nascidos nos anos 70/80). Detalhes que nao podem passar batido em “doce vampiro ” os arranjos e a linha de “baixo”( que na verdade é um sintentizador moog) de Lyncol Olivetti .

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    1. Oi, Décio.
      Vou responder aqui o comentário que você deixou em “Marina”.
      Percebi mesmo que “Feira Moderna” – um post relativamente pouco acessado em 2019 – estava recebendo um fluxo grande de visitas! E que bom que você gostou do blog; de fato, ele exigiu uma dedicação muito grande, por isso, é sempre um prazer receber visitantes que exploram os posts e fazem contribuições nos comentários.
      Realmente eu não imaginava que o baixo de “Doce Vampiro” não vinha de um contrabaixo elétrico. É o tipo de informação que nos conduz a escutar a gravação novamente, e a buscar novos sentidos nela.
      Fique à vontade no blog, curta, comente, divulgue-o nas redes sociais, etc.
      Grato pelo comentário!

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