302. Karnak: “Espinho Na Roseira/Drumonda”

Pedro Alcântara do Nascimento
Amava Rosa Albuquerque Damião
Pedro Alcântara amava Rosa
Mas a Rosa num amava ele não


Não posso me dizer fã incondicional, mas certamente sou um admirador do Karnak. Queria, inclusive, ter dado mais atenção à banda liderada por André Abujamra (de quem já falamos aqui, num post que foi o primeiro grande fracasso de visitas deste blog, até o momento, com parcas 12 visualizações).

De toda forma, Karnak (1995), o álbum de estreia do conjunto, é um baita clássico, e qualquer canção dele poderia ser um tema nosso, tamanho o poder de suas faixas em condensar semioticamente referências, fatos, pensamentos e até linguagens (no disco, tem desde russo até a língua dos bebês!).

É de lá que trago a canção de hoje, “Espinho Na Roseira/Drumonda”.

Explico o título: boa parte da obra é conduzida a partir de motes entoados à moda dos cantadores nordestinos, como pergunta-e-resposta. O primeiro deles é justamente o “Tem espinho na roseira / Cuidado vai cortar a mão”. A seguir, vem o clássico “E o sertão vai virar mar / E o mar vai virar sertão” e, fechando a obra, “E são essas histórias de amor / Que acontecem todo dia sim senhor”. (Aqui, o destaque fica para a maravilhosa participação vocal de Rolando Boldrin).

E que estórias de amor são essas?

Vem daí o “Drumonda” do título. Como “Flor Da Idade” de Chico Buarque (e sugiro que, antes de prosseguir, leia o post referente a ela), a canção do Karnak – composta pelo próprio Abujamra – traz um enredo que expande a famosa “Quadrilha” do poeta brasileiro nascido em Itabira-MG. Assim, boa parte da letra acompanha o movimento em que um personagem “amava” outro, que “amava” outro, e assim por diante.

Como falei no post sobre a canção de Chico, se “Quadrilha” tem suas particularidades, “Flor Da Idade” tem outras. E a faixa de Karnak tem outras mais, ao trazer à tona relações que não eram mencionadas nem no poema, nem em sua versão revisitada pelo autor de “A Banda”.

Lembremos: com Drummond, a ciranda de relacionamentos conduzia ao vazio burocrático da vida matrimonial e ao isolamento daqueles que ousavam resistir à constituição da “tradicional família brasileira”. Já em Chico, aparecem novas relações: a reciprocidade (“Rita que amava Dito / Que amava Rita / Que amava Dito”), a homossexualidade (“Dora que amava Lia”, “Paulo que amava Juca”) e até a insinuação de um incesto (“Pedro que amava tanto / Que amava a filha”).

Em “Drumonda”, a situação é ainda mais complicada: há o elemento novo da não-reciprocidade (“Pedro Alcântara do Nascimento / Amava Rosa Albuquerque Damião /  Pedro Alcântara amava Rosa, / Mas a Rosa não amava ele não”), e uma teia complexa em que diversas gerações se sucedem entre amores aqui e ali.

E, para além disso, há muito humor e boas doses de realismo: escutando a canção, parecemos transportados para um pequeno vilarejo cuja dinâmica cotidiana, monótona, esconde uma trama lúdica e repleta de pequenas malandragens e relacionamentos furtivos.

Assim como o fiz para “Flor Da Pele”, precisei criar um mapa conceitual para entender a rede elaborada por Abujamra, e a figura ficou assim (clique para ampliar):

drumonda.jpg

O destaque fica por conta da família de Mané, pai de 17 filhos: 16 meninos, 1 menina e 1 que “ia resolver”: “E o rapaz tava já na adolescência / Tinha brinco na orelha e salto alto pra crescer”. A possível indefinição do personagem não é condenada, nem recebe maiores comentários; mas fica a dúvida se o tal “espinho na roseira / Cuidado vai cortar a mão”, cantado logo após a apresentação do caso, não seria uma maldosa brincadeira com a manifestação de uma transexualidade que, ao que parece, nada deterá. (Parte de mim se ri com a brincadeira, mas confesso: meu lado politicamente correto considera a piada desnecessária. Por outro lado, é bom lembrar que Karnak foi lançado em outros, outros tempos).

Fica a dúvida, também, se o personagem que Rodolfo (até então, alijado da ciranda) encontra é a Maria anteriormente mencionada, ou uma nova (agora, com nome e sobrenome: “Maria Paula de Arruda”). Prefiro acreditar que sim: Rodolfo é integrado à quadrilha! E note que, como em “Flor Da Pele”, todos orbitam personagens femininas, para onde se dirigem mais de uma seta, no diagrama: Júlia, Nazira e a própria Maria.

Além de “Espinho Na Roseira/Drumonda”, Karnak guarda outras maravilhas, como as incríveis “Alma Não Tem Cor” (gravada por Chico César e Zeca Baleiro – e acho que o maranhense a tocou no único show dele a que assisti), “O Mundo” (que aparece também em Vagabundo, álbum de 2004 que uniu Ney Matogrosso e Pedro Luís e A Parede, do qual já trouxemos “Jesus” ao blog) e “Balança A Pança” (com Paulo Miklos). Escute-o e não se arrependerá.

karnak.jpg
André Abujamra e o Karnak, reunido após 18 anos de separação: experimentalismo e muita inteligência numa world music pós-tropicalista.

“Espinho Na Roseira/Drumonda” possui registros diversos.

Em Os piratas do Karnak – ao vivo (2003), a banda relê o clássico, infelizmente, sem a participação e Rolando Boldrin. Abujamra se enrola um pouco a certa altura (pois confunde “Jandira” com “Sofia”). Nada que comprometa:

Já a cantora paulista Ana Salvagni, em sua estreia epônima de 1998, faz uma versão com ares rurais (e um toque sinfônico), bem ao feitio do contexto agreste em que se situa a narrativa composta por Abujamra:

Por fim, há o ótimo registro d’O Bando de Maria, levado pro terreno do xote, em Tiro de bodoque (2004):

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