303. Tom Zé: “Defeito 13: Burrice”

Veja que beleza
Em diversas cores
Veja que beleza
Em vários sabores
A burrice está na mesa
Veja que beleza!


Tom Zé apareceu em minha vida aos 13 anos, quando vi uma matéria, em algum jornal da TV Cultura, a respeito de seu álbum recém-lançado, Com defeito de fabricação (1998).

No ano seguinte, fiquei impressionado com uma composição sua, “2001”, gravada pelos Mutantes. A canção, fruto de uma parceria com Rita Lee, mistura xote sertanejo com rock psicodélico, parecendo querer sintetizar, em poucos minutos, tudo o que representava o movimento tropicalista. Estudá-la, seriamente, daria uma tese.

Algum tempo depois, ingressei na universidade e me afinizei instantaneamente com uma colega de turma, Melina. Aliás, é curioso como todo nikkey procura ficar perto de outro: olhando para os ingressantes da Química daquele ano, havia quatro japas (a maioria, como eu, falsificados ou, mais elegantemente, “mestiços”), e todos sempre nos demos muito bem. Melina, que era a única garota nihonjin entre nós, foi uma presença constante em meu cotidiano universitário já desde a primeira semana de aula.

Éramos parecidos até fisicamente – principalmente a partir do momento em que deixei o cabelo comprido –, o que gerava uma série de piadas. Mas havia uma diferença crucial: apesar de eu considerar (até hoje) meus movimentos e meu andar algo caricatos e imitáveis, a japa conduzia essa característica ao paroxismo. Se alguém perguntava a mim quem era Melina, recebia como resposta: “É aquela japonesa que parece desenho animado”.

Parente próxima de um importantíssimo personagem da política brasileira na atualidade – que não vou entregar quem é –, Melina foi fundamental para minha formação musical, pois expandiu meus horizontes no âmbito da canção popular. Com ela (e nossa sempre presente parceira, Pamela, outra figura muito querida daqueles anos de gradução, e quem tem lá sua pontinha de responsabilidade quanto ao fato de eu ter conseguido o emprego em Santo André), fui a muitos espetáculos musicais, a começar por um inesquecível recital de flauta e piano, depois avançando para os palquinhos da USP, para o Sanca Blues (Jazz & Rock) Festival e, finalmente, para outras sonzeiras no Sesc.

Mas sua contribuição, para meu gosto artístico, tem a ver com um costume seu que, já à época, era muito engraçado, e hoje é meio impensável. Frequentemente (mais ou menos a cada mês), Melina simplesmente passava pela carteira onde eu me sentava e, sem dizer absolutamente nada, atirava (sim, é essa a palavra) três ou quatro CDs sobre meu caderno. Quando muito, a “entrega” vinha acompanhada de um lacônico, imperativo e diretíssimo “Ouve aí”.

Geralmente, eram discos internacionais. Sua paixão eram os Smashing Pumpkins e penso que, não fosse por Melina ter me emprestado seu Mellon Collie and the infinite sadnesss (belíssimo álbum duplo da banda estadunidense, lançado em 1995), eu jamais teria me movido a escutá-los. Da mesma forma, foi minha colega quem apresentou, a mim, o maravilhoso Buena Vista Social Club, além de sons locais de sua cidade.

Às vezes, as entregas diziam respeito a um território que me era mais familiar: tenho até hoje as cópias que gravei, dela, de dois álbuns dos Titãs que não tinha escutado integralmente até então, o ao vivo Go back (1988) e o razoável Domingo (1996). Mas isso acontecia mais raramente, pois Melina parecia nutrir um verdadeiro prazer em me remover da zona de conforto.

E foi assim que veio parar, em minhas mãos, o tal Com defeito de fabricação de Tom Zé. Mas devo confessar: com apenas 18 anos, achei que o álbum era muito pra minha cabecinha. Ao ver a lista de faixas, entendi que era um disco conceitual, pois cada uma delas enumera um “defeito”, de 1 a 14. E isso me assustou: como compreender uma mensagem tão densa, aglutinada em pouco mais de meia hora de música, vindo de quem veio (àquela altura, já tinha pra mim que Tom Zé era gênio)?

Foi muito tempo depois que criei coragem e embarquei nessa viagem, dando razão à minha ex-colega de graduação: o álbum é fantástico!

O disco tem parcerias entre Tom Zé e grandes cancionistas, além de várias participações especiais. Queria, inclusive, abordar hoje a última faixa, “Defeito 14: Xiquexique”, um baião arretadíssimo (composto por Tom e José Miguel Wisnik) cantado no álbum por Arnaldo Antunes.

Mas o contexto atual me inspira a falar da faixa anterior, “Defeito 13: Burrice”.

Cabe contextualizar brevemente o conceito do Com defeito de fabricação: as faixas falam sobre nós, os andróides terceiromundistas, com nível intelectual mais baixo que os robôs do mundo dito “civilizado”. Por outro lado, trazemos em nossa programação (biológica, como sugere a faixa de abertura, “Defeito 1: Gene”?) uma série de defeitos, que são justamente a origem de nossa… “originalidade”. Por sermos imperfeitos, somos humanos.

Com participação instrumental de Jarbas Mariz, “Defeito 13: Burrice” fala, pura e simplesmente, da burrice, esse defeito tão em voga: “Refinada, poliglota / Anda na esquerda / Anda na direita / Mas a consagração / Chegou com o advento / Da televisão / Da televisão!”.

Gosto muito desse mea culpa, já que Tom Zé nunca escondeu ser um artista de esquerda (inclusive, fez um belo show na ocupação da Reitoria da USP em 2007, época em que fui Secretário Geral do Centro Acadêmico Armando de Salles Oliveira e, portanto, porta-voz oficial da chegada dos estudantes de São Carlos no ato). Afinal, sim, a burrice está em todo o espectro ideológico.

Até o anti-intelectualismo que cerca as universidades brasileiras – e o pensamento, de forma geral – é, por incrível que pareça, incentivado por muito pesquisador que se acha progressista.

Posso falar pela grande área das Humanidades, em que milito: quisera eu que houvesse tantos acadêmicos, quanto se acredita, comprometidos com o materialismo histórico-dialético; o pessoal anda mais seduzido é por autores da filosofia idealista e, principalmente, pelas pós-modernidades. E é justamente o pós-moderno, essa praga (que ilude alguns de meus colegas mais bacanas, uma lástima!), que autoriza o irracionalismo e o legitima a partir da própria universidade.

Pois, se a modernidade é líquida e não existem grandes narrativas, se a luta de classes perdeu espaço para os micropoderes que se capilariam, se o ideal iluminista da razão precisa ser tão questionado quanto outras insituições tradicionais… então vale tudo: inclusive dizer que as práticas mais condenáveis e retrógradas do senso comum, só por serem pelo menos tão tradicionais quanto a ciência, devam ser reconhecidas, elogiadas e coroadas no altar das coisas lindas. Se isso não for burrice – inclusive, complacente com outras burrices –, não sei o que é.

Há mais de 20 anos, a esperta letra de Tom Zé já captava essa questão: “Ensinada nas escolas / Universidades e principalmente / Nas academias de louros e letras / Ela está presente / Ela está presente”.

E o fechamento da canção – de gênero inclassificável, como muitas das coisas que vêm desse cancionista único – é absolutamente fantástico: “Senhoras e senhores / Senhoras e senhores / Se neste momento solene não lhes proponho um feriado comemorativo / Para a sacrossanta glória da burrice nacional / É porque todos os dias, graças a Deus, / Do Oiapoque ao Chuí, dos pampas aos seringais, / Ela já é gloriosamente festejada, gloriosamente festejada!”.

Posso garantir ao leitor do blog: do personagem aparentado de minha amiga Melina não costumam provir relinchos. Mas, rondando-o, há muitos cultores dela, a burrice, essa qualidade humana, demasiadamente humana – e é gente com muito, muito poder (vide nossa familícia favorita!).

Já dizia um antigo provérbio árabe (incorporado à canção “Do Espírito”, da Legião Urbana) que a ignorância é vizinha da maldade. Usando outros termos, a filósofa Marcia Tiburi, numa entrevista há alguns anos, disse algo parecido: que a estupidez deva ser encarada não como um problema cognitivo, mas um problema social.

Em que pese o fato de Tom Zé tê-la alocado em meio a outros defeitos que, de fato, são o fermento de nossa criatividade (como o “Defeito 2: Curiosidade” ou, mais abstratamente, o “Defeito 6: Esteticar”), concordo com o dito popular e com a filósofa: a burrice, apesar de humana, merecia um olhar mais cuidadoso, por parte da massa que (ainda) é pensante. De qualquer forma, “Defeito 13: Burrice” nos mostra que ela já nem se esconde, e está nos lugares mais insuspeitos.

Será por causa disso que chegamos onde chegamos?

tom-ze.jpg
Tom Zé: antídoto para a burrice pós-moderna.

3 comentários

  1. Muito bom o texto,a burrice está em todo lugar,ela está no meio de nós.E o pior é que ninguém se sente burro,o burro é sempre o outro.

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    1. Certamente, Ademar! Nesse sentido, tento ser vigilante e crítico com relação à minha própria burrice – pois cada um tem a sua.
      Grato pelo comentário e pelo elogio.

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