304. Teresa Cristina e Grupo Semente: “Nem Ouro, Nem Prata”

Sou brasileira faceira
Mestiça, mulata
Não tem ouro nem prata
O samba que sangra do meu coração


Não me lembro como fui conhecer “Nem Ouro, Nem Prata”, na versão de Teresa Cristina com o Grupo Semente, registrada em Delicada (2007). Só sei que fiquei apaixonado imediatamente: pela canção, pelo timbre da intérprete e, afinal, pela própria intérprete.

A canção foi lançada originalmente pelo paraibano Ruy Maurity, no álbum justamente intitulado Nem ouro, nem prata (1976). Composta por Maurity em parceria com José Jorge Miquinióty, Júlio J. do Nascimento e Olívia S. de Carvalho, a obra é aberta com um conhecidíssimo ponto ao orixá Oxóssi: “Eu vi chover, eu vi relampear / Mas mesmo assim o céu estava azul / Samborê pemba, folha de jurema / Oxóssi reina de norte a sul”. (O ponto é entoado também em algumas versões da canção “Oxóssi”, de Roque Ferreira, como comentamos aqui). Aliás, boa parte de Nem ouro, nem prata é dedicada à louvação das deidades do candomblé, e a obra merecia maior atenção, pois é um classicão dos anos 1970.

A seguir, vem uma declaração que soa inusitada na voz de um homem, daí a pertinência da definitiva versão de Teresa Cristina: “Sou brasileira faceira / Mestiça, mulata / Não tem ouro nem prata / O samba que sangra do meu coração / Tua menina de cor / Pedaço de bom carinho / Entrei no teu passo, malandro / Eu não sou como a tal Conceição”. São versos que explicitam tanto o feminismo da voz que canta (e um feminismo negro, sem medo de afirmar essa negritude) como, no aspecto formal, a predileção dos compositores por apresentarem uma letra intrincada, em que o repique do batuque invade também o escandir das sílabas.

Essas características são exacerbadas na próxima estrofe, mais desafiadora em todos os sentidos: ainda mais concentradora de forças femininas, ousa se insurgir contra os dogmas do samba (“Chega de tanto exaltar essa tal de saudade”) e faz dele seu interlocutor (chamando o próprio samba de “Meu caboclo moreno, mulato / Amuleto do nosso Brasil” – e repare nas difíceis aliterações envolvendo m l).

E, então, simplesmente relevando essa bronca, a voz reafirma de forma altiva seu compromisso com o gênero, sem se importar com as previsíveis transformações por que ele deverá passar, desde que não perca sua essência. Eis que surge, então, a estrofe mais difícil de ser cantada, um verdadeiro trava-línguas, conduzido pelo repique de alguns dos fonemas mais percussivos da língua portuguesa: a vibrante simples alveolar [ɾ] e a alveolar oclusiva surda [t]. Essas consoantes são dispostas, propositadamente, em paroxítonas, que se encaixam perfeitamente na base instrumental da canção: “Olha, meu preto bonito / Te quero, prometo, te gosto / Pra sempre do samba-canção / Ao primeiro apito do ano 2000”.

Falando em base instrumental, tiremos o chapéu para o Grupo Semente, que arruma a cama direitinho para Teresa deitar e rolar com seu timbre macio e único: Bernardo Dantas nos violões, João Callado no cavaco e Pedro Miranda no pandeiro. Participam também Pretinho da Serrinha na percussão e Paulão 7 Cordas.

Canção fantástica, e um show de competência na performance de Teresa e o Grupo Semente.

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Teresa Cristina: a voz perfeita para o canto afirmativo de “Nem Ouro, Nem Prata”.

“Nem Ouro, Nem Prata” representa mais um daqueles casos em que a composição é boa o suficiente para que ninguém consiga estragá-la. E muita gente a registrou.

A versão original de Ruy Maurity é da pesada, com uma parede percussiva cheia de batuque:

No mesmo ano, os Mutreiros Grilados registraram a canção num álbum também intitulado Nem ouro, nem prata. Aqui, o andamento é um pouco mais acelerado, em relação à gravação de Ruy:

Mais de vinte anos depois, a cantora Marcia Freire apresentou sua releitura em Maravilha (1997), despontando como a primeira mulher a entoar a voz feminina da canção. Mas, ao contrário da versão de Teresa Cristina, calcada no samba, o ritmo aqui parece uma mistura de ciranda nortista com um toque do axé da Bahia:

No mesmo ano, ninguém menos que Reginaldo Rossi gravou “Nem Ouro, Nem Prata” em Reginaldo Rossi. Sinceramente, acho a versão boa pacas, ainda mais brega – e com um delicioso jeitão de carimbó – que o registro de Marcia:

A recifense Lúcia Menezes devolve a classe à canção, transladando-a agora para o Nordeste e seus violeiros do sertão. O registro consta em Pintando e bordando (2008):

E há outras versões, mas as compatilhadas acima já são suficientes para demonstrar como uma mesma canção consegue preservar sua força, qualquer que seja seu arranjo, “de norte a sul”.

A curiosidade fica por conta da versão instrumental dele, o lendário tecladista Lafayette, em Lafayette (1977):

2 comentários

  1. Eu só conhecia a versão do Ruy Maurity,e que pela popularidade alcançada eu achava (até pouco tempo) que fosse alguma gravação de ”Os Originais do Samba”,que nem chegou a gravar.

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