306. Antiquarius: “Rolam As Pedras”

Vejo sonhos livres, pais, irmãos e filhos
Corpos tão estranhos aos meus
Acho que eu existo dentro da cidade
Quase que me sinto Deus


Em 2000, estava bastante antenado a uma novidade que iria mudar o rock nacional: no dia 21 de março, o Capital Inicial subia ao palco do Teatro Mars, em São Paulo, para gravar seu Acústico MTV.

A banda amargava um (talvez) injusto ostracismo desde o início dos anos 1990, tendo retornado aos palcos para o que seria apenas uma turnê passageira, em 1998. O projeto, no entanto, recebeu uma acolhida inesperada por parte do público, que ansiava pelo retorno de Dinho Ouro-Preto à liderança do conjunto brasiliense, já que os demais integrantes (os irmãos Fê e Flávio Lemos, mais o guitarrista Loro Jones) mantiveram o Capital ativo na cena independente, com o apoio do ótimo vocalista Murilo Lima.

Com o Acústico – uma aposta arriscada da MTV pois, então, a banda estourara apenas três canções muito recentes, “1999”, “O Mundo” e “Eu Vou Estar”, todas de Atrás dos olhos (1998), o surpreendentemente bom álbum de estúdio que resultara da turnê de reunião –, Dinho e companhia teriam a oportunidade única de fazer as pazes com o sucesso. Parecia improvável que isso acontecesse.

Entre a gravação e o lançamento do álbum desplugado – que chegou às lojas em 29 de maio, e à minha casa no dia 9 de junho… como lembro dessas datas? –, acompanhei ansioso as notícias que chegavam à imprensa, principalmente por meio da revista Showbizz. E apareceu, em abril, uma pequena amostra do que viria: a música de trabalho “Tudo Que Vai” (parceria de um trio de ferro, Dado Villa-Lobos, Alvin L. e Toni Platão) chegou às FMs sugerindo que o álbum deveria ter mesmo um enorme potencial radiofônico.

Quando o programa foi exibido na MTV, meu amigo Alberto fez o favor de gravá-lo em VHS, e me entregou a cópia depois de nosso próximo treino de karate. Cheguei em casa contente, com a enorme fita em mãos, e organizei uma sessão coletiva para assistirmos ao show em família. Sim, meus pais gostavam muito da banda, e estranhavam que ela tivesse aparentemente sumido após o disco Eletricidade (1991).

Logo nas primeiras imagens, minha mãe disparou:

– Não é o Kiko Zambianchi ali atrás?

– Sim, é ele – respondi.

Afinal, eu sabia que havia duas participações especiais no show da MTV: esse tal de Kiko e a cantora Zélia Duncan, ex-colega de sala do próprio Dinho, em sua juventude em Brasília. Mas não fazia ideia de quem fosse,  exatamente, o tal cantor dos anos 1980.

– Ele fez muito sucesso quando você era bebê, com uma voz bonita. Cantava uma música que tinha um refrão assim: “Se um dia eu pudesse ver…” – explicou minha mãe.

E continuamos curtindo a gravação em VHS, que rodaria bastante, no videocassete, durante os próximos dias.


Fico vidrado no Acústico MTV do Capital. O público, ao que parece, também: o disco estoura “Tudo Que Vai”, depois a tal canção de Kiko Zambianchi, “Primeiros Erros (Chove)”, e aí “Independência”, “Natasha”… até a última faixa. A gravadora, a certa altura, para de liberar promos às rádios, distribuindo a elas o próprio CD com todas as 14 faixas. Todas, absolutamente todas, ficam na boca do povo.

E nunca mais houve um caso semelhante, de uma banda que ressuscitara para o estrelato. Talvez o  paralelo mais próximo seja o Aerosmith que, à mesma época, voltava do mundo dos mortos com a trilha do filme Armageddon (1998), “I Don’t Want to Miss a Thing”.

Importa destacar que, a essa altura daquele ano 2000, eu acabei tão interessado na figura de Kiko Zambianchi que comprei a coletânea dupla Bis, lançada no vácuo do retorno de “Primeiros Erros (Chove)” às paradas de sucesso.

Curti bastante o disco, entre setembro e outubro daquele ano. E, se “Primeiros Erros” abria o volume 1, o volume 2 era inaugurado com outro grande sucesso do compositor, “Rolam As Pedras”. Ao escutá-la, pensei que a conhecia vagamente, talvez por conta de alguma memória inconsciente. Com efeito, tanto a canção gravada pelo Capital, quanto essa curiosa faixa, pertenciam ao álbum de estreia do cantor nascido em Ribeirão Preto, Choque, lançado no ano em que nasci, 1985.

A letra de “Rolam As Pedras” soava um pouco enigmática. Mesmo assim, provocava em mim certa sensação de identificação: ao falar de “corpos tão estranhos aos meus”, Kiko me atingia em cheio, pois passei toda a adolescência me imaginando como uma espécie de outsider, uma alma que encarnou na Terra sem ter sido convidada. (De certa forma, foi isso mesmo o que aconteceu, pois surgi de um acidente).

E o refrão era simplesmente gostoso de cantar: “Rolam as pedras / Devem rolar / Sou como as pedras / Pra te encontrar”. Bobinho, mas eficaz.

Infelizmente, o arranjo da versão de Choque é oitentista até a medula: estão ali os timbres horrorosos da bateria cheia de reverb, barulhinhos eletrônicos (que até tentam ser sutis, mas falham miseravelmente), guitarras breguíssimas, vocais dobrados na coda… um horror completo.


Mas veja como são as coisas.

Naquele mesmo setembro em que adquiri a coletânea de Kiko, o Capital fez uma apresentação antológica no programa Bem Brasil, da TV Cultura. O repertório abrangeu todo o Acústico MTV, mais uma porção de canções que não vieram a integrar nem o CD, nem o VHS, nem o DVD (novidade quentíssima da época!) do especial: estavam ali “Kamikaze”, “1999”, duas espertíssimas covers (uma bonita versão de “Wonderwall”, do Oasis, com Dinho solo ao violão, mais “Que País É Este” da Legião Urbana, incorporada ao repertório do Capital em 1998) e uma canção apresentada por Kiko sozinho ao violão. Era “Rolam As Pedras”.

A versão solo era bonita, mas não animou a plateia. Ficaram todos com cara de paisagem, esperando apenas o retorno da grande atração do dia, que voltou ao bis com tudo.

Para mim, soou como uma oportunidade desperdiçada. Já pensou como seria legal se “Rolam As Pedras” fosse tocada por todo o conjunto, garantindo uma exposição maior ainda a Kiko? (Que, de fato, merecia, por estar somando muito à banda de apoio do quarteto de Brasília).

Pois em novembro do mesmo ano o Capital se apresentou em São Carlos. Acho que já contei algo a respeito desse show aqui. Que delírio! Até meu chapa Bobs – metaleiro de plantão que só foi ao Torto Bar porque, afinal, todos da escola iriam – gostou da apresentação, elogiando os músicos e o repertório certeiro.

Eu meio que já imaginava qual seria até a ordem das canções da apresentação, que de fato cumpriu o roteiro já apresentado no Bem Brasil. (Mais tarde, soube que alguns shows da turnê trouxeram novamente Zélia Duncan ao palco, que cantou não apenas “Eu Vou Estar”, como na gravação do Acústico, mas também “Agora Só Falta Você”, de Rita Lee. Curiosamente, havia um registro precaríssimo, na internet, do Capital tocando a canção com um cabeludo Kiko Zambianchi, por volta de 1986).

Mas, quando chegou o momento solo de Kiko… não foi um momento solo! E o ribeirão-pretano cantou “Rolam As Pedras” acompanhado de todo o Capital Inicial – que, agora, fazia as vezes de banda de apoio. Que momento! Pena que, até onde sei, não ficou nenhum registro disso.

Importava, para mim, que eu tinha conseguido escutar, numa execução impecável, aquela canção que jamais imaginei presenciar sendo tocada ao vivo.

A noite tinha valido a pena.


Passam-se 10 anos e pouco. Nesse tempo, não avancei muito na compreensão de “Rolam As Pedras” (embora tivesse encontrado um depoimento esclarecedor – ou ainda mais intrigante – do próprio Kiko, dizendo que a canção era reflexo de tempos estranhos e, por isso, seus acordes também eram estranhos).

Mas encontrei algumas outras versões para o hit de Choque.

A primeira foi uma bonita releitura acústica no DVD do Luau MTV (2002), que retomava o arranjo original, mas não chegou a me comover muito. A execução é perfeita, mas faltava um toque de punch; faltava banda. Ouça:

Depois, Kiko gravou seu próprio Acústico ao vivo (2013). Ok, mais uma versão bonita, sem os vícios oitentistas: tudo bem produzido e devidamente timbrado, com banda e tudo. Confira:

Mesmo assim, ficava a sensação incômoda de que, nesses registros ao vivo, algo se perdera, não só em relação à irreproduzível performance de 2000 com o Capital: eu sentia falta de um elemento simples que aparecia no arranjo original, imune à perniciosa influência new wave.

E então percebi: em todas essas versões, faltava o pequeno, mas essencial, riff de guitarra distorcida que acompanha o refrão!

Mas eu tinha desistido. Se nem o próprio Kiko ousava atualizar um de seus principais sucessos, com atenção para aquele detalhe essencial, quem o faria? Batia em mim uma verdadeira sensação de frustração e impotência.

Que vontade de trombar o próprio Kiko Zambianchi e lhe dizer: “Mano, custa tocar ‘Rolam As Pedras’ com aquele riffzinho? São só seis notas na guitarra, pô!”

Que drama!


Foi então que, por volta de 2014, encontrei finalmente uma gravação que agradou aos meus ouvidos. Mais que isso, foi um registro que me surpreendeu: nunca tinha ouvido falar desse tal conjunto Antiquarius, não imaginava o que conduzira os rapazes a resgatar “Rolam As Pedras” (entre tantas outras boas canções do BRock), mas estava impressionado com o empenho dos moços em registrar uma versão que, ao mesmo tempo em que trazia um velho sucesso para os ares do século XXI… mantinha o imprescindível detalhe do riff de guitarra! Finalmente!

Bem depois, fui procurar mais sons da banda, que soube vir do estado do Maranhão, mais precisamente, do município de Imperatriz. Tocando na cena underground desde 2001, os rapazes conseguiram gravar seu primeiro álbum autoral em 2008, Alimento, que abriga a versão de “Rolam As Pedras”. Ali, também gravaram “Você Vai Lembrar De Mim”, o açucarado sucesso dos gaúchos do Nenhum de Nós.

Soube, também, que a versão do Antiquarius para “Rolam As Pedras” ganhou certa projeção – e talvez por isso tenha vindo a parar em minha playlist – por ter sido incorporada à trilha de uma novela do SBT, Uma rosa com amor (2010).

Enfim, Alimento é um disco gostoso de ouvir, cheio de bons pop/rocks. Só não me encantou mais porque, sinceramente, há tempos que estou mais interessado em explorar velharias setentistas e psicodélicas, entre um samba e outro. Mas fica a dica!

Recentemente, Lobão assumiu que a postura refratária a seus colegas de geração – propagada por meio de suas polêmicas declarações, desde fins dos anos 1990 – foi um tremendo erro em sua trajetória. Pois, de fato, o autor de “Me Chama” nunca se dignara a escutar nem mesmo a versão que Cazuza registrou para uma parceria de ambos, “Mal Nenhum” (que, sinceramente, achei que faria o maior sucesso aqui no blog, mas quebrei a cara). Porém, durante a escrita do Guia politicamente incorreto dos anos 80 pelo rock (2017), o Velho Lobo acabou dando uma chance às canções do BRock, encontrando ali verdadeiros tesouros do cancioneiro brasileiro. Daí veio sua ideia em regravar diversas dessas obras na Antologia politicamente incorreta dos anos 80 pelo rock (2018), que traz sucessos (e coisas menos badaladas) tocadas numa pegada acelerada, com muito volume e corpo. Tudo o que aquelas canções, maculadas até então pelos dogmas da produção comercial, mereciam.

Pois o Antiquarius já tinha sacado isso dez anos antes… e colocou isso em prática com o hit de Kiko Zambianchi, quase que na surdina – sem incomodar ninguém, nem à esquerda, nem à direita (e o mundo dá voltas, né Seu Lobão?).

antiquarius.jpg
Antiquarius: em meio a um (bom) repertório autoral, um resgate necessário e respeitoso a “Rolam As Pedras”.

Além das versões de Kiko e do Antiquarius, você pode escutar outras duas gravações alternativas para “Rolam As Pedras”.

A primeira é de ninguém menos que a ex-Balão Mágico, Simony, vertendo a canção para uma linguagem modernosa, em Certas coisas (1996). Não ficou ruim, mas a impressão é que o arranjo quedou saturado, over. Os vocais são ótimos! E participam da faixa dois músicos de peso: na bateria e na guitarra, respectivamente, Serginho Herval e Kiko, ambos do Roupa Nova. O tal riff de guitarra, da versão original, é citado (com muita sutileza) na introdução. Ao final, uma emocionante modulação na harmonia. Enfim, versão no limite da breguice; vale a escuta:

E, há poucos dias, Dinho Ouro-Preto, em mais uma investida solo, soltou sua própria versão para “Rolam As Pedras”, antecipando o novo álbum que prepara. Confesso que o timbre atual do cantor do Capital, em comparação com seus vocais até os anos 2000, me causa certo incômodo. Talvez seja apenas questão de gosto. Não sei… Também não é uma versão ruim, mas não chega aos pés do registro do Antiquarius. Veja se estou errado:

3 comentários

    1. Alguns artistas já começaram a fazer isso. Destaco o Biquíni Cavadão, que lançou seguidos álbuns com a temática 80 e, agora, o Lobão.
      Grato pelo comentário.

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