307. Dorival Caymmi: “O Mar”

O mar quando quebra na praia
É bonito, é bonito o mar
Pescador quando sai
Nunca sabe se volta
Nem sabe se fica
Quanta gente perdeu
Seus maridos seus filhos
Nas ondas do mar


Quando criança, havia uma propaganda televisiva sobre uma marca de roupas, cuja trilha era “Maracangalha”. Foi meu primeiro contato com Dorival Caymmi. E lembro de como vivia torcendo para que o comercial chegasse, pois achava a canção festiva. Tinha então uns 7 anos.

Daí em diante, pelo pouco acesso que tive à obra do cantor baiano, sua figura sempre me pareceu meio misteriosa. Até a adolescência, viveria confundindo sua imagem com a de outro baiano, Jorge Amado.

Curiosamente, a expansão de meu conhecimento para outras obras também foi determinada não pela discografia de Dorival em si, mas pela contínua exposição a outros produtos da indústria cultural. Se o refrão de “O Samba Da Minha Terra” (“Quem não gosta de samba / Bom sujeito não é / É ruim da cabeça / Ou doente do pé”) já estava cristalizado no imaginário praticamente como um dito popular, lembro de ter escutado “O Que É Que A Baiana Tem” na trilha de um curtametragem que gravei em VHS (e tenho certeza que o encontraria no YouTube… se lembrasse que curta é esse) por volta dos 11 anos.

Da mesma forma, “O Bem Do Mar” foi minha iniciação ao repertório do belíssimo Canções praieiras (1954), que escutei por compor a abertura de algum programa na TV Cultura ou outro canal.

Foi bem mais tarde, já quase aos 30, que mergulhei (literalmente) nesse álbum fantástico, baseado apenas na força das canções, em arranjos de voz-e-violão – formato, aliás, pouco comum à época, colocando Caymmi como personagem fundamental para o início da bossa-nova, que se notabilizaria por popularizar esse minimalismo.

Eu poderia falar, aqui, de qualquer faixa de Canções praieiras, pois todas são igualmente incríveis. Na verdade, o álbum é praticamente conceitual, com uma unidade temática e instrumental que dificulta o trabalho de se analisar canções individuais.

De toda forma, preciso escolher alguma, e “O Mar” vem a calhar. Isso porque a canção me leva a pensar na permanência – valor dos mais importantes na atualidade, considerando esse cenário cotidiano acelerado, em que somos bombardeados de hora em hora com novas informações.

Pois a obra, como tantas do álbum, narra os perigos do mar, focando na tragédia que acomete o pescador Pedro. Como outros personagens do disco, Pedro lança seu barco à calunga grande e jamais retorna. Deixa a companheira Rosinha enlouquecida, sempre a olhar para as águas, de agora em diante, se lamentando: “Morreu, morreu…”

O interessante é a forma como Caymmi constroi a narrativa. O conto propriamente dito (que alinha as ações, ou os fatos modalizados pelo /fazer/), aparece como o “recheio” de dois versos simples e melodiosos, calcados no /ser/: “O mar quando quebra na praia / É bonito, é bonito o mar”.

Pois gosto de ler a canção como um lembrete: nossa passagem aqui será brevíssima. Não adianta se desesperar, piscou, já era e, fora isso, o mundo permanece. Conosco ou senosco, roda o planeta, crescem as plantas, venta o vento… e mareia o mar.

Gostamos de ler a existência a partir dessa nossa particularíssima perspectiva. A verdade, porém, é que a grande narrativa do homem na Terra pouco depende dessa nossa visão subjetiva. Importa o mesmo o que permanece, o que é objetivo. Daí a importância… de não nos darmos muita importância! Somos só uma gotinha no oceano.

O rufar da poderosa voz de Caymmi, como sempre me lembra a querida Tia Celly, é como um recado do próprio mar, nos advertindo dessa pequenez e fragilidade – que, longe de nos conduzir a uma visão por demais niilista, deve nos exortar, isso sim, a meditarmos um pouquinho sobre o que estamos fazendo, afinal, nesse átimo chamado vida.

dorival-caymmi.jpg
Dorival Caymmi: personagem fundamental da cultura brasileira, traduziu as lições do mar em canções.

Existem incontáveis versões para “O Mar”.

Assim, compartilho aqui, apenas, a mais essencial de todas: a reunião da família em Caymmi’s grandes amigos (1985), que coloca Nana, Dori e Danilo Caymmi interpretando o repertório paterno. O registro de “O Mar”, no álbum, não traz a voz de Nana: apenas Danilo canta o bonito arranjo de Dori. Confira:

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