308. Velhas Virgens: “Rafaela: Eu Amo A Sua Mãe”

Quando eu te conheci, achei que tava apaixonado
Mas quando vi sua mãe, percebi que tava enganado
Ela é maravilhosa, seu pai é que passa bem
Vamos terminar nosso caso, baby
Gostar da sogra eu sei que não convém


No segundo ano do ensino médio, chegou um rapaz novo na sala, chamado Gui.

Vivia de contar lorotas, tinha um jeito meio calculista, era imprevisível e ousado (sua declaração de que “Travesti tem bunda que mulher nenhuma tem” causou espanto geral e rendeu-lhe um maldoso apelido, tão maldoso que poucas vezes o pronunciávamos)… mas, afinal, era um ótimo amigo. Todos gostavam dele.

Nunca mais o vi desde que nos formamos, mas sempre lembro daquela figura quando escuto o som do Velhas Virgens.

Foi ele quem me explicou o que era a banda, antes que eu viesse a escutar qualquer álbum do conjunto, que já conhecia de nome. Falou sobre o gosto dos paulistanos por uma bem sacada mistura de rock com blues e das letras libertinas, sem pudores ou meias-palavras.

– Hmmm, então deve ser um negócio bem ideológico! – filosofei.

– “Ideológico”? Que nada, é só putaria mesmo – asseverou meu colega.

E algum tempo depois, pude confirmar que era, de fato, precisa a descrição do Gui: Velhas Virgens era aquilo mesmo, como descobri ao escutar algumas canções, em fins de 2002.

(Também fez muito sentido, diante daqueles polêmicos comentários de meu interlocutor, encontrar no repertório da banda uma canção como “Um Homem Lindo”).

Naquela época, fazia pouco tempo que o conjunto tinha lançado Sr. Sucesso (1999), que trazia a canção que tematizo hoje, “Rafaela: Eu Amo A Sua Mãe”. Gostava muito do andamento, meio à “Roadhouse Blues” do The Doors, dos sons de guitarra, das gaitas e dos vocais de Paulo de Carvalho.

Mas o principal era a letra: dirigindo-se à tal Rafaela, o enunciador confessava seu amor platônico (platônico mesmo?) por ninguém menos que… a sogra. Adorava o momento em que o sujeito abria o jogo à companheira: “Não fica zangada comigo, logo você me esquece / Você sabe, o tesão tem razões que o próprio tesão desconhece / Eu sei que eu tô errado, mas não quero te enganar / Eu amo a sua mãe e isso eu não posso negar!”. E o refrão, além disso, soava matador: “Eu amo a sua mãe / Essa véia é meu xodó / Eu amo a sua mãe / Você até que é gostosa / Mas a velha é muito melhor!”.

Tirando tudo o que é politicamente incorreto – e, no som do Velhas, é difícil sobrar algo que não seja –, sempre me chamou a atenção o fato de que, em “Rafaela: Eu Amo A Sua Mãe”, havia a apologia à mulher madura, que poderia sim ser objeto de desejo por um homem mais novo. Parece pouco, mas num mundo povoado por “novinhas” do funk, é algo a se elogiar.

Pessoalmente, agora que alcancei certa idade, tenho me interessado – e não (apenas) do ponto de vista sexual – cada vez mais pela beleza dessas mulheres mães, uma beleza espontânea, de quem sabe o que é (e sabe o que quer). A beleza de quem não precisa se escourar em adereços mil, nem se arruma somente para satisfazer o gosto dos homens (e das mulheres). É lindo ver pessoas que finalmente se encontraram – e fico pensando se, na minha madureza que se aproxima (alguns dirão que já chegou), alcançarei esse estágio de espontaneidade absoluta. Como sempre, parece que até nisso as mulheres se adiantam, em relação aos homens.

O parágrafo anterior caminhava perigosamente para considerações machistas – ainda que com a melhor das intenções. Cabe falar um pouco sobre esse aspecto, retornando nossa atenção ao Velhas.

Certamente que a perversão das letras é um conteúdo interessante em si, e que contribui para que se naturalize uma coisa tão linda e gostosa, mas tão envolta em tabus, como o sexo. Por outro lado, essas mesmas letras expõem, predominantemente, o ponto de vista masculino, fazendo da mulher mera peça de contemplação.

Nesse sentido, devo confessar que tenho evitado escutar esse tipo de som, dadas as contradições que ele representa. Ao mesmo tempo em que as canções tratam de um mundo mais sexualizado (nesse sentido que mencionei há pouco, ou seja, em que o sexo passa a ser visto como algo mais natural) e, portanto, mais livre, nota-se que a audiência da banda é composta, predominantemente, por quem não se interessa em discutir o machismo implicado em grande parte das letras – é bom dizer, espelhando a própria sociedade. Fica a sensação de que o discurso veiculado na discografia do Velhas propõe um mundo em que a sexualidade é de fato mais livre, mas apenas para os homens (apenas heterossexuais, ainda por cima).

No limite, esse tipo de visão me levou a questionar a própria autenticidade da banda, principalmente depois que assisti a dois de seus shows. Fiquei com a impressão de que Paulão, ao menos no palco, tem uma personalidade que ultrapassa, e muito, o arquétipo do machão-comedor que é encarnado nos diversos personagens que cantam as canções. Estaria o cantor vivendo algum tipo de conflito entre diferentes nuances de seu ser? Daí a necessidade de se reafirmar, com canção atrás de canção, uma sexualidade predominante, mais bem aceita pela sociedade?

Não imagino as respostas a tais questões e, francamente, elas não me interessam. Talvez interessem apenas ao compositor. De qualquer forma, diante de um mundo que ainda precisa desfazer a evidente assimetria entre homens e mulheres (em que o direito de ser sujeito está mais ao alcance do polo masculino do que do polo feminino, restando às mulheres a condição de objeto), não gosto de dar muita audiência a certos tipos de discurso.

Mas, nas horas em que precisamos “desligar o cérebro”, certas canções fazem muito sentido, e vêm a calhar. Não se pode ser profundo o tempo todo.

velhas-virgens.jpg
Velhas Virgens: falando de sexo sem tabus, ainda que de um ponto de vista predominantemente masculino.

“Rafaela: Eu Amo A Sua Mãe” ganhou alguns registros ao vivo, esparsos pela discografia do Velhas Virgens.

O primeiro consta em Abre essas pernas – ao vivo (2001), com direito a uma passagem sexy bem no meio da execução, invasão do palco e uma declaração de amor à Vera Fischer (!):

E o último se refere ao show que registra a despedida de Paulão, em 2016. Veja as imagens do DVD 30 anos: ao vivo no Love Story, nessa performance cheia de punch e com algumas “brincadeiras” na letra:

6 comentários

  1. Caraca. Essa é das antigas. Da época da subversão (ou pelo menos sua sensação). A mistura de irreverência, do som pesado e das contradições (que lhe são próprias), me fizeram aprender quase todas músicas da banda. Mas desde o início ficava claro algo que você disse bem: ouvir Velhas sabendo onde se está pisando, com a moderação necessária para não cruzar algumas linhas. Abçs

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    1. Inclusive, num encontro de turma há umas semanas, ela foi uma das homenageadas quando desligamos o cérebro rs

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      1. Pois é! Não sei se você percebeu, mas nosso repertório ao violão, desde o fatídico Enpec de 2015, está cheio dessas pérolas.

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    2. Grande, Michel. Eu tinha certeza que você ia comentar esse post sobre o Velhas!
      Acho que estarmos conscientes das limitações próprias da temática da banda já é um começo. É lógico que eu gostaria de estar sempre escutando coisas mais elaboradas ou “nobres”… Quem sabe um dia eu chegue lá! Temos nossa tosquice também, não é mesmo? E é duro se livrar dela.
      Grato pela visita!

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  2. Não conhecia a banda,uma espécie de ”Mamonas Assassinas” menos infantilizada – E quanto ao título da música,a Vera Fischer tem uma filha chamada Rafaela,e que nunca conseguiu ser tão bonita quanto a mãe.

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    1. Caramba, Ademar, nada como sua sabedoria para iluminar nossos caminhos! Eu não imaginava que o Rafaela do título pudesse ser uma referência assim tão específica. De certa forma, uma das versões ao vivo da canção já tinha entregado isso, não é?
      Grato pela contribuição.

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