309. Vieira & Vieirinha: “A Moça Que Dançou Com O Diabo”

Numa Sexta-feira Santa
Há muitos anos atrás
Na cidade de São Carlos
Publicaram nos jornais
Uma moça muito rica
Contrariou o gosto dos pais
Num baile que fez em casa
Ela dançou com o Satanás


Falei, lá no começo do ano (clique aqui), que minha infância em São Carlos foi vivida proximamente à zona rural – a linha que demarca o perímetro urbano passa a poucos metros de casa – e que, por isso, meu imaginário infantil esteve sempre impregnado de estórias fantásticas associadas aos mistérios da vida do campo.

Pois pense que muitos de nossos vizinhos, morando em pequenas casas isoladas em torno da Estrada Municipal João Ponce da Costa, em plenos anos 1990, ainda não tinham eletricidade em casa. Assim, quando chegava a noite, com seus sons misteriosos sob o breu que a tudo envolve, abria-se as portas para que, das crendices e da sabedoria popular, fossem elaboradas toda sorte de narrativas – e nelas não faltavam lobisomens, sacis-pererês, anjos, extraterrestres e OVNIs (nos casos mais sofisticados) e, por vezes, o Diabo em pessoa.

Eu, que não recebi educação católica, ficava fascinado com tais contos, principalmene esses envolvendo o Satã. Não esqueço de um que foi apresentado por meu vizinho Emerson, quando tínhamos menos que 10 anos: uma tia dele teria se encontrado pessoalmente com o Senhor do Inferno e, numa paisagem absolutamente branca e vazia, tentava se livrar desesperadamente daquela presença maligna. Foi então que escutei, pela primeira vez, a apavorante expressão, que meu vizinho disse ter saído da boca da entidade: “Você pode correr, mas não pode se esconder”.

Talvez o conto fantástico de meu amigo de infância tenha sido inspirado – conscientemente ou não – por uma narração mais antiga, muito conhecida dos habitantes da cidade. Segundo ela, uma moça bem-nascida, num baile numa Sexta-Feira Santa, veio a dançar com um rapaz charmoso que, ao final da noite, revelou a ela ser ninguém menos que o próprio Satanás – o que enlouqueceu, para sempre, a garota.

Não se sabe a origem da estória, se remonta ao século XIX ou se é mais contemporânea, se é inspirada num fato verídico (um tal encontro é perfeitamente verossímil, excluindo-se o revelador final) ou não, ou mesmo se há registros materiais deixados pelos personagens envolvidos (sugere-se que o túmulo da moça esteja no Cemitério Nossa Senhora do Carmo).

Aliás, os personagens, fictícios ou não, decerto já têm lugar reservado no panteão das grandes figuras são-carlenses – desde as lendas locais, como o loroteiro Zé Bambuá e o saudoso anão Benvindo (que alimentava os pombos na Praça Coronel Salles e testemunhou minha primeira pedalada numa bicicleta sem rodinhas), até nomes mais famosos para além dos limites do município, como o humorista Ronald Golias e a medalhista olímpica Maurren Maggi.

A lenda adquiriu tamanha notoriedade que acabou gerando um curta-metragem, intitulado justamente A moça que dançou com o Diabo (Grupo Kino-Olho, 2016). Documentário bacaníssima, baseado em depoimentos de meu conterrâneos:

Importa ressaltar que a estória adquiriu certa difusão porque os compositores Jayme Ramos e Teddy Vieira a registraram, justamente com o título “A Moça Que Dançou Com O Diabo”, como uma moda gravada pela dupla Vieira & Vieirinha, de outra cidade do interior paulista, Itajobi. O som violeiro situa, de fato, a narrativa em minha querida São Carlos (êêêê sarrrrdade!), e descreve minuciosamente os supostos acontecimentos envolvendo a moça rica que, numa Sexta-Feira Santa, bailou com o Tinhoso. A canção – lançada num compacto simples em 1953 – compõe, inclusive, a trilha sonora do curta acima.

Verdadeiro o conto fantástico ou não, seu efeito prático foi garantir uma amendrontadora justificativa para que os “coronés” prendessem suas filhas em casa, nas Sextas-Feiras Santas.

A cultura popular tem dessas contradições: desmitifica uma figura temível como o Canhoto (e me dá licença, tenho lugar de fala: sou eu mesmo um sinistro!), posiciona um tema tão nietzschiano quanto a dança como elemento central de um roteiro… e alinha tudo isso apenas para reforçar o patriarcado!

vieira-vieirinha.jpg
Vieira& Vieirinha: documentando uma lenda do interior paulista.

3 comentários

  1. Quando eu era criança a quaresma era muito respeitada,o último dia então não podia nem piscar,eu acho que vem daí essas lendas.

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    1. Hahaha, “não podia nem piscar”!
      Mas realmente rolam uns abusos até o Carnaval, e a quaresma ajuda muita gente a entrar no eixo e reunir forças para o ano que começa.
      No interior, de fato a tradição tem mais força.
      Grato pelo comentário.

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