310. Mário Adnet e Philippe Baden Powell: “Suíte Yansan”

Ah… sopra a brisa sobre o mar a iabá
A madrugada já raiou
Meu coração já quer chorar, odoyá
Ah… resta o canto de Yansan na manhã
“Oyá tete” eu vou cantar
Já que acabou o carnaval
Meu coração dou pra Oyá
É de Oyá!


O álbum Afro samba jazz (2009) é uma das realizações mais impressionantes da música popular brasileira recente.

A obra surgiu do encontro entre dois sujeitos espetaculares: o violonista, arranjador e produtor Mário Adnet; e Philippe Baden Powell, pianista e filho de um de nossos maiores mestres do violão.

O álbum traz arranjos orquestrais e instrumentais para algumas das composições do clássico Os afro-sambas (1966), parceria de Vinícius de Moraes e Baden Powell que revolucionou a canção popular brasileira.

Sob a influência do maestro Moacir Santos, Baden estudou as escalas gregas e, a partir de exercícios de composição, estruturou as bases – no meio do caminho entre a bossa-nova e o modalismo africano ou, melhor dizendo, afro-brasileiro – para que o Poetinha elaborasse um universo povoado por orixás, caboclos e pretos-velhos, um rico cenário sobrenatural para o desenvolvimento da dialética entre o amor e a dor (praticamente, o conceito que permeia o disco).

O disco de Adnet e de Philippe, além de rearranjar algumas dessas composições, acrescenta outra obra que poderia pertencer à mesma série original d’Os afro-sambas, “Berimbau” (caso também de “Labareda” e “Consolação”, que infelizmente não receberam esses novos arranjos jazz) e, mais importante, incorpora outras composições pouco conhecidas ao universo em questão. Algumas delas já apareceram em disco anteriormente, como as parcerias de Baden com Paulo César Pinheiro (“Pai” e “Sermão” – esta, poderia perfeitamente ser uma continuação de “Berimbau”), enquanto outras surgiram a partir de partituras nunca registradas (como “Domingo De Ramos” e uma de minhas favoritas, “Caxangá De Oxalá”).

Trago, hoje, a única verdadeira canção inédita de Afro samba jazz, a “Suíte Yansan”. Isso porque o álbum traz, além dela, apenas mais um número cantado, “Canto De Iemanjá” – obra já conhecida desde Os afro-sambas. A tal suíte, por sua vez, se desmembra em três partes: a “Introdução Ao Canto De Yansã”, instrumental; o “Canto De Yansã”, com letra de Ildasio Tavares; e a “Ladainha De Yansã”, com letra da esposa de Baden, Silvia Powell.

É difícil escolher uma parte favorita, pois todas se entrelaçam. A introdução prepara o canto de Yansã (ou Yansan, ou mais comumente, Iansã), orixá que, de fato, era uma incômoda ausência em Os afro-sambas, e que agora recebe o devido destaque. Rainha dos raios e tempestades, o arquétipo da mulher guerreira e irascível, mãe de todas as feministas. Do alto de sua altivez, é a orixá quem acolhe a súplica da voz que canta a segunda parte da suíte. E, falando em voz, temos: no “Canto”, Maucha Adnet, com seu timbre quente como o fogo de Iansã; e na “Ladainha”, súplica elevada ao grau máximo, a belíssima voz de Monica Salmaso, explorando regiões mais agudas que aquelas tocadas na parte anterior. Mesmo assim, o senso de continuidade entre as duas partes cantadas da suíte é enorme: é fácil se confundir e imaginar que é Monica quem canta o canto, e Maucha o lamento.

Lembremos que, se é óbvia e justificada a presença de Maucha no familiaríssimo álbum, a presença de Monica também faz todo sentido. Com efeito, foi a cantora que, acompanhada apenas do violonista Paulo Bellinati, regravou em 1995 o conjunto dos afro-sambas originais de Baden e Vinícius – inclusive, com as adições de “Berimbau”, “Consolação” e “Labareda”.

Ou seja, estão todos em casa. Difícil bater um time desses.

powell-adnet-salmaso.jpg
Philippe Baden Powell, ao piano, com Mário Adnet e Monica Salmaso: a necessária cantoria a Iansã que ficou ausente n’Os afro-sambas.

Quando, pela primeira vez, busquei informações sobre Afro samba jazz, deparei-me com um texto que – bem ao meu feitio – sistematizava a obra de Baden dedicada ao universo inaugurado com Vinícius no álbum de 1966.

Gostaria muito de dar o devido crédito a quem realizou o completo trabalho de pesquisa, mas não consegui encontrar seu autor, de modo que apenas reproduzo e registro, abaixo, a tipologia proposta (os acréscimos em vermelho são contribuições minhas):

Afro-sambas com temática orixá (Baden com Vinícius)
1 – Canto De Ossanha
2 – Canto De Xangô
3 – Bocoché
4 – Canto Do Caboclo Pedra Preta
5 – Lamento De Exu
6 – Canto De Iemanjá

Temas de afro-samba (Baden com Vinícius, menos onde indicado)
7 – Labareda
8 – Tristeza E Solidão
9 – Tempo De Amor
10 – Berimbau
11 – Consolação
12 – Alodê (Baden Powell, somente)
13 – Sermão (com Paulo César Pinheiro)
14 – Pai (com Paulo César Pinheiro)
15 – Candomblé (Baden Powell, somente)

(faltou o “Samba Da Bênção”)

Afro-sambas inéditos (Baden somente, menos onde indicado)
16 – Caxangá De Oxalá
17 – Domingo De Ramos
18 – Introdução Ao Canto De Yansã
19 – Canto De Yansã (com Ildasio Tavares)
20 – Nhém, Nhém, Nhém (que tem também o título de Andarilho, com uma letra de P. C. Pinheiro e outra de Silvia Powell)
21 – Lamento De Preto Velho
22 – Ritmo Afro (tema instrumental com Philippe Baden Powell)
23 – Ladainha De Iansã (com Silvia Powell)

Afro-sambas de Vinícius com Toquinho
24 – Canto De Oxum
25 – Maria Vai Com As Outras
26 – Canto De Oxalufã
27 – Meu Pai Oxalá

Excelente listagem! E fica claro que, tivessem a oportunidade de se reunir novamente, haveria espaço para novas composições de Baden com Vinícius, ou mesmo com Paulinho Pinheiro e Toquinho – já imaginou que épicos seriam os possíveis “Canto De Ogum”, “Canto De Oxóssi” e “Canto De Obaluaiê”, por exemplo? Não custa imaginar.


A cantora Joyce – agora Joyce Moreno – gamou no “Canto De Yansã” logo que o escutou pela primeira vez. Em 2015, no álbum Raio, a carioca propôs uma releitura, exacerbando a atmosfera jazzy do registro de Adnet e Philippe. Som maravilhoso! Ouça:

3 comentários

  1. Mais uma da série ”não-conhecia” – Parece que o Baden renegou sua obra-afro por questões religiosas,uma pena.

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    1. O Philippe deu uma declaração, há alguns anos, certificando-nos de que, tivesse vivido mais, Baden certamente voltaria a tocar os afro-sambas como na época de Vinícius.
      Grato pelo comentário.

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