311. Catedral: “Sol De Primavera”

Quando entrar setembro
E a boa nova andar nos campos
Quero ver brotar o perdão
Onde a gente plantou
Juntos outra vez


Há exatos 101 posts – quando falei da banda Uns e Outros, conforme você lê aqui –afirmei que não traria a banda Catedral ao blog e que, se o fizesse, seria por motivo de desespero.

Não, não estou desesperado (bom, a percepção de que restam pouco mais de 50 posts me causa certa aflição, não vou negar), mas encontrei uma justificativa para trazer a banda gospel fluminense ao 365 Canções Brasileiras.

É que lembrei que os rapazes, quando ainda eram um quarteto – antes da morte trágica do (excelente) guitarrista Cézar –, gravaram uma canção linda e conhecida, “Sol De Primavera”, composta por Ronaldo Bastos e Beto Guedes. Originalmente, a balada apareceu no clássico álbum justamente intitulado Sol de primavera (1979), de Beto:

A versão do Catedral aparece em Mais do que imaginei (2001), álbum que fez o hit “Eu Amo Mais Você” e que se sucedeu a Para todo mundo (1999). Pois foi nessa passagem de milênio que os músicos vivenciaram uma projeção maior, ficando conhecidos em todo o Brasil, dado que sua audiência era mais restrita, desde fins dos anos 1980, ao universo das seitas cristãs.

Com Para todo mundo, como o próprio nome do disco sugere, o Catedral abrandou a temática religiosa e chegou a frequentar diversos programas em canais da TV aberta. Lembro, especialmente, da participação da banda no extinto Turma da Cultura, tocando a própria canção “Para Todo Mundo” (de que gostei, à época) e, afinal, conquistando minha simpatia.

É preciso contextualizar: em 1999, o Brasil estava já havia três anos sem a presença de Renato Russo, e sentia saudade do líder da Legião Urbana. Postumamente, a banda de Brasília organizou o lançamento de seu Acústico MTV (gravado e exibido em 1992), enquanto Jerry Adriani divulgava o incrível Forza sempre (disco-tributo, apenas com versões em italiano para o repertório legionário, com a participação do próprio guitarrista Dado-Villa-Lobos e de ex-músicos de apoio da Legião – e componentes da banda Tantra –, Fred Nascimento, Gian Fabra e Carlos Trilha). Além disso, muita gente estava regravando o repertório legionário: Zélia Duncan (“Quase Sem Querer”), Os Paralamas do Sucesso (“Que País É Este”), Barão Vermelho (“Quando O Sol Bater Na Janela Do Teu Quarto”), Titãs (“Sete Cidades”), Ira! (“Teorema”), incluindo artistas estrangeiros, como o português Miguel Ângelo (“Longe Do Meu Lado” e “A Via Láctea”) e a banda punk argentina A77aque (“Perfeição”).

Era muito… mas era pouco.

No embalo desse saudosismo, a banda-clone Catedral nadou de braçada. Obras como “Uma Canção De Amor Pra Você” e “Eu Quero Sol Nesse Jardim” (que me apresentou ao conjunto, quase me fazendo cair da cadeira enquanto ouvia a Transamérica numa madrugada de 1999, pela semelhança entre o timbre do vocalista Kim e o de Renato Russo) tocaram em todos os lugares… e enganaram muita gente.

Eu mesmo cheguei a me entusiasmar, tendo comprado um de seus álbuns, 15º andar (2003). Mas logo percebi que, tirando o talento dos músicos, não se salvava muita coisa ali. Pois o Catedral, evidentemente, sobrevivia apenas por emular (às vezes, à beira do plágio descarado) o som de um conjunto que conquistara o Brasil em décadas anteriores, caminhando confortavelmente no vácuo de seu sucesso. As letras eram fracas, as harmonias conseguiam ser mais óbvias que as da Legião e, afinal, o vocal de Kim não era assim tão igual ao de Renato – ficando perceptível que, na maior parte do tempo, havia um empenho deliberado para forçar a semelhança.

De toda forma, o “Legião genérico” lançou algumas canções cativantes (gosto de “Me Diz” e “Aviso”) e, com “Sol De Primavera”, me deu o gostinho de imaginar como seria se Renato Russo cantasse alguma obra do Clube da Esquina.

Com efeito, o vocalista já havia externado o desejo de gravar, um dia, um álbum completamente devotado ao repertório esquinense. Os fãs já conheciam desde 1987 uma parceria dele com o 14 Bis (“Mais Uma Vez”, ressuscitada em 2003 para o solo-póstumo Presente) e, do próprio Flávio Venturini (mais Murilo Antunes), “Nascente” fora registrada como canção incidental na versão de “Soldados” da coletânea ao vivo da Legião, Música p/ acampamentos (1992). Ainda, bootlegs que circulavam entre os fãs da banda traziam a gravação de um show em Santo André (1990) em que, no meio de “Ainda É Cedo”, Renato recitava “Gabriel” de Beto Guedes. Essa paixão do cantor-poeta pelos mineiros chegou a ser retratada na cinebiografia Somos tão jovens (2013), com um Renato Manfredini Jr. ainda moço, à frente de um songbook de Lô Borges, cantando “Um Girassol Da Cor De Seu Cabelo”.

Caso Renato tivesse, de fato, gravado sua homenagem a Lô, Bituca e companhia, certamente haveria registrado algo como “Sol De Primavera” e, talvez, com um arranjo próximo ao da pegada legionaríssima que o Catedral incorporou à bonita canção.

catedral.jpg
Catedral: Legião Urbana genérico – mas com potencial para ser mais que isso – que supriu carências de alguns órfãos de Renato Russo.

Numa entrevista de 1994, Renato Russo afirmou: “O único tipo de banda que tem em tudo quanto é canto do Brasil, tirando as bandas heavy metal, é clone da Legião Urbana”.

O Catedral é apenas um exemplo e, aqui no blog, já trouxemos outros sons que, de fato, parecem reproduzir o estilo legionário – caso do Uns e Outros e do próprio Tantra. E na entrevista em questão, Renato cantarola um refrão de uma dessas bandas que, a seu entender, faz “coisas idênticas [à Legião]”. A canção citada ganhou certa notoriedade na web naqueles fins de 1999, e se tornou quase cult. Trata-se de “Dignidade”, da Banda ID, lançada em 1993. Afinal, uma obra até interessante e bonita, mas quase totalmente baseada nos clichês da Legião da época de Dois (1986). Ok, confesso: gosto muito! Ouça-a:

E lembro de, por volta de 1999 ou 2000, ter sido tirado do quarto por minha mãe, que então assistia ao Planeta Xuxa (!): “Rafael, vem ver essa banda que parece Legião… Direitos Iguais!”. Chego à frente da TV e fico pasmo com a semelhança. Mas, ao contrário da Banda ID, que permanece ativa, o Direitos Iguais sumiu no mundo, legando ao YouTube apenas o videoclipe da canção tocada no programa da Rainha dos Baixinhos, “Contrário”. Talvez seja a melhor obra original citada neste post… e é uma pena que não haja nenhum registro dela (nem da própria banda) com boa qualidade de reprodução. Mesmo assim, não deixe de escutar:

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