312. Mirianês Zabot: “Caminhos Do Coração”

Há muito tempo que eu saí de casa
Há muito tempo que eu caí na estrada
Há muito tempo que eu estou na vida
Foi assim que eu quis, e assim eu sou feliz


Gonzaguinha é um de meus compositores favoritos e, como já disse aqui, é lamentável que sua imagem esteja resumida à abjeta figura de um “cantor rancor”. Quem escutou atenciosamente seu repertório sabe muito bem que suas canções de resistência – cuja ironia mordaz contribuiu para a antonomásia em questão – representam apenas uma faceta de sua diversificada obra.

Nela, se pudéssemos propor um tema comum, certamente seria busca pela vida, a ser vivida livremente. Mas não com aquela liberdade egoísta e irresponsável, típica de quem pensa o ser social como a mera soma de individualidades. Gonzaguinha nos fala da liberdade enquanto valor comum, a ser desfrutado coletivamente – coisa impossível na sociedade capitalista, que começa, justamente, com a exploração do trabalhador e, portanto, com a usurpação de sua liberdade.

Aquela conversa de que, no modo de produção proposto pela burguesia, o homem é livre para vender sua força de trabalho, é no mínimo uma grande enganação. Pense que os trabalhadores do campo, em sua maioria, sequer possuem uma terra própria para cultivar, já que o território está concentrado nas mãos dos latifundiários. Estes empregam uma força de trabalho mínima, que jamais daria conta do cultivo de centenas de milhares de hectares. Isso porque essas terras ou estão entregues à monocultura devastadora da natureza, altamente mecanizada, ou servem apenas à especulação fundiária. O trabalhador do campo, o homem com laços fortíssimos de pertencimento ao mundo rural, não vê escolha senão tentar a sorte na cidade – onde engrossará a massa do lumpemproletariado e, apesar de saber e poder trabalhar (ou seja, saber e poder produzir riqueza), será ali continuamente pauperizado.

Nas composições de Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, essa consciência está explícita em muitas letras. Em outras, porém, ela aparece de modo velado, e esse talvez seja o caso da canção de hoje, “Caminhos Do Coração”.

O que mais me enternece na obra – para além de seus versos iniciais, que retomam o tema da partida e da errância, exposto em outras composições de Gonzaguinha, como “Diga Lá, Meu Coração” e uma de minhas favoritas (por sua menção ao Morro de São Carlos), o samba “Com A Perna No Mundo” – é a certeza, do enunciador, de sua feitura enquanto síntese da sociedade: “E aprendi que se depende sempre / De tanta, muita, diferente gente / Toda pessoa sempre é as marcas / Das lições diárias de outras tantas pessoas”. Se esse versos já são lindíssimos, o que se segue é de arrepiar: “E é tão bonito quando a gente entende / Que a gente é tanta gente, onde quer que a gente vá / E é tão bonito quando a gente sente / Que nunca está sozinho, por mais que pense estar”.

Em meus estudos sobre a psicologia soviética, aprendi lendo e relendo as obras de Lev Semionovitch Vigotski (principalmente seu derradeiro Michlenie i retch, que pode ser encontrado aqui em duas traduções, a desprezível Pensamento e linguagem e a razoável A construção do pensamento e da linguagem, vertida do russo para o português por Paulo Bezerra, o tradutor “oficial” de Dostoiévski no Brasil) que o psiquismo, antes de ser individual, é social. Uma dada função psicológica aparece sempre duas vezes na história da humanidade: primeiro, como fato social, isto é, fruto das relações humanas; e depois como função internalizada, em cada indivíduo singular.

Nessa perspectiva, o pensamento e, mais ainda, a consciência, não decorre apenas do crescimento biológico: seu desenvolvimento, embora dependa da base biofísica cerebral, a supera, pois incorpora também o próprio caminhar histórico da humanidade. Vigotski, ao identificar a origem histórica das chamadas funções psicológicas superiores, confirma Marx que, na Contribuição à crítica da economia política, já propunha que o ser humano é sempre a síntese de relações sociais. Ali, e também no Manifesto do Partido Comunista (junto com Engels), o pai do materialismo dialético afirmava que não é a consciência que precede o ser (como defendia a filosofia idealista), pelo contrário, é o ser que precede a consciência.

Se há consciência, há um ser que a precede, e esse ser é o conjunto das relações de produção de um determinado tempo histórico.

Não sei o quanto Gonzaguinha se aprofundou em estudos marx-engelsianos, mas acho que “Caminhos Do Coração” representa uma belíssima síntese desses achados filosóficos.

Acenando também para uma esperança futura, a canção não é apenas precisa histórica e filosoficamente, mas é também festiva, vibrante e, numa palavra, leve: apesar da melodia insinuar um movimento disfórico em algumas passagens (principalmente nos versos que transcrevi acima), trata-se apenas de um álibi para gerar o contraste que fará triunfar a mensagem final – “É tão bonito quando a gente pisa firme / Nessas linhas que estão nas palmas de nossas mãos / É tão bonito quando a gente vai à vida / Nos caminhos onde bate bem mais forte o coração”.

Mas, se o gênero determina a leitura de um dado conteúdo, o preconceito associado ao suposto rancor de Gonzaguinha, certamente, dificulta a apreensão de “Caminhos Do Coração” como uma obra autenticamente comprometida com os valores positivos.

Daí a pertinência – e diria mais, a necessidade – de alguém como Mirianês Zabot, uma jovem cantora gaúcha radicada em São Paulo, ter registrado a canção em Mirianês Zabot canta Gonzaguinha – pegou um sonho e partiu (2016), um belíssimo disco-tributo gravado de forma independente. É duro dizer isso, pois gosto também do Gonzaguinha intérprete, mas acho que a garota, em “Caminhos Do Coração”, superou o compositor, fazendo florir e verdejar a positividade da obra.

Conheci o álbum de Mirianês (que alinha onze composições de Gonzaguinha, uma delas em parceria com Ivan Lins, além de uma obra da própria cantora) lendo a coluna de Aquiles Rique Reis (o Aquiles do MPB-4) no sítio do Jornal GGN. Em sua resenha do disco, o músico e colunista conta como veio a conhecer Mirianês e seu álbum de homenagem, transcrevendo um pequeno bilhete que deixou à cantora, após apreciar a bolachinha. É com ele que encerro o post:

Oi, Mirianês! Do seu CD, além de tudo, […] ao ouvi-lo, percebi que sua voz, ainda que nela se perceba uma delicadeza irrestrita, expressa paixões desenfreadas. Ao escolher Gonzaguinha para dele relembrar alguns clássicos, você, valendo-se de uma força até então apenas tangenciada, (en)cantou-os com voz doce, quase frágil […] Saltou-me aos olhos a mais total ausência de afetação tola. […] Para você, cantar é fácil, posto que seu canto tem em si suas próprias verdades, expondo-as sem barreiras nem falsidades.

Mais nada a declarar, exceto: viva Gonzaguinha, viva Aquiles e o MPB-4, e viva Mirianês Zabot!

mirianes-zabot.jpg
Mirianês Zabot: cantando fácil o difícil Gonzaguinha.

A versão original de “Caminhos Do Coração” (que, em alguns lançamentos, traz o subtítulo “Pessoa = Pessoas”, que considero expressar precisamente o conteúdo a letra) nomeia o álbum em que foi lançada, de 1982. Na flauta e no piano elétrico, Jota Moraes. Escute:

Além da versão de Mirianês, existem muitos outros registros de “Caminhos Do Coração”. Vou tentar enumerar alguns.

Logo após o lançamento de Caminhos do coração, a cantora Joanna regravou a canção em Brilho e paixão (1983). Joanna mantém a obra no meio termo entre o reggae e o xote, como propusera a gravação original. Os vocais estão lindos nesse arranjo de Lincoln Olivetti, com Leo Gandelman no sax tenor:

Em Elba romântica (1992), Elba Ramalho registrou sua versão. A gravação é sustentada por belos violões, até repentinamente sucumbir ao irresistível xote – e quem melhor que uma paraibana para cantá-lo? Vale a escuta:

Já a cantora Taís Guerino coloca seu vozeirão a serviço de uma versão que aproxima “Caminhos Do Coração” do universo do rock, encerrando o álbum Outras pessoas (2010). Excelente registro:

No ano seguinte, o carioca Elymar Santos (incrível que ainda não tenha sido mencionado neste blog!) recuperou o arranjo original de Caminhos do coração e abordou a canção em seu Canecão ao vivo. Confira:

Um registro interessante é o do cantor cearense Zé Guilherme, em Tempo ao tempo (2006), num clima reggae-eletro-acústico e em dueto com Vânia Abreu:

Finalmente, a curiosidade: a versão do Falamansa, lançada em Simples mortais (2003). Aqui, estamos no terreno do xote puro e simples. Nada como forrozear ao som de uma letra bonita e cabeça, não é mesmo? Ouça:

5 comentários

  1. Coincidentemente,ou pelas sincronicidades da vida,acabei de ver um vídeo onde o psicólogo fala sobre o ego (indivíduo) e os arquétipos (o inconsciente coletivo),eu acho que tangencia o tema da canção,levando para o lado mais espiritualista.

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  2. Que post maravilhoso! Gonzaguinha é um dos grandes injustiçados da música brasileira. Eu acredito que por ter sido bem a frente de seu tempo( já brigava com as gravadoras nos anos 7o) e por morrer tão cedo. Sua obra é um grande legado: Crítica, cotidiano, gratidão e positividade. Vou ouvir o disco da moça.

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    1. Ótima reflexão. Gonzaguinha fez canções sublimes e o disco-homenagem da Mirianês faz jus à grandeza da obra dele, então vale muito a escuta.
      Grato pelo elogio e pelo comentário.

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