313. Cartola: “Festa Da Vinda”

Eu e meu violão
Vamos tocando em vão
O seu regresso
Se soubesses como choro
E como peço
Para que nosso fracasso
Se transforme em progresso


A grandeza de Cartola – de quem escutei falar, pela primeira vez, assistindo a uma chamada nos reclames da TV Cultura (e que coisa linda um canal que fazia divulgação cultural no horário dos comerciais, entre uma atração infantil e outra!) – requer um texto mais primoroso, um espaço mais generoso, uma dedicação maior por parte deste escreve.

Infelizmente, não conseguirei fazer o post que desejava. Primeiro, porque os dias têm sido corridos – se bem que frutíferos, é verdade – mas, principalmente, porque estou emocionado com o que ocorreu ontem: o reencontro de um brasileiro com seu povo.

E, diante do que se passou nesse dia, só consegui pensar nos versos que epigrafam o post, especialmente o encerramento da estrofe em questão: “Se soubesses como choro / E como peço / Para que nosso fracasso / Se transforme em progresso”.

É certo que “Festa Da Vinda”, composição do próprio Cartola com Nuno Veloso, foi pensada para um outro contexto, o universo sentimental. Mas, ora, amar não é também um ato político?

E lembro de uma mensagem pichada, até há algum tempo, no muro de uma casa à rua 28 de Setembro, em São Carlos (por sinal, seguindo o caminho que vai da casa mencionada aqui, passando pela outra que é mencionada aqui):

amar-em-tempos-de-ódio.jpg

O Brasil resistente – que ontem pôde sentir um pouco o gosto da justiça, ao qual andava bem desacostumado – tem mesmo é que comemorar. Já vivemos tempos difíceis (e recorro ao “vivemos” por sua ambiguidade: passado e presente), e mais revezes virão, sem dúvidas. Mas cabe fazermos hoje, ao menos hoje, a verdadeira festa da vinda.

O título “Festa Da Vinda” – dessa obra que aparece em Cartola (1974), com Canhoto no cavaquinho, Dino 7 Cordas e Mestre Marçal no pandeiro –, por sinal, sugere se tratar de uma canção festiva, embora tematize, mesmo, o desamor.

Ora, o prisioneiro, que ontem se libertou, garantiu não carregar ódio em seu coração, nem mesmo por seus algozes. Disse ainda que, ali dentro de seu peito, só há espaço para o mais nobre dos sentimentos.

Pois façamos, do breve (mas belo) samba de Cartola – e com toda a liberdade poética da qual merecemos desfrutar –, não um canto ressentido e dirigido a valores disfóricos, mas uma celebração a isso: amar.

Pois se tal ato, em tempos de ódio, for mesmo revolucionário, que comecemos com ele.

cartola
Cartola, ao lado de Dona Zica: o samba mangueirense bem representado por quem sabe amar.

Muita gente já gravou “Festa Da Vinda”.

A canção adquire um tom dramático – e belíssimo! – na voz vibrante de Elza Soares, em seu álbum epônimo de 1973. Versão definitiva, na modesta opinião deste blogueiro. Julgue você – e ouvido atento às baixarias no 7 cordas:

Mais tarde, Leny Andrade, na homenagem Leny Andrade interpreta Cartola (1988), releu com dignidade “Festa Da Vida”. O arranjo é complexo, com boa participação de Gilson Peranzzetta nos teclados (que também assina o arranjo), além do grande Luizão Maia no baixo:

Em 2000, em Com passo de MPBZeca Pagodinho convidou ninguém menos que Cauby Peixoto para um dueto em “Festa Da Vinda”. Registro antológico! Só pelo caráter histórico do encontro, já vale a pena:

Por fim, temos a paulistana Priscila Amorim (que é também atriz e dubladora) interpretando o clássico de Cartola em Pra começar (2016). Boa versão também, com o pé fincado no chão do terreiro e quase sem extravagâncias:

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