314. Sá – Rodrix – Guarabyra: “Mestre Jonas”

Dentro da baleia mora Mestre Jonas
Desde que completou a maioridade
A baleia é sua casa, sua cidade
Dentro dela guarda suas gravatas, seus ternos de linho


“Mestre Jonas” – composição do trio Sá, Rodrix e Guarabyra, presente em seu segundo álbum, Terra (1973) – é um dos maiores clássicos do chamado rock rural.

Mas afinal, que gênero é esse?

Já meditei muito a respeito, li alguma coisa (confesso que deveria ter buscado a biografia O fabuloso Zé Rodrix, de Toninho Vaz) e não cheguei a conclusão nenhuma.

Afinal, se a marca do gênero for a temática bucólica, boa parte das canções de Terra estariam excluídas do conjunto. Além disso, há todo um cancioneiro roqueiro que tematiza a vida no campo sem, contudo, ser classificado junto ao estilo em questão: penso, por exemplo, em Raul Seixas com “Capim Guiné” (se bem que, aí, estamos no terreno do xote, embora com um acento rock), ou então, mais precisamente, em Belchior com “Galos, Noites E Quintais”.

Em termos instrumentais, se o rock rural for caracterizado pela influência nítida da tradição country estadunidense, Raul e Belchior – só para insistir em artistas de duas regiões geográficas bem distanciadas do solo em que floresceram Sá, Rodrix e Guarabyra, todos fluminenses, mas com bons contatos em Minas Gerais – permanecem como contraexemplos, pois também imergiram, com até mais afinco que o trio de Terra, naquele universo de banjos, gaitas e steel guitars.

Bom, isso tudo pouco importa. O que interessa mesmo é que Terra é um discaço, perfeito em sua concisão (são menos que 30 minutos, distribuídos por 9 faixas). Quando o escutei pela primeira vez, fiquei embasbacado com o fato de que cada faixa parecia superar a anterior. À medida que o álbum era percorrido em meus fones de ouvido, as canções ficavam cada vez menos previsíveis, ao mesmo tempo reforçando e negando a mensagem das faixas anteriores.

“Mestre Jonas”, que parece representar um início da autoconsciência refletida no arcano do Louco no Tarot (como li na lista de discussão Voadores, à época em que Zé Rodrix morreu – sendo que um dos moderadores, Lázaro Freire, era amigo próximo do músico), narra a vida restrita à zona de conforto: vivendo num refúgio seguro, Jonas “diz que mora dentro da baleia por vontade própria / E ele diz que está comprometido / E ele diz que assinou um papel / Que vai mantê-lo preso na baleia até o fim da vida”.

Numa leitura mais superficial, a canção parece estar falando sobre o casamento, essa instituição que, para muitos, é antes uma prisão do que um compromisso firmado com o amor eterno. Lembra, novamente, Raul Seixas, com “Medo Da Chuva”: “Porque quando eu jurei / Meu amor, eu traí a mim mesmo / Hoje eu sei que ninguém nesse mundo / É feliz tendo amado uma vez / Uma vez”.

Pensando de forma mais ampla, “Mestre Jonas” é uma delicada exortação à coragem de explorar o mundo. A comovente narrativa de um homem que se acha grandioso por sempre caminhar num solo firme, assim, se converte numa sátira, impulsionando o ouvinte a abandonar a segurança do ninho.

E como disse, as faixas de Terra, ao se sucederem, retomam ou acenam para novas perspectivas diante dos temas repisados anteriormente. A prudência exagerada (ou, sendo mais explícito, a covardia) de “Mestre Jonas”, mais o saudosismo de “Os Anos 60” e “Blue Riviera”, encontram como solução o atirar-se na vida, representado pela excelente “Pindurado No Vapor” e pela épica road song “O Pó Da Estrada” (continuando a saga estradeira de “Primeira Canção Da Estrada” e “2ª Canção Da Estrada” – por sinal, alinhei a trilogia nesta playlist do YouTube, e vale a pena viajar pelas três canções).

Fechando Terra, “Até Mais Ver” – como se o trio soubesse que estaria se despedindo para uma longa viagem, tendo se reencontrado novamente apenas em 2001.

Álbum fundamental do rock (rural?) brasileiro.

sa-rodrix-guarabyra.jpg
Sá, Rodrix e Guarabyra: indo muito além de casas do campo e rocks ruais.

No reencontro de 2001, Outra vez na estrada – ao vivo, o trio relê “Mestre Jonas” com uma pegada roqueira e muito balanço:

Após a prematura morte de Zé Rodrix, sua filha Marya Bravo releu a canção no disco-tributo De pai para filha – Marya Bravo canta Zé Rodrix (2011). A versão reforça a pegada rock do registro original e rende tributo aos alucinantes teclados do pai da cantora:

Por fim, temos a versão da banda The Bombers, em Embracing the sun (2017). Curiosamente, a capa do álbum referencia o Tarot, que acabei mencionando neste post. Coincidência mesmo? Ao que parece, Zé Rodrix vivia dizendo que “os deuses das coincidências prestam muita atenção a quem presta atenção neles”. Dá o que pensar… Quanto ao The Bombers, sua versão leva o “Mestre Jonas” diretamente  para uma roda punk e… funciona! Confira:

A curiosidade fica por conta de uma canção também intitulada “Mestre Jonas”, lançada pelos mineiros do Tianastácia. A obra fala de um “Mestre Jonas que morava la na roça”, e que “Saiu pra acender uma vela, pois queria / Se esquentar depois de um dia de labuta / Na enxada de tratar da bicharada / Começou a delirar”. Não é preciso ser muito sagaz para sacar que a vela que Jonas acende é também “a sua pipa bem prensada no pilão”… e Mestre Jonas fica, então, chapadíssimo, em seu breve repouso durante a roça. Eis o verdadeiro rock rural! Escute:

4 comentários

  1. Mesmo não sabendo definir o que seja rock-rural,eu sempre vi e ouvi o subgênero em vários compositores.”Como Nossos Pais” de Belchior (por exemplo) eu já classifiquei de ”rock-rural”,não sei se é.

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    1. Pois é. Em algumas canções, fica a sensação de que o velho Bel é até mais rural que o trio que será, para sempre, associado ao gênero. Para chegar a alguma conclusão, só lendo mais a respeito! Está na lista de próximas leituras a biografia do incrível Zé Rodrix, que talvez apareça mais uma vez entre as postagens.
      Grato pelo comentário.

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