316. Antônio Carlos e Jocafi: “Toró De Lágrimas”

Toró… de lágrimas
Foi um retrato doído que você deixou
Foi num momento de sede que a fonte secou
Ai de mim


Em 2016, fui convocado – e nisso, me senti mesmo como um jogador da Seleção – para uma espécie de consultoria a ser prestada ao Ministério da Educação. Tudo muito oficial, voos aqui, hotéis ali, reuniões, jantares, planilhas, segredos, sigilos, códigos. A coisa era séria; os prazos, corridos; o trabalho, um exagero; e a responsabilidade, imensa.

As reuniões no início de 2017 aconteceram na simpática cidade mineira de Uberlândia, que eu estava conhecendo pela primeira vez. Foi dada a possibilidade de que eu tomasse um voo de Congonhas e desembarcasse diretamente na cidade onde vive minha amiga Nicéa (que mal consegui abraçar, nessas ocasiões, tamanha a correria). Declinei: a ideia de subir num avião, se não me causa calafrios, também não me soa divertida ou mesmo prática. Sugeri aos técnicos do MEC que trocassem minha passagem aérea por três bilhetes de ônibus: de Santo André a São Carlos (onde poderia, por algumas horas, ficar na companhia da família), de São Carlos a Araraquara e, finalmente, de Araraquara a Uberlândia. Ninguém se opôs à ideia, que tornaria a viagem ao menos cinco vezes mais barata – e, igualmente, mais longa.

Carreguei-me de livros e encarei a viagem. E, por ter sido o único que decidiu se deslocar pelas rodovias, minha chegada foi descompassada em relação ao desembarque dos demais pareceristas do MEC. Assim, cheguei no hotel sozinho: nem nosso chefe estava a postos para me receber.

Não achei ruim. Estaria livre de fazer aquele social e conseguiria descansar por algumas horas. Como havia dormido (bem) no ônibus para Uberlândia, a tentativa de tirar um cochilo foi vã. E, na solidão daquele quarto grande – jamais opulento, apenas o quarto mais confortável entre todos em que havia me hospedado –, sem qualquer distração (desprovido de celular, também não tinha levado notebook), resolvi ligar a TV.

Assisti a um interessante documentário sobre a tradição da benzeção em Pernambuco e, logo depois, começou um programa que recebeu a dupla Antônio Carlos e Jocafi para bater um papo e relembrar seus sucessos.

Foi minha salvação!

Pois ali, na companhia daqueles simpáticos baianos, ouvi estórias e canções que, antiquíssimas, estavam perdidas nalgum canto da memória, e ali jaziam esquecidas. Nem preciso dizer que senti enorme alegria ao escutar “Você Abusou” – e, ao acordar naquele dia, jamais poderia imaginar que essa canção me salvaria da solidão e do tédio.

O trabalho foi cumprido (e comprido) com muito suor, em quatro dias de labuta das 8 às 22h. E fico pensando até que ponto o som da dupla de barbudos influenciou em meu rendimento naqueles dias.

Como tributo aos meus salvadores, passei as semanas seguintes escutando diariamente aqueles senhores que despontaram à época dos festivais da MPB, na virada para os anos 1970, e foram trilha sonora de muita novela por aí.

Uma das canções que mais repeti, então, foi “Toró De Lágrimas”. Lançado em Definitivamente (1974), o samba tem como marcas um bonito e desconcertante arranjo de cordas e um ousado futurismo com os versos “Toró… de lágrimas / Foi um amor programado por computador”.

Mas o que chama a atenção mesmo é o breque após o “Toró”. Segundo me parece, a paradinha em questão é insuficiente para se apor o rótulo de “samba de breque” à disfórica canção, composta pela dupla mais Zé Maranhão. Com efeito, trata-se de um recurso estilístico (com a finalidade de aguçar a curiosidade do ouvinte, criando uma expectativa logo após a enunciação da primeira palavra a ser cantada) semelhante ao que Adoniran Barbosa empregou em “Tiro Ao Álvaro” – que também não é exatamente um samba de breque.

Enfim, uma bacaníssima canção que merecia ser resgatada, provando que Antônio Carlos e Jocafi compuseram e cantaram obras até mais interessantes que o batido (mas, afinal, excelente) sucesso “Você Abusou”.

antonio-carlos-e-jocafi.jpg
Antônio Carlos e Jocafi: um toró de sambas e batuques da Bahia, embalando novelas… e memórias.

Existe uma versão alternativa para “Toró De Lágrimas”, presente na coletânea 20 grandes sucessos (1998) e que, talvez, seja a que dividiu um compacto com “Dona Flor E Seus Dois Maridos”, em 1973. Ou, quem sabe, seja uma gravação mais moderna. Queria ser mais conhecedor do repertório da dupla para poder esclarecer essa questão. De toda forma, o mencionado registro não supera a versão de Definitivamente, trazendo sintetizadores no lugar das cordas daquela gravação original:

Além dessa, existe também a boa versão de Djalma Dias (que já foi trazido ao blog, num post medianamente acessado até agora), lançada num compacto simples em 1974. Confira:

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