317. Hermelino Neder e a Football Music: “Pô, Amar É Importante”

Pô, amar é importante
Cê não imagina a aflição que eu fico
Quando estou contigo ou não estou
Eu tenho dois amigos
Se chego pra eles e digo
Das nossas jogadas um pouco
Por vezes curtem dizendo
Você é muito louco
Outras vezes nada, nada dizem


Aqui no 365 Canções Brasileiras, já trouxemos a Vanguarda Paulistana em diversas ocasiões: logo no início do projeto, apareceu o grande Walter Franco, que nos deixou há poucas semanas e que, mesmo tendo uma carreira mais errática e menos associada à Lira Paulistana, abriu o caminho para posts sobre o resto da turma – Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Premeditando o Breque, o Rumo e suas dissidências (Luiz Tatit e Palavra Cantada).

Faltava falar de um personagem que, nas listas que enumeram os vanguardistas de Sampa, costuma ser esquecido: Hermelino Neder.

Nascido em Ourinhos, quase na fronteira com o estado do Paraná – e é curiosa essa relação entre as terras paranaenses e a Vanguarda, já que Arrigo é de Londrina e Itamar chegou a morar na mesma cidade –, o músico, compositor e arranjador preferiu, mesmo, viver um recolhimento maior que seus colegas de movimento e de geração.

Mesmo assim, deixou um legado que nada deve às melhores obras do cancioneiro tocado na Lira, e que aparece condensado num disco fantástico: Como essa mulher (1984). O álbum foi gravado com a banda Football Music – cujo título homenageia a canção “Santos Football Music” de Gilberto Mendes – e entrelaça momentos pop com (boas) sacadas eruditas, como a vinheta “Santos Music Club”, uma verdadeira conversa entre instrumentos de uma orquestra de câmara.

Desse repertório, a faixa que se tornou mais conhecida foi a composição que abre O LP,  com o curioso título “Pô, Amar É Importante”. A letra tem como características o linguajar coloquial, o texto escrito praticamente como prosa e o tom confissional, tudo isso confluindo no marcante refrão: “Pô, amar é importante / Cê num imagina a aflição que eu fico / Quando estou contigo ou não estou”.

Quando escutei Como essa mulher pela primeira vez, identifiquei alguns elementos comuns às composições de outros nomes da Vanguarda Paulistana. Por exemplo, na própria “Pô, Amar É Importante”, nota-se que as inflexões da voz que canta parecem ter sido apenas apressadamente adaptadas para o formato da canção popular, mais ou menos como opera Luiz Tatit em suas obras. Por outro lado, tanto nessa composição, como em outros momentos do álbum, algumas passagens remetem às dodecafonias de Arrigo, embora não pareçam estar, ali, tão presentes quanto em Clara Crocodilo (1980) – que, segundo o próprio Barnabé, não chega a ser totalmente dedicado à música serial, estimando-se que 90% do tempo esteja preenchido com o dodecafonismo.

Mais tarde, tudo isso que falei – a mescla de elementos populares e eruditos (e veja que “Pô, Amar É Importante” é não apenas popularíssima: é brega, no melhor sentido do termo), mais a incorporação de elementos seriais – seria mencionado pelo próprio Hermelino Neder numa entrevista concedida a Anája S. Santos, e publicada como artigo num periódico que vira-e-mexe trago ao blog (Entrevista com Hermelino NederMúsica Popular em Revista, Campinas, ano 2, v. 2, p. 176-190, 2014).

Com efeito, o artista menciona que, à época em que escreveu as canções de Como essa mulher, já começava a pensar numa teoria composicional que aproveitasse o serialismo – e um detalhe importante: o conhecimento teórico em questão foi desenvolvido durante seu doutoramento, ou seja, é fruto de uma experiência universitária (e preciso falar disso: não podemos deixar o anti-intelectualismo, e os seguidos ataques sofridos pelas universidades – principalmente as públicas – sem resposta). Leiamos um fragmento dessa entrevista:

Santos: Você utilizou essa técnica de composição nas canções do disco “Como essa mulher”?

Neder: Não tinha feito ainda, a técnica não tinha sido criada. Já estava desenvolvendo, porque eu comecei a pensar nela na época em que eu era estudante da ECA, mas eu só vim desenvolver mesmo depois, principalmente fazendo trilha sonora pra cinema.

Na década de 1980 eu estava achando um jeito de organizar, um jeito de usar as doze notas pra criar minha música […]. Eu fiz minha tese de doutorado usando essa técnica. O nome da técnica é Campos Harmônicos Seriais. O nome da minha tese é “Música pura com os Campos Harmônicos Seriais”.

Nessas horas, bate até uma inveja: parece que o tema de meu doutorado não teve graça nenhuma – muito menos, o impacto que tem a produção de Hermelino, que frequentemente é resgatada em projetos de releituras e homenagens à Vanguarda Paulistana, embora com menos destaque que seus correligionários.

hermelino-neder.jpg
Hermelino Neder: o mais discreto nome da Vanguarda Paulistano – nem por isso, de importância menor.

A versão original de “Pô, Amar É Importante”, com sua sonoridade propositadamente setentista (ou seria sessentista, dada sua nítida influência da Jovem Guarda?), traz na ficha técnica a participação do tecladista Alex Amback (mais tarde, Sacha Amback) e os vocais femininos de Sueli Gondim.

Na verdade, a canção ficaria conhecida, mesmo, com a releitura synth pop de Arrigo Barnabé – que chegou a dividir apartamento com Hermelino, sendo seu parceiro em algumas composições. Os vocais femininos, dessa vez, ficaram sob responsabilidade da estupenda Tetê Espíndola (que também já apareceu no blog, conforme você confere aqui). A versão aparece na trilha sonora do filme Cidade oculta (1986), dirigido por Chico Botelho. Arrigo, além de produzir a soundtrack, participa como ator na película. O arranjo desse registro de “Pô, Amar É Importante” é assinado por Dino Vicente. Gravação sensacional:

A canção seria regravada também pela gaúcha Adriana Deffenti, em Peças de pessoas (2002). O arranjo é cool, equilibrando-se entre o peso das guitarras e o som etéreo do piano rhodes:

Pouco depois, Hermelino, mais Luiz Pinheiro, gravariam o álbum Cássia secreta (2005). Isso porque Cássia Eller, quando estreou em disco no início dos anos 1990, tratou de gravar incontáveis peças da Vanguarda Paulistana, incluindo muitas canções de Itamar, algo de Arrigo e, principalmente, de Hermelino. Por sua vez, compositora bissexta, as poucas canções que Cássia assinou traziam letras do psicanalista Pinheiro. Assim, natural que os artistas se unissem para prestar um merecido tributo à cantora de Brasília, que não gravou “Pô, Amar É Importante”, mas chegou a cantá-la em shows (e, reza a lenda, marcando de forma caricatural as posturas masculina e feminina, num dueto consigo mesma). A versão de Cássia secreta consegue ser ainda mais brega que a original – e se mantém deliciosa. Curta:

Bem mais recentemente, Arrigo Barnabé se cercou de cinco garotas talentosíssimas, Mariá Portugal (bateria), Ana Karina Sebastião (baixo), Mônica Agena (guitarra) e Maria Beraldo Bastos (clarineta) – Mariá, já vi ao vivo com o Pato Fu, e Maria Beraldo toca no Bolerinho, a que assisti no Sesc Santo André, em 2016, fazendo uma apresentação em homenagem, justamente, à Vanguarda Paulistana –, e montou um conjunto incrível, com nome inspirado em “Pô, Amar É Importante”: O Neurótico e as Histéricas! Até onde sei, o grupo – criado para homenagear Hermelino e a Football Music – chegou a gravar um DVD em 2013, mas nada encontrei para compartilhar. Mesmo assim, há o registro da participação da banda no programa Cultura livre, aberta exatamente com “Pô, Amar É Importante”. Os vocais das meninas são o grande diferencial (e não deixe de escutar os demais números da apresentação, com destaque para a ótima “Sandra”):

2 comentários

  1. Eu sempre achei que essa música fosse do Arrigo Barnabé e também achava que a gravação original fosse a dele com a Tetê;estou sempre achando alguma coisa,rs.

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