318. Fernanda Porto: “Roda Viva”

Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu


Lembro de uma conversa que tive no saudoso ICQ, no começo da adolescência, após alguém ter indicado a mim o contato de uma garota de outra escola (descrita, na ocasião, como “both bonita e inteligente”, o que foi o suficiene para atiçar meus hormônios). Não vou expor a moça – sobre a qual não recebi mais nenhuma notícia, desde 2002 –, bastando dizer que o papo foi o seguinte: ela perguntou qual era minha banda favorita e, diante da resposta, treplicou uma mensagem iniciada com “Eca…”. Disse, então, que seu som predileto, no momento, vinha do DJ Patife – de quem nunca tinha escutado falar mas, por uma questão de brio (e verdadeira birra adolescente), devolvi com um igualmente reticente “Eca…”. Convenhamos: o nome do DJ não inspira lá muito respeito.

Algum tempo depois, surgiu a bacana novela global Um anjo caiu do céu, que trazia a canção “Sambassim”, de Fernanda Porto, na trilha sonora. Fiquei vidrado! E, finalmente, pude conhecer algo emanado da produção do tal DJ. À época, eu pouco ligava para a música eletrônica, sequer identificando o subgênero associado àquele ritmo contagiante.

No ano seguinte, a artista paulista lançou seu álbum de estreia, Fernanda Porto (2002). O disco trazia a já famosa “Sambassim”, explicitando o projeto de conduzir a música popular brasileira para as pistas de dança: “Essa samba é meu groove da vez / Com guitarra e drum n’ bass / Só pra ver como é que fica / Eletrônico o couro da cuíca”.

Fernanda Porto tem duas características: um investimento pesado na batida do drum n’ bass (o tal ritmo que eu mal sabia nomear, e que se tornaria meu beat eletrônico favorito desde então), flertando perigosamente com a monocordia; e o fato de todas as faixas terem sido compostas (às vezes com algum parceiro) por Fernanda Porto – com exceção de “Só Tinha De Ser Com Você”, de Tom Jobim com Aloysio de Oliveira –, sendo também conduzidas exclusivamente pela musicista, que pilotou programações, violões, guitarras, sax e piano.

Dois anos depois – quando eu já estava definitivamente seduzido pela batida explorada naquele álbum –, a cantora divulgou o sucessor de Fernanda Porto. Menos escourado no drum n’ bassGiramundo trazia uma Fernanda mais gregária, convidando outros músicos para dar corpo às 14 faixas do álbum.

Gosto de ressaltar, em casos de artistas inovadores como a multi-instrumentista, a produção autoral apresentada em seus lançamentos. Poderia, perfeitamente, ter tematizado neste post alguma obra do próprio Fernanda Porto, como a deliciosamente pop “Tanta Besteira”, ou o eletro-maracatu de “Baque-Virado”, além da própria “Sambassim”.

Mas preciso confessar: o que mais me atraiu para Giramundo – e que me conduziu a apreciar até com mais atenção o disco anterior – foi a regravação, ali presente, do clássico “Roda Viva”, de Chico Buarque.

Sobre essa canção estupenda, nada mais precisa ser dito. Símbolo do momento em que a truculência do regime ditatorial civil-militar atinge níveis inaceitáveis, gosto de apresentar a canção aos alunos que cursam Políticas Educacionais comigo, quando do momento de tratar das reforas educacionais no período 1968-1971. Até preparei, para esse momento, um vídeo que mescla a trilha de Chico com imagens da época, extraídas do livro ilustrado 1968, do sonho ao pesadelo (organizado por José Alfredo Vidigal Pontes e Maria Lúcia Carneiro e publicado pelo grupo O Estado de São Paulo):

A versão de “Roda Viva” apresentada em Giramundo viria a integrar a trilha do filme Cabra-cega (2005), de Toni Ventura, e tem diversos atrativos: para além de verter (respeitosamente) para o drum n’ bass uma canção que, em seu arranjo original (com a participação imprescindível do MPB-4), já era perfeita, a nova gravação traz belas intervenções percussivas (Márcio Forte inclui até um berimbau), a cozinha importada da banda de hard rock estadunidense Living Colour e a luxuosa participação do próprio Chico Buarque.

O dueto proposto é impressionante, e gosto muito de prestar atenção ao detalhe da respiração de Chico, que sua a camisa para acompanhar o andamento apressadíssimo – os 92 bpm da regravação representam uma aceleração de quase 20% em relação às batidas da gravação original. Nesse sentido, é de se notar que o novo arranjo atenua o aspecto passional da melodia de “Roda Viva”, tornando a sucessão de eventos disfóricos, narrados na letra, como uma inevitável sina que nos acompanha desde 1968 (e talvez antes) até os dias atuais.

Não é exagero afirmar que Fernanda Porto, não apenas com sua versão para “Roda Viva”, mas com todo o empenho eletrônico apresentado em seu álbum de estreia, de fato contribriu para renovar a canção brasileira. Se os beats já se insinuavam em nosso cancioneiro – principalmente nas obras dos artistas associados à “nova MPB” –, a artista paulista tornou possível que as batidas eletrônicas se difundissem e fossem tratadas, dali em diante, de forma mais desavergonhada. Converteram-se, assim, em mais um recurso a enriquecer arranjos e a atirar pés (e cérebros) para as pistas de dança.

fernanda-porto.jpeg
Fernanda Porto: multi-instrumentista, cantora, compositora e entusiasta de beats acelerados na MPB.

Desta vez, não vou compartilhar versões alternativas para o arranjo drum n’ bass de “Roda Viva”. Por aí, você encontrará um registro ao vivo oficial de Fernanda Porto (lançado em seu DVD Ao vivo, de 2006) e alguns remixes interessantes.

Quero falar aqui, rapidamente, sobre outras versões com a mesma batida, também para canções de Chico – felizmente, cada vez mais exploradas pelos pilotos das pistas.

No mesmo ano do lançamento de Fernanda Porto, Marcelinho da Lua, em Tranquilo, propôs uma versão bacaníssima, na mesma pegada, para “Cotidiano” – e o arranjo, novamente, traz novas implicações para a leitura da letra. O registro tem a participação de Seu Jorge:

O mesmo Marcelinho da Lua propôs um mix bem legal de “Sem Compromisso” – de fato, famosa na voz de Chico, mas composta por Gerado Pereira e Nelson Trigueiro –, em Social (2007):

Outro que tem apresentado versões drum n’ bass para canções da MPB é o DJ Alkay. Você pode conferir parte dessa produção em seu perfil no SoundCloud. De Chico, temos uma versão carioquíssima de… “Cariocas”:

O DJ Zé Pedro (que já trabalhou com Fernanda Porto) remixou diversos clássicos da MPB, incluindo várias canções de Chico, como “Morena De Angola” e “Não Existe Pecado Ao Sul Do Equador”. No passo do drum n’ bass, temos novamente “Cotidiano” – que parece cair bem em qualquer arranjo, seja mais acelerado (como nos dois mixes, o de Zé Pedro e o de Marcelinho da Lua) ou mais arrastado (a versão cantada por Arnaldo Antunes é fenomenal). Confira:

Uma delícia também é a versão para “Essa Moça Tá Diferente”, em que o Bossacucanova, em Uma batida diferente (2004), convoca Simoninha para fazer os vocais, aproveitando os inventivos metais da gravação original buarquiana:

A mesma canção foi regravada por Roberta Sá em Sambas e bossas (2004), versão que virou um mix pesadíssimo, pelas mãos do DJ Roberto Rangel. Prefiro a gravação do Bossacucanova, mas essa batida de Rangel ficou excelente pra fritar geral:

Por fim, compartilho “Acorda Amor”, mixada pelas mãos do DJ Jards. Beat fritadíssimo também:

Pedido do blogueiro: se você encontrar mais algum mix DB de canções do Chico, não deixe de compartilhar conosco, usando os comentários a este post.

2 comentários

  1. É extremamente válido os artistas da cena eletrônica reapresentarem os clássicos da MPB com uma roupagem dançante.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s