319. Samuel Rosa & Lô Borges: “Dupla Chama”

Se você quiser
Fique até aparecer o sol
Naquela curva da madrugada que se vai
Não se apresse não
Deixe o mundo amanhecer em paz
Não diga nada, me dê a chance de dizer 
Pequenas coisas que não precisa escutar


Uma de minhas primeiras aquisições musicais, logo que fui morar sozinho, foi o aguardadíssimo álbum conjunto de Lô Borges e Samuel Rosa, Ao vivo no Cine Theatro Brasil (2016). Afinal, os artistas vinham dividindo o palco, em apresentações esparsas, desde fins dos anos 1990 (e havia uma nota celebrando o fato justamente no primeiro número que comprei da revista Showbizz, em 1999).

É verdade que, até então, já era possível escutar gravações oficiais tanto de Samuel cantando o cancioneiro do Clube da Esquina, quanto de Salomão Borges cantando o Skank. Em Maquinarama (2000), o conjunto mineiro gravava uma composição de Lô pela primeira vez (“A Última Guerra” – e pense num reggae esquinense e psicodélico, com uma estrofe tão fantástica quanto esta, cheia de proparoxítonas: “Seu amor seca hidroelétricas / Corrompe os melhores diáconos / Seu amor esquenta os átomos / E rompe com a minha métrica”), o que se repetiria em Cosmotron (2003), com o sucesso “Dois Rios” (de Samuel e Lô mais Nando Reis). Samuel, muito oportunamete, também participara da regravação do Ira! para “Um Girassol Da Cor De Seu Cabelo”, em Isso é amor (1999). Na outra mão, tinha a gravação de Lô para um dos maiores sucessos do Skank, “Te Ver”, em Meu filme (1996), adicionando um rico colorido harmônico a uma canção originalmente descomplicada, baseada praticamente em apenas dois acordes.

Assim, quando saiu o disco ao vivo de Lô e Samuel, criei uma enorme expectativa, e encomendei o CD sem nem conferir a lista de faixas.

De certa forma, me decepcionei: o repertório e os arranjos praticamente não iam além daquilo que o Skank e o próprio Lô tinham registrado em seus últimos álbuns ao vivo. Por exemplo, queria muito escutar uma versão de show para “Horizonte Vertical” (outra parceria de Samuel, Lô e Nando), mas a faixa consta apenas no DVD, assim como outras canções menos badaladas que imaginei encontrar no CD, como “Trem De Doido” e uma de minhas favoritas, “Equatorial”.

Me agradaram, de verdade, a retomada do arranjo com piano em “Um Girassol Da Cor De Seu Cabelo” – que, em Intimidade (2008), Lô buscou renovar, conseguindo apenas diluir o impacto e a dramaticidade de uma das faixas de maior destaque de Clube da esquina (1972), o clássico álbum que gravou com Milton Nascimento – e a citação ao dedilhado original da introdução de “Paisagem Da Janela” (cortesia de Samuel, a certa altura da performance). Tem também a participação de Bituca em “Para Lennon E McCartney”, de fato, maravilhosa, lógico.

De toda forma, o registro tem seus méritos, e destaco a presença de duas faixas bônus gravadas em estúdio, “Lampejo” e “Dupla Chama”.

Gosto especialmente da última, que tem uma melodia alegre e uma letra igualmente focada em valores eufóricos: um simples momento a dois, prolongado ao máximo pelos protagonistas – “Até amanhã, você e eu / O tempo abriu, o sol bateu / E tudo vai mudar / Mas não importa agora / […] A casa é sua e a rua pode esperar / Se você ficar também pode acontecer assim / O beijo súbito fazendo o tempo deslizar / Pela saliva até perder-se no olhar”.

É interessante que essa singela canção pop foi composta não por Samuel, mas por Lô, em parceria com aquele que foi o letrista “oficial” do Skank em seus primeiros álbuns, Chico Amaral. E “Dupla Chama” poderia, perfeitamente, se passar por uma obra do Skank.

Agora que a banda mineira se propôs um prazo de validade – fará uma turnê de despedida até 2020 –, um debate tomou conta do meio internético-musical: existe hora certa para parar?

Em seu blog, o jornalista Mauro Ferreira elogiou a postura de Samuel e companhia, que evitaria tropeços desnecessários numa carreira, até agora, impecável. Sob o risco de o conjunto se tornar uma cópia de si mesmo, melhor mesmo colocar um ponto final em sua história.

Por outro lado, muitos questionaram essa visão um tanto racional demais: qual o problema se a banda decidir continuar tocando indefinidamente, ainda que apoiada na ressonância de seus clássicos de um passado distante?

Nesse debate, estou do lado de Mauro. Penso que o Skank já forneceu uma contribuição inestimável à canção popular brasileira, e o próprio modo como Lô toca e compõe hoje – mais arrojado e menos dependente das surpresas harmônicas que caracterizaram suas composições clássicas, que representam a síntese exata entre a beatlemania e a bossa-nova –, marcado por décadas de convivência com Samuel Rosa, é uma prova de que a banda foi longe: influenciou sua própria influência!

Liberado de excursar com seus companheiros de banda, penso que Samuel poderia se dedicar a estreitar, ainda mais, a parceria com o quase septuagenário Lô Borges, alçando voos mais ousados ao lado de seu ídolo.

Assim, apesar da dissolução do Skank me afetar de forma especial – pois o primeiro álbum que ganhei, como contei aqui, foi seu fenomenal O samba poconé (1996) –, só pode ser auspiciosa a perspectiva de escutar um Samuel mais liberto das amarras temático-estéticas de seu conjunto, e talvez criando mais canções inesquecíveis.

A conferir.

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Samuel Rosa e Lô Borges: passado e, quem sabe, futuro da canção popular mineira.

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