320. Criolo: “Espiral De Ilusão”

Como você dorme com isso?
Como você dorme tranquilo?
Me magoou me destruiu me desandou
Como você dorme tranquilo?


Criolo apareceu em minha vida em 2011, pouco depois de divulgado, no YouTube, um tocante vídeo do rapper cantando, a capella, uma paródia (ou atualização) de “Cálice”.

Aquela performance improvisada (será mesmo?) mexeu de verdade comigo: quem era esse moço paulistano que, vindo do hip-hop, ousava (se atrevia a?) cantar uma composição clássica de Chico Buarque e Gilberto Gil, ainda por cima, alterando aquela letra repleta de estórias (ou de história?)? Deu o que pensar.

Mas, intuitivamente, saquei a provocativa mensagem do moço, decifrada num artigo fantástico que o professor Walter Garcia, da USP, publicou na Música Popular em Revista (Campinas, ano 2, v. 2, p. 110-150, 2014):

Criolo não se dirige aos dois artistas da chamada MPB nem com adulação, nem com menosprezo. Nem há propriamente confronto, mas há um aviso, quase uma chamada, pois se entende que a obra atual de Milton e a obra atual de Chico não falam do autoritarismo que prossegue. De fato, o poder de crítica da chamada MPB se enfraqueceu de tal modo, desde a década de 1980, que hoje parece que a sigla não tem nada a dizer sobre as várias formas de violência que atravessam a sociedade brasileira (p. 141-142).

Fiquei ainda mais reflexivo quando o próprio Chico, em 2012, no DVD Na carreira – ao vivo, incluiu uma vinheta que, cantada como um rap, respondia e saudava – em tom conciliatório – o “Criolo Doido”. O compositor de “A Banda” assim se expressava em “Rap De Cálice”: “Bem-vindo ao clube / Valeu, Criolo Doido, evoé, jovem artista / Palmas pro refrão doído do rapper paulista: / ‘Pai, afasta de mim a biqueira / Pai, afasta de mim as biate / Pai, afasta de mim a cocaine / Pois na quebrada escorre sangue'”.

É interessante observar, na réplica de Chico, que – afinal – a última palavra ainda é a da MPB, pois o compositor encerra o “Rap De Cálice” não com o refrão “atualizado” de Criolo, mas com o velho refrão que cantou com Milton Nascimento na gravação de Chico Buarque (1978). Ou, nas palavras de Garcia,

O que “Rap De Cálice” deixa de lado […] é a crônica da ditadura e da repressão atuais. […] em outras palavras, ao tema de Criolo Doido – Cálice, a composição de Chico não responde. No show da MPB, os versos de Criolo nem sintetizam sofrimento nem relatam ou criticam o cotidiano das periferias urbanas: os versos do “refrão doído” (repare-se no ótimo artesanato de Chico) são as ótimas referências de um “jovem artista” (p. 144).

A discussão é boa e atual, ainda mais após vários proclamados “fins” da canção popular. Afinal, se a canção acabou ou se está acabando, qual a posição (ou papel) do rap diante desse fenômeno? Nessa problemática, o diálogo – ou a falta de – entre um jovem negro e  periférico, vindo das rinhas de MCs em que foi criado(r), adquire importância decisiva: qual seria a tréplica de Criolo, diante da aparente investida hegemonizante expressa nas entrelinhas do “Rap De Cálice”? Note-se que o embate, aqui, é quase tão político quanto artístico.

Mas nada é tão simples… nem poderia deixar de se complicar.

Pois o próprio improviso revoltado de Criolo se tornou pop e, quando o artista veio a São Carlos em 2011 (no Festival Contato), os versos daquele precário vídeo divulgado no ano anterior foram incorporados como parte (ensaiada e até cantada pela plateia) do espetáculo:

E, pra dificultar ainda mais as análises, eis que sintonizo o canal Bis, em 2016, e me deparo com a cantora e atriz Samantha Schmutz, no programa Samantha canta, propondo um tributo a Elis Regina, findando com a participação de… Criolo! E fico impressionado com a desenvoltura do cantor ao passear por um repertório sambista, num esperto pot-pourri, com peças associadas ao espetáculo Opinião (de que já falamos aqui e aqui, com muito Zé Keti), coisas de Carlos Lyra, Cartola, Tom Jobim e Vinícius de Moraes.

Afinal, o que houve? Será que foi Chico quem venceu a rinha, e cooptou Criolo para o clube?

É o próprio Criolo quem responde, de forma ainda mais audaz: compondo e cantando um disco sambista. Com Espiral de ilusão (2017), em vez de embaralhar ainda mais as cartas, o artista tratou de simplesmente reiniciar o jogo. O embate rap-MPB caminha para uma disputa estéril e, afinal, bizantina. Não são os gêneros os personagens principais: é o povo! O povo! Aquele que sofre com a violência policial e com a guerra do/ao narcotráfico nos morros, e que já foi representado pelo samba, pela punk, pelo rap (e, hoje, talvez se expresse mais pela via erótico-dançante do funk). Sendo o povo quem fala, tanto faz o gênero – e parece ser essa a mensagem do compositor.

Criolo, assim, apresenta um conciso (o que é elogiável) álbum, rendendo tributo às vozes dos morros cariocas (e das periferias de Salvador), sem perder de vista sua origem, afinal, paulistana. Nesse sentido, o disco é, ao mesmo tempo, cosmopolita (por não se fixar num centro geográfico) e provinciano (por colocar sempre em primeiro plano as agruras – mas também as pequenas alegrias – de um personagem muito bem determinado, o trabalhador brasileiro).

Se é difícil identificar a faixa de abertura (“Lá Vem Você”) com algum nome clássico do samba (não me ocorreu nenhunzinho… mas talvez haja um parentesco distante com Adoniran Barbosa e os Demônios da Garoa), o que se segue pode ser, sempre, remetido a algum bom bamba: “Dilúvio De Solidão” tem título à Nelson Cavaquinho e cavaco à Paulinho da Viola; “Nas Águas” é pura Bahia e tem algo de Roque Ferreira; “Filha Do Maneco”, um samba de breque, lembra Nei Lopes e Moreira da Silva; “Boca Fofa” parece as gafieiras tão bem exploradas nos álbuns de Zeca Pagodinho; e, de forma geral, Criolo tem um timbre que lembra vagamente a doçura de Cartola.

Enfim, todas as faixas de Espiral de ilusão são cativantes, mas gostei mais da canção-título que, só pra sacar mais referências, é paulistana até a medula e tem uma melodia que é puro Paulo Vanzolini. Além disso, exatamente como a “Ronda” do velho sambista-zoólogo, “Espiral De Ilusão” traz o canto amargurado de uma personagem feminina, preterida pelo companheiro. O tom é menor e favorece que a voz de Criolo permaneça contida, liberando espaço para um protagonismo mais pronunciado do 7 cordas de Gian Correa (que é um destaques do álbum) e da flauta de Fernando Bastos.

Que me perdoem os rappers: Espiral de ilusão é, por sua importância histórica enquanto elo numa cadeia discursiva que enreda política e arte e, mais ainda, por suas próprias qualidades em termos estéticos –  composicionais, temáticos e instrumentais (e tiremos o chapéu para a produção azeitada de Daniel Ganjaman) , o ponto mais alto da discografia de Criolo.

criolo.jpg
Criolo: a voz do morro é ele mesmo, sim senhor.

A cantora Ceumar, acompanhada da incrível musicista Josyara, apresentou uma versão voz(es)-e-violão para “Espiral De Ilusão” em Espiral (2019). Registro impressionante! Escute:

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