321. Blitz: “Você Não Soube Me Amar”

Sabe essas noites que você sai caminhando sozinho
De madrugada, com a mão no bolso
Na rua
E você fica pensando naquela menina
Você fica torcendo e querendo que ela tivesse
Na sua


A chegada da onda do BRock pode ser identificada num momento preciso: quando estoura “Você Não Soube Me Amar”, faixa do primeiro álbum da Blitz, composta por Evandro Mesquita, Guto, Ricardo Barreto e Zeca Mendigo.

Muito já foi dito sobre o disco, que alinhava 13 faixas (as duas últimas, “Ela Quer Morar Comigo Na Lua” e “Cruel Cruel Esquizofrenético Blues”, censuradas e, portanto, inutilizadas para audição em cada cópia do LP As aventuras da Blitz) e introduzia no Brasil uma estética de cores aberrantes em cenários e figurinos, combinações esdrúxulas de trajes e um humor que, penso eu, era refinadíssimo e muito mais sutil do que parece, à primeira audição.

Tenho muitas estórias para falar sobre canções do álbum – que, por si só, já condensa muita história. Alguns de seus singles fazem parte de minhas primeiras recordações musicais e, bem mais tarde, várias faixas do disco marcariam instantâneos ou períodos de minha vida.

Por exemplo, lembro que, no Dia do Estudante em 2000, a escola preparou uma pequena comemoração para homenagear a nós, os anjinhos sedentos por saber, e colocou um videokê para exibirmos nossos dotes vocais. Ah, como era bom ter juízo: não fui passar vergonha, ufa (e, quem dera tivesse mantido esse instinto de autopreservação nos anos vindouros… pois meu último vexame, com o microfone na mão, foi encarar uma canção em japonês, e você já pode imaginar o resultado). Mas a garota que sentava atrás de mim naquele 1º C, Camila – e que, por isso, ficou muito amiga minha, e mais ainda ao descobrirmos que nascemos no mesmo dia –, convidou alguma outra guria, mais um chapa também de nossa classe, Zé Renato, e os três cantaram muito bem “Mais Uma De Amor” (especialmente, as moças, com vocais idênticos aos da versão original). Essa situação me marcou, especialmente, porque ninguém ali – nem ao microfone, nem à plateia – tinha nascido antes de 1983!

Dois anos depois, quando fui atropelado e fiquei de molho por dois meses, “A Dois Passos Do Paraíso” foi uma canção que escutei diariamente. Não sei o motivo de ela ter parado na minha playlist (termo que, à época, não se usava, é bom dizer), só sei que foi uma das canções que mais me fizeram companhia naqueles dias difíceis, e cujo humor me ajudou a suportar as dores de uma clavícula em frangalhos.

Talvez esses dois episódios ajudem a justificar a importância histórica da Blitz. Os segredos do sucesso de Evandro Mesquita e companhia – e tinha ali, ainda, Fernanda Abreu nos vocais e Lobão na bateria – talvez estejam associados à precisa e equilibrada mistura entre inteligência e humor, entre a novidade (reeditando em solo brasileiro a new wave que já começava a se descolar do pós-punk inglês) e o passado (tietes de Roberto Carlos, não se importavam em soar caretas ao render tributo à Jovem Guarda) e, principalmente, entre certa sagacidade literária e o desbunde puro e simples.

Nesse sentido, a narrativa de “Você Não Soube Me Amar” é exemplar: todos esses polos opostos estão ali, antes sintetizados que sincretizados. E por isso, qualquer publicação séria sobre o BRock precisa, justamente, tomar o maior sucesso da banda carioca como um ponto de partida necessário, como afirmei no primeiro parágrafo deste post.

Vale mencionar, também, que “Você Não Soube Me Amar” conseguiu a proeza de se juntar a outras raras canções que viriam a incorporar, nas trocas enunciativas do brasileiro médio, expressões, máximas ou jargões, que chegam a adquirir vida própria, para além do contexto em que foram propostas. Com efeito, o “OK, você venceu!” (às vezes, completado precisamente com “…batata-frita!”) está aí, tão na boca do povo quanto a “volta por cima” (de Paulo Vanzolini) ou o canto provocativo “Sonho meu, sonho meu…” (cortesia de Dona Ivone Lara, dirigida a quem devaneia ou delira – e que ouvi diversas vezes ao jurar, de pés juntos, que o Corinthians ganharia a Libertadores de 2012).

Talvez seja essa a lição que a Blitz tenha a nos ensinar. Para ser eterno é preciso, antes de tudo, ser leve: não levar ninguém a sério demais, nem a si mesmo.

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Evandro Mesquita e Fernanda Abreu, no palco com a Blitz: inteligência e humor inaugurando a era do BRock.

A Blitz, em seus incontáveis revivals, acabou gerando diversos registros ao vivo para “Você Não Soube Me Amar”.

Aqui, vou destacar apenas aquele de Blitz com vida (2006), com a participação vocal de ninguém menos que o saudoso Chorão. O vocalista do Charlie Brown Jr. – fã assumidíssimo do BRock, tendo até incorporado algumas canções oitentistas na discografia de sua banda – faz as vezes de Evandro Mesquita com surpreendente competência. Nunca tinha reparado em como os dois timbres poderiam ser parecidos! Ouça:

Quanto às regravações de outrem, destaco apenas a versão proposta pelos Autoramas, em Vida real (2001). Ao contrário do registro da gravação original, cheia de volume (com muitos vocais e teclados), aqui é apenas o trio original – Gabriel Thomaz (voz e guitarra), Simone do Vale (voz e baixo) e Bacalhau (bateria) – reproduzindo com inacreditável fidelidade o arranjo original, mas sem abdicar do peso habitual. Confira:

3 comentários

  1. Me lembro muito bem da chegada da Blitz e dessa música em particular.Percebia que tinha algo diferente,no humor,na coreografia e na letra cantada e falada ao mesmo tempo,mas não tinha noção de que ali nascia um movimento ou um momento musical que ganharia o nome de Brock.

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    1. Não sei se o BRock possa ser considerado como um movimento. É mais uma designção guarda-chuva para se referir aos conjuntos oitentistas que, com um pezinho no punk, se desenvolveram em várias direções, partindo principalmente do pós-punk e de sua vertente mais colorida, a new-wave.
      Por isso, Blitz é BRock; 14 Bis, por exemplo, não.
      Grato pelo comentário.

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