323. Paulinho Nogueira: “Meus 20 Anos (Ai, Corinthians)”

São 20 anos de espera
Devoção e muito amor
Cada vitória é uma festa
E a derrota, um dissabor
Quase sempre é conquistado quando é preciso ganhar
Mas nessas tantas vitórias – algumas sensacionais!
A gente esquece de tudo, não desanima jamais!


Meus amigos sabem que não sou um corintiano chato, apesar de roxo. Até porque minha própria história não permite que eu saia por aí desfilando a arrogância de torcedor fanático, a cada (ultimamente, escassa) vitória de meu time.

Isso porque eu estava predestinado a ser palmeirense, essa é a verdade. Em minha família, no lado de meu pai, todos são alviverdes – e é o caso de se estudar o porquê de os japoneses e seus descendentes preferirem o Palmeiras (talvez a aliança do Japão com a Itália, na Segunda Guerra, explique). No lado de minha mãe, a turma se divide: mezzo palestrinos, mezzo alvinegros.

Nós do “bando de loucos” somos, portanto, minoria no território familiar. Minha conversão, assim, se explica pela ausência de meu pai em meados de minha infância. O homem foi ao Japão trabalhar como dekassegui e, ao voltar, coitado: encontrou um filho torcendo pro Timão, trabalho malignamente arquitetado pela fanática sogra. Minha avó é essa figura.

Meu pai, porém, nunca se mostrou desapontado com minha cooptação. Pelo contrário, é um palmeirense que até causa suspeitas: onde já se viu um porco legítimo se referir ao maior rival como “Coringão”? Tenho a sensação de que, tivesse ele mais filhos, gostaria que cada um torcesse para um time diferente, de modo que ele próprio estivesse autorizado, assim, a vibrar por todas as bandeiras. Outro assunto a ser estudado.

Enfim, fui crescendo, virei um menino torcedor, meio relapso, é verdade, e que chorou de tristeza nunca pelo Corinthians, mas pela Portuguesa, quando a Lusa perdeu a final do Brasileiro de 1996 para o Grêmio. Nem eu entendo essa passagem. Será que, inconscientemente, dada a minha ascendência também lusitana, senti uma emoção descabida pela Lusa e sofri uma legítima “dor na alma” ao ver Manoeis e Joaquins tombarem, simbolicamente, nas quatro linhas?

Sim, não tenho problemas em admitir que torço por outros clubes. E heresia maior: meu segundo time é justamente o Palmeiras, até por uma questão de respeito ao meu velho e a 90% de minha parentaia. Sem contar que, não tem jeito, o verde é minha cor favorita. Afinal, tá aí uma contradição inerente à iconografia do time: o Corinthians é apadrinhado por São Jorge, que é sincretizado com o orixá Oxóssi (ou Ogum, dependendo da linha), que é justamente o dono das matas e, portanto, veste… verde. Literalmente, um absurdo! (Fossem os dirigentes do clube audaciosos, nobres e inteligentes o suficiente, teriam elaborado uma camiseta verde e branca em homenagem às vítimas do trágico acidente aéreo com o time da Chapecoense. Eu compraria, certamente).

Assim, torci para o Santos de Neymar na Libertadores de 2011 – pois meu Corinthians conseguiu a proeza de ser eliminado ainda na fase pré-grupos, pelo então obscuro Tolima da Colômbia – e, dois anos depois, para outro alvinegro, o Atlético Mineiro comandado por Cuca. Sem grilos. Como também estou, hoje, admiradíssimo com o futebol do Flamengo na atual edição do Brasileiro: o melhor time que jogou a competição nos últimos 10 anos, talvez mais. Gostei também de ver o Paranaense, agora Athlético com “h”, campeão da Copa do Brasil neste ano e, afinal, me compadecerei com o torcedor cruzeirense se seu time cair para a (que eufemismo!) “Divisão de Acesso”. (Mas confesso, não sem certo constrangimento, que será uma delícia se isso acontecer com o Fluminense).

Mesmo assim, não tenha dúvidas: é com o Corinthians que me emociono de verdade. Xingo, pulo, praguejo, urro, pronuncio (já há sete anos) “CÁSSIO!!!” a cada pênalti defendido, me agito, me remexo, vou quase às lágrimas. É assim com o time que carrega a façanha de, ao escolher o lanterna do Brasileirão para fazer a partida inaugural de sua casa – do qual estava desprovido havia cento e tantos anos –, tomar um baile. Ou então, ganhar tudo nos arredores (em 2008, a Série B; em 2009, Paulista e Copa do Brasil; em 2011, Brasileirão; em 2012, Libertadores e Mundial), mas absolutamente nadica de nada no ano de seu Centenário – pra ouvir, eternamente, o justo trocadilho do “sem ter nada”.

O time do Parque São Jorge é esse mesmo, que ficou 23 anos sem qualquer título, quebrando o doloroso jejum apenas em 1977. Não sei se tenho sorte ou azar de não ter vivido essa época. Mas sei que Paulinho Nogueira tratou de imortalizar a aflição desse momento num samba lindíssimo e sincero ao extremo. “Meus 20 Anos (Ai, Corinthians)” traz a dor no próprio título, tendo sido composto por esse exímio violonista – professor de outro craque no instrumento, e também grande corintiano, Toquinho – em 1974, e lançado já às vésperas do fim dessa interminável era angustiante (mais precisamente, em 1976), num compacto simples que, no lado-A, trazia o “Hino Oficial Do Sport Club Corinthians Paulista”.

Ali está a verdade nua e crua: a gozação dos demais torcedores, o ignóbil sentimento de vingança que haveria de vir com a desforra, a fé no Santo Guerreiro e, acima de tudo, o amor inabalável a uma entidade que transcende a história do futebol, e se mistura com a própria história do Brasil.

Se há uma teoria que explique a aparente irracionalidade que permeia o (ant)agonismo no esporte bretão – e mesmo a repulsa ao insosso empate, também mencionado na canção da Paulinho –, ela foi tecida pelas mãos de outro cancionista fantástico que, por acaso, também escreve prosas fascinantes e belíssimas sobre o futebol. Estou falando de José Miguel Wisnik, autor de dois de meus livros favoritos: O som e o sentido (de que já falei no blogaqui e aqui) e Veneno remédio: o futebol e o Brasil. Este último, publicado pela Companhia das Letras (tenho aqui a primeira edição, de 2008), traz um fragmento interessantíssimo a respeito disso, mencionando (na tentativa de elaboração de uma “dialética da torcida”) uma necessidade antropológica:

a de se dividir em “clãs totêmicos” mesmo no mundo moderno, e disputar ritualmente, num mercado de trocas agonísticas, o primado lúdico-guerreiro, como se não fosse possível ao grupo social existir sem suscitar por dentro a existência do outro – o rival cuja afirmação me nega me afirmando.

Em todos os casos, a base é uma só: ganhar remete ao imaginário (a sensação plena e fugaz da completude), perder remete ao real (à experiência de um corte que devolve ao sentimento da falta), e empatar, ou voltar ao zero a zero do início, é o pressuposto simbólico do jogo, que o movimenta e o faz recomeçar. Quando vigora dentro dessas condições, o futebol é um instrumento de elaboração de diferenças, um campo festivo e polêmico de diálogo não verbal, projetado no terreno da disputa lúdica, que atualiza a necessidade de que haja um outro para que eu seja, de que um outro me afirme ao me negar (p. 51, grifo do autor).

À luz dessa teorização de Wisnik, faz pleno sentido o bonito e realista refrão de Paulinho: “Ai, Corinthians, cachaça do torcedor / Colorido em preto e branco / Sem preconceito de cor / Ai, Corinthians, quando és o vencedor / Pobre fica milionário, rindo da própria dor”.

Pois é, devo também essas risadas ao meu time. Não tenho dúvidas de que dois dos momentos mais emocionantes que vivi estão atravessados pela comemoração de títulos do Timão. O gol de Romarinho, em plena La Bombonera, fazendo o time colocar uma mão na sonhada taça da Libertadores, me causa arrepios só de lembrar. Um momento de suspensão do real: não poderia ser verdade, havia de ser um devaneio e, no entanto… acontecera! E, se não vivi a dor dos 23 anos sem títulos, ao menos pude sentir o gostinho de um gol choradíssimo – quase exatamente como o fora o gol de Basílio na Ponte Preta, interrompendo aquela eterna sequência de malogros – quando o peruano Guerrero cabeceou para a rede na final do Mundial de Clubes contra o Chelsea. (E lembrar a troca de passes, do campo de defesa à conclusão em gol, me faz pensar que esse lance foi ainda mais belo que o de 1977: Alessandro → Chicão → Paulinho → Jorge Henrique → Paulinho → Danilo → (rebote) → Guerrero).

Enfim, são muitas emoções e, em que pese a temporada atual de vacas magras – como hão de ser temporadas vindouras, afinal, o jogo é assim –, sou e sempre serei grato a essa instituição que tanto me afeta, como afetou a Paulinho Nogueira, a Ayrton Senna e ao meu (talvez, único) ídolo, Dr. Sócrates (que, milagrosamente, teria vislumbrado morrer num domingo de título do Coringão… o que aconteceu, justa e arrepiantemente, em 4 de dezembro de 2011, quando o time conquistou o penta num horripilante 0–0 com o próprio Palmeiras).

Sim, o futebol é mesmo a “cachaça do torcedor” e, afnal, não sei se a vida vale muito a pena sem uma dose de delírio e, talvez, de embriaguez.

Pode ser, inclusive, a receita para se manter são em tempos tão bicudos.

paulinho-nogueira.jpg
Paulinho Nogueira: cantando a dor e a alegria de ser corintiano.

4 comentários

  1. Eu pensava que só eu fosse estranho,eu consegui ser Corinthiano na adolescência e Palmeirense depois dos trinta (muito em função do goleiro Marcos,diga-se),para hoje não ser nem uma coisa nem outra.

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  2. Eu tenho um vizinho Palmeirense que passou a ter simpatia pelo Corinthians depois que teve uma filha que torce pelo timão,eu acho que o amor filial fala mais alto.Deixe a intolerância e a violência para os bandidos travestidos de torcedores.

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    1. Exatamente, Ademar. Torcer deveria ser uma coisa saudável e menos envolta em fanatismos. Ontem o Mengão ganhou a Libertadores e preciso dizer: achei lido.
      Grato pelo comentário.

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