324. Euterpe: “Saravá”

Na savana africana o povo gritava “saravá”
No engenhho de cana o povo gritava “saravá”
No terreiro de umbanda o povo gritava “saravá”
Em Copacabana o povo gritava “saravá”


Conheci o som da cantora Euterpe – que já se apresentou simplesmente como Andressa, depois adotando o nome da deusa grega da música, que nomeia também o gênero do açaizeiro – no final de 2013, ouvindo a Rádio UOL.

Mais precisamente, conheci seu álbum de estreia, que tratou de apresentar essa nortista nascida em Boa Vista para o resto do Brasil. Batida brasileira (2009) faz jus ao seu nome: ali, há uma enorme diversidade de ritmos, dos mais regionais aos mais difundidos (incluindo o reggae e o samba, além de alguma latinidade), que, combinados ou não, perfazem um conjunto coerente, em sua diversidade, com o que se entende por batida brasileira. Ao mesmo tempo, o disco pode ser entendido não como uma busca pela tal batida, mas como homenagem a ela – como, por exemplo, no tributo ao Rei do Ritmo, em “Pandeiro de Jackson”.

O álbum tem também africanidades de sobra, como na faixa de abertura, “Capoeira”, e em “Saravá”, nossa canção de hoje, composta por Euterpe e Eliakin Rufino. Esta é uma canção simples, composta por poucos versos, que mostram o poder de síntese da saudação/invocação “saravá”.

Lembro que, ao estudar a origem da palavra, percebi que o assunto é controverso, pois não é possível estabelecer inequivocamente sua etimologia. O Houaiss, por exemplo, considera “saravá” uma corruptela de “sarvá”, a forma como alguns negros escravizados comunicavam a necessidade de resgatar um companheiro apanhado. No fim das contas, a palavra virou uma forma comum de saudação nos terreiros das religiões de matriz afro; é o namastê brasileiro!

Quanto à canção, trata-se de uma faixa com bom apelo radiofônico, embora jamais será ouvida nalguma emissora de enorme difusão. O ritmo, influenciado pelo reggae e com um toque latino, é contagiante e facilita que Euterpe exiba seu timbre gostoso. Sim, a cantora tem uma voz linda. A curiosidade fica por conta das guitarras: elas são de ninguém menos que o excelente Chimbinha, da Calypso.

EnfimBatida brasileira é um disco simpático e guarda, nele, boas pérolas oriundas de uma região cuja produção cancional ainda é pouquíssimo conhecida dos demais brasileiros. Aqui no blog, quase não falamos de demais artistas do Norte, e é um prazer trazer o nome de Euterpe – que merecia ganhar o Brasil pra valer – para se juntar aos posts sobre as paraenses Leila Pinheiro e Fafá de Belém (respecrtivamente, aqui e aqui). Quem sabe conseguimos trazer mais alguém das próximidades da combalida floresta amazônica para cá.

euterpe.jpg
Euterpe: direto de Roraima, coligindo ritmos para ressaltar a musicalidade brasileira.

Ainda antes de gravar Batida brasileira, a cantora divulgou uma outra versão para “Saravá”, mais “raiz” e com uma pegada ainda mais influenciada pelo reggae, ao mesmo tempo, conduzida por uma competente batucada:

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