325. Baiano & Os Novos Caetanos: “Vô Batê Pá Tu”

Vô batê pá tú, batê pá tú
Pá tú batê
Pá amanhã a pá não me dizer
Que eu não bati pá tú
Pá tú pode batê


Logo que ameaçava deixar a infância e rumar à adolescência, quando já detinha algum conhecimento musical, pensava a canção popular brasileira como um todo coeso e harmonioso. Tudo era continuidade, nada era ruptura. O conflito era inimaginável. Os artistas do Sul se comunicavam com os do Sudeste e, ali, a turma do Rio convivia muito bem com mineiros e paulistas. Todos eles estariam irmanados, por sua vez, com o pessoal “lá de cima”: Norte e Nordeste formavam um todo monolítico.

Não sem certo constrangimento, tenho que admitir: em minha cabeça, essa visão ingênua, e de baixíssima resolução, perdurou bastante. Demorei-me muito, mas muito mesmo, para compreender que o povo sulista, geralmente tomado como um capítulo à parte da linha evolutiva da MPB, quase não mantinha elos com o Clube da Esquina, que não tinha muito a ver com o Tropicalismo, que concorria com o Pessoal do Ceará, etc.

Mas não seria preciso um grande trabalho intelectual para se aperceber dessas tensões; o que explica minha ignorância, quando às soluções de continuidade, talvez seja mais a preguiça do que a burrice, ou mesmo uma tendência às utopias, esses espaços-tempos em que tudo é co-laboração, trabalhar junto, para uma mesma finalidade. Na obra de Belchior, por exemplo, as rusgas entre Ceará e Bahia saltam aos ouvidos. Se para Caetano “o sol é tão bonito…”, o velho Bel replicava sem nem esconder o nome daquele que buscava refutar: “Veloso, o sol não é tão bonito pra quem vem do Norte e vai viver na rua”.

E é interessante observar esses embates – especificamente esse entre cearenses e baianos – ocorrendo num universo para além do mundo estritamente cancional. Pois Chico Anysio, nos anos 1970, em seu Chico City, entrou literalmente na dança, propondo o trio Baiano & Os Novos Caetanos. Junto de Arnaud Rodrigues e Renato Piau, o homem dos mil personagens propôs uma sátira – obviamente, aos tropicalistas Caetano e a seus correligionários, os Novos Baianos – que não era apenas engraçadíssima, mas também inteligente e, afinal, competente em termos musicais. No conjunto satírico, Chico encarnava o Baiano e Arnaud, Paulinho Boca de Profeta – misturando Paulinho Boca de Cantor com Odair Cabeça de Poeta.

Tanto que o material humorístico acabou adquirindo substância suficiente para preencher alguns LPs com canções que, hoje, são verdadeiros clássicos setentistas.

O primeiro álbum que coligiu canções do trio, Baiano e Os Novos Caetanos vol. 1 (1974) abria com uma dessas obras, “Vô Batê Pá Tu”, que sintetiza muitas das características presentes nas outras canções que Chico e companhia apresentariam nesse e em demais álbuns. Estão ali o apelo regionalista, a gozação (provavelmente, inspirada na sonoridade dos versos de “Besta É Tu”, dos Novos Baianos, divulgada dois anos antes, em Acabou chorare) e a tomada de um tema, quem diria, sério: a velha prática da dedoduração ou, mais formalmente, a delação, entrega, caguetagem… nos porões da ditadura. Tema, por sinal, relevantíssimo naquele contexto de vigência do AI-5 – e que continua nos noticiários, meio século depois.

Composta por Arnaud com Orlandivo, “Vô Batê Pá Tu” é introduzida por algumas palavras do personagem Lingote, abrindo para a divertida sonoridade do “vou batê pá tu” (algo mais ou menos equivalente a falar privada ou anonimamente… diríamos, hoje, “em off“), seguindo-se os versos sobre a tal conversa informal: “O caso é esse / Dizem que falam que não sei o quê / Tá pá pintá ou tá pá acontecer / É papo de altas transações / Deduração, um cara louco / Que dançou com tudo / Entregação com dedo de veludo / Com quem não tenho grandes ligações”.

“Vô Batê Pá Tu” é só o começo de Baiano e os Novos Caetanos vol. 1, que traz outras zoações bacanas, boa elaboração instrumental, diversidade rítmica (ali tem soul, baião, xote, samba canção, violas caipiras – essas, tinindo em “Selva De Feras”), ao menos duas canções lindíssimas (“Folia De Reis” e “Tributo Ao Regional”) e, surpreendentemente, um final épico (ou, ao menos, tão grandiloquente quanto possível a um trio humorístico), “Dendalei”.

Desbunde dos bons… e pensar que surgiu de uma piada! E tem gente que, tentando fazer música seriamente, não chega nem a triscar a profundidade dos Baianos & Os Novos Caetanos.

Aproveito para registrar: Chico Anysio é eterno.

baiano-e-os-novos-caetanos.jpg
Arnaud e Chico: com Baiano & Os Novos Caetanos, fazendo da tensão Ceará-Bahia um manancial de risadas e boas canções.

O DJ Zé Pedro, trabalhando em parceria com Daniela Mercury, preparou um remix drum n’ bass sensacional com “Vô Batê Pá Tu”, em Carnaval eletrônico (2004), inspirado no Toque de Angola ao berimbau:

Em Quero dizer a que vim (2006), Zé Pedro reeditou a base desse remix, utilizando a faixa original de Baiano & Os Novos Caetanos vol. 1. Confira:

O Clube do Balanço também regravou “Vô Batê Pá Tu”, em Samba incrementado (2004). Delícia de versão! Ouça:

No ano seguinte, o próprio compositor Orlandivo reapareceria com um registro meio drum n’ bass para sua canção, em Sambaflex. Repare no tributo ao Lingote! Ouça:

Leo Pinheiro, em Leo Pinheiro canta Arnaud Rodrigues (2013), rearranja “Vô Batê Pá Tu” numa atmosfera bluesy, numa inusitada versão acústica:

A banda Sequelândia também propôs um arranjo diferente, cheio de balanço sambarock e citações a “Voodoo Child” de Jimi Hendrix (!):

Lugah e a Batida do Imbalaê, por sua vez, leva “Vô Batê Pá Tu” para uma jamaica brega e meio latina, citando a famosíssima “Tequila” do The Champs:

A curiosidade – como se todas essas versões já não fossem elas mesmas pra lá de curiosas! – fica por conta da versão da cantora sueca Sylvia Vrethammar, em Somebody loves you (1976). Antenadíssima essa Sylvia! Escute:

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