326. Dick Farney: “Marina”

Marina, morena
Marina, você se pintou
Marina, você faça tudo
Mas faça um favor
Não pinte esse rosto que eu gosto
Que eu gosto e que é só meu
Marina, você já é bonita
Com o que deus lhe deu


Acho que fui apresentado ao repertório de Dick Farney quando tinha por volta de 11 anos. Naquela época, a televisão começou a transmitir o comercial de uma famosa marca de protetores solares, protagonizado por dois garotinhos (que não deviam ser muito mais novos que eu). À praia, os dois haviam se apaixonado pela mesma “namoradinha”, que acabava não dando bola pra nenhum deles. Na verdade, o informe publicitário reeditava o enredo de “Tereza Da Praia” – canção de Tom Jobim e Billy Blanco para Farney e Lúcio Alves, famosa nos anos 1950 – e trazia os piás cantando uma divertida paródia:

Mais de uma década depois, em minhas andanças por sebos e feiras de artigos usados, acabei adquirindo duas coletâneas de antiguidades: uma, apenas de bossa-nova (o respectivo volume da CDteca Folha); a outra, reunindo sucessos dos anos 1950 (de uma série de quatro volumes organizada pela Droga Raia, e distribuída como brinde aos clientes da farmácia).

coletaneas-antiguidades

Havia peças interpretadas por Dick Farney nos dois apanhados de canções, que curti mais ou menos à mesma época. Na coletânea de bossa, lá estava “Tereza Da Praia”, a versão clássica, que me reconectou à infância. E isso abriu caminho para que eu me enamorasse por outra interpretação do cantor carioca, a de “Marina”, que abria a coletânea “farmacêutica”.

“Marina” é uma das mais conhecidas obras de Dorival Caymmi e, para além de um samba-canção, talvez possa ser considerada como uma proto-bossa. A canção é um clássico indiscutível e recebeu incontáveis gravações. As primeiras foram do próprio autor, a de Farney, a de Nelson Gonçalves e a de Francisco Alves, todas de 1947.

O sujeito enunciador da obra se dirige à companheira, a tal Marina, recriminando que a moça tenha ousado sair maquiada: “Marina, você faça tudo / Mas faça um favor / Não pinte esse rosto que eu gosto / Que eu gosto e que é só meu / Marina, você já é bonita / Com o que Deus lhe deu”. E o personagem se aborrece de verdade, chegando à beira de um chilique, numa passagem que sempre me fez rir: “Me aborreci, me zanguei / Já não posso falar / E quando eu me zango, Marina / Não sei perdoar / Eu já desculpei muita coisa / Você não arranjava outra igual / Desculpe, Marina, morena / Mas eu tô de mal” (e note a aliteração com m, cujo efeito fonossemântico já foi explorado em outro post – acesse aqui).

A canção é simples mas, em tempos do politicamente correto (que não critico, pelo contrário, considero – geralmente – um avanço), faz a gente refletir.

O enunciador, enquanto homem, teria o direito de dar tamanho piti só porque a companheira resolveu passar um pó no rosto e um batom? Qualé a desse moço, que não suporta ser contrariado? Haja machismo, não é mesmo?

Por outro lado, faço também uma leitura que se põe justamente ao lado da voz que canta, e não do lado de Marina. Afinal, se ela já é tão bem dotada de uma beleza natural, por que haveria mesmo de se maquiar? Será que é somente porque as outras moças também o fazem? Por possuir um autoimagem negativa? Apenas por que é um costume?

Minimalista que sou, entre essas duas posições, vou ficar mesmo é do lado do homem – embora também não concorde que o caso seja grave o suficiente para uma histeria tão grande. Acho que já vivemos num mundo de excessos, e Marina que me perdoe, mas qual o motivo de gastar tempo e dinheiro (esses estojinhos-de-qualquer-coisa custam uma fortuna!) para buscar… o que já se tem?

A analogia pode parecer esdrúxula, mas me lembra discursos que estou cansado de ouvir toda vez que almoço com pessoas diferentes:

– Nossa, você não tempera a salada?

– Não, prefiro sem nada, só a salada.

– Poxa, mas nem um fiozinho de azeite? Nem uma gotinha de vinagre?

– Nadica.

E aí vem o julgamento de valor:

– Mas você é fresco mesmo!

Caramba, a pessoa só consegue comer uma folha de alface se tiver um refinadíssimo óleo de oliva por perto… e o enjoado sou eu?

O mesmo se passa com o personagem de “Marina”. Manhas à parte, certo ele por repreender os excessos da moça, ensinando-lhe a viver de forma mais simples, menos determinada pelas convenções sociais, desfilando sua beleza natural pelo mundo.

É lógico que, nos tempos pós-modernos, qualquer um pode vir me acusar de reforçar a dominação masculina pelo corpo feminino, ajudando a reproduzir o patriarcado e colaborando para o silenciamento da vontade das mulheres etc etc etc. Ora, a voz que canta poderia, muito bem, pertencer a outra mulher, num relacionamento lésbico com Marina! E poderia também ser o contrário: Marina ficando “de mal” com seu companheiro por ele passar gel no cabelo (ou coisa parecida), sem necessidade.

Num caso ou no outro, permaneço do lado de quem se propõe a comunicar ao parceiro – e ressalto, novamente, que abomino apenas a irritação exagerada expressa pela voz que canta, ao fazê-lo – a necessidade de uma vida menos dependente das convenções desnecessárias, um agir mais espontâneo, afinal, mais saudável.

Viver não tinha que ser tão complicado, não é mesmo?

dick-farney.jpg
Dick Farney: cantando uma canção simples, em 1947, que daria muito pano pra manga, se escrita hoje. Faz parte da dinâmica da sociedade, afinal.

Há outras versões de Farney cantando “Marina”. Por exemplo, a da coletânea que mencionei no início do post possui um arranjo de cordas e, na sua segunda parte, é cantada em inglês.

Mais conhecido é o registro do cantor, em 1978, reinterpretando “Marina” praticamente como uma bossa jobiniana:

Vale a pena escutar, também, a versão de Caymmi para sua canção, no registro original de 1947:

O próximo registro vale mais pela homenagem: trata-se Nana, Dori e Danilo prestando tributo ao pai, em Para Caymmi 90 anos (2004). Os vocais, na faixa, são de Danilo:

Mas gosto mesmo é da versão de Adriana Calcanhotto, salvo melhor juízo, divulgada apenas nas primeiras coletâneas da cantora gaúcha, sem ter constado em seus álbuns de carreira. Adriana adora o mar – tendo lançado uma trilogia de álbuns com o tema, Maritmo (1998), Maré (2008) e Margem (2019) – e faz todo o sentido que a “Marina”, do autor das canções praieiras, tenha sido incorporada a seu repertório. E repare como, na voz de Adriana, parece verossímil aquela sugestão de um amor lésbico entre a voz que canta e a personagem maquiada:

 

3 comentários

    1. Eu sou meio tradicionalista nessas horas e acho que “Marina” exige um registro mais sóbrio. Mas não tem como negar, os vocais de Gil em sua versão estão incríveis!
      Grato pelo comentário.

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      1. Entrei nesse blog fazendo uma pesquisa sobre a música ” Feira Moderna ” e não tô conseguindo sair dele, parabéns pela dedicação! Sobre o post de ” Marina “, você acabou esquecendo um releitura memorável de Gil no álbum Reace, de 1979. Uma pegada mais funkeada daquele que considero o primeiro grande disco dele. Obrigado pelo blog!!

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