327. Tribo de Jah: “Babilônia Em Chamas”

Babilônia em chamas
Chamas da destruição
Os dias são esses (esses)
Dias de hoje (hoje)
O mundo é confuso
Mundo imundo, eh


Em meu primeiro show de reggae, tinha 15 anos, e lembro de ter ficado simplesmente imóvel enquanto a primeira banda tocou. Não estava conseguindo processar aquilo, pois já me habituara à barulheira e aos chacoalhões do rock. Mas o corpo pedia movimento e, na segunda e derradeira apresentação daquela noite, meus joelhos pareciam molas: estava completamente fisgado. Vergonha maior foi ser assim flagrado, no frio noturno e fluvial do Sesc São Carlos, pelos meus pais – que, passando por perto àquela hora, resolveram me procurar para oferecer uma carona, aproveitando que a entrada era franca.

Assim, embora nunca pudesse ser considerado um enorme fã do gênero, venho nutrindo crescente simpatia por ele, desde aquela ocasião. Tanto que, há exatos dez anos, o disquinho que mais estava apreciando era justamente de um conjunto reggueiro – como contei aqui.

A verdade é que, gostando de música em geral, e andando com quem está na mesma sintonia, é inevitável não vir a se influenciar pela cultura popularizada por Bob Marley, Peter Tosh e companhia. Você aprende algo sobre Jah – e o desmistifica, literalmente, passando a compreendê-lo como, simplesmente… Deus! –, entende o que é dubdancehallraggaska e, principalmente, vem a conviver com um palavreado novo e descolado.

Acredito, inclusive, que um conjunto brasileiro tenha sido fundamental para que uma palavra, em especial, viesse a integrar o vocabulário de rastas e, principalmente, de seus simpatizantes: a Tribo de Jah.

Formada no Maranhão durante os anos 1990, a banda vem resistindo bravamente às vicissitudes do mercado, permanecendo fiel a seu som, que é um reggae raiz dos bons – sim, ali não tem nada do abominável pop-reggae que ameaçou tomar conta das rádios há alguns anos.

E a palavra em questão é “babilônia”. Antes um nome próprio, restrito a designar a capital histórica de uma antiga civilização que floresceu na Mesopotâmia, com o tempo foi se tornando um substantivo comum. E, reitero, minha hipótese é que, por conta da insistência do vocalista da Tribo, Fauzi Beydoun, em compor canções que mencionam a palavra, a mesma acabou ganhando novas conotações. Com efeito, no repertório da banda temos a “Babilônia Em Chamas”, além de “Ruínas Da Babilônia”, “Babylon System”, “Amor Perdido Na Babilônia”, “Babilônia Brasileira”, “The Babylon Inside”, “Guerra Na Babilônia” e “Orai, Vigiai, A Babilônia Vai Cair” – e devo ter esquecido mais alguma.

Isso se explica por conta da própria cultura rasta, que possui fundamentos bíblicos e toma a queda da Babilônia como um evento apocalíptico. Ainda na Antiguidade, ao que parece, a palavra já servia como metáfora para designar qualquer civilização viciada – dado que a Babilônia original teria sido uma metrópole com prédios suntuosos, cuja riqueza material encobria uma enorme miséria espiritual. Nessa grande “Babilônia” em que o mundo capitalista se converteu, só mesmo o fogo purificador dos céus daria conta de expurgar o mal.

Na primeira das canções que mencionei, é exatamente disso que se trata: “O mundo é confuso / Mundo imundo / Todos têm suas verdades / Todos têm suas mentiras / Os sábios da iniquidade / Não temem as chamas da ira / Da ira de Jah (oh Jah)”.

Mas, no fim das contas, babilônia acabou virando sinônimo de muita coisa. E, na turma de amigos da universidade, sempre ri da forma natural como se usava a palavra para designar qualquer bagunça ou grande aglomerado de pessoas:

– Você colou lá? Tava a maior babilônia!

Já o chapa Demorô, citando explicitamente a Tribo de Jah, passou a se referir a tais montoeiras de gente, quando em seu grau máximo de entropia, usando a canção-tema de hoje:

– Rapaz, aquilo ali tava a própria babilônia em chamas!

E, no fim das contas, só isso já virou motivo para eu me tornar fã da Tribo de Jah.

Infelizmente, na única oportunidade que tive de assistir ao conjunto ao vivo, a-regguei. Quem sabe consiga trombá-los em algum canto desse mundo babilônico.

tribo-de-jah.jpg
Tribo de Jah: fieis à linguagem do reggae, falando do mundo como uma babilônia com os dias contados.

A Trbio de Jah registrou muitas versões para “Babilônia Em Chamas”. A que abre o post foi apresentada em Essencial (2001), com releituras em estúdio para canções antigas.

A versão original da canção abre seu primeiro álbum, Roots reggae (1994), com um andamento bem mais cadenciado que o de versões vindouras:

Essa versão recebe uma releitura fidelíssima em 2000 anos ao vivo (1999), que não consegui encontrar como vídeo à parte, no YouTube, para compartilhar.

Mais vale escutarmos a versão de 15 anos ao vivo (2002). Ou melhor, assistirmos à performance ao vivo, cheia e pirotecnias na parte do “Fire in the Babylon town!”:

Um novo registro de estúdio para a canção aparece em Refazendo (2008). Talvez seja o arranjo definitivo, classudo, com metais e tudo:

Finalmente, há mais uma versão ao vivo, no DVD Live in Amazon (2009), que reproduz o arranjo de Refazendo:

3 comentários

  1. Não conhecia a Tribo de Jah.Eu tinha uma vizinha Testemunha de Jeová que classificava tudo que ela não gostava de Babilônia,a igreja católica,o mundo moderno,o capitalismo…

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