328. Bebel Gilberto: “Mais Feliz”

O nosso amor não vai parar de rolar
De fugir e seguir como um rio
Como uma pedra que divide o rio
Me diga coisas bonitas


Fui assistir a Cazuza – o tempo não pára (2004, Sandra Werneck e Walter Carvalho) logo que o longa entrou na programação das salas de cinema. Foi um programa um tanto estranho: éramos eu e um grupo de seis ou sete garotas de minha turma da graduação. Ou seja, foi a noite das gurias, e eu estava de enxerido ali (essa é a primeira hipótese; a segunda é que, dada minha natureza pacata, elas me viam como mulher também. Tanto faz).

No filme, a atuação de Daniel de Oliveria chamava realmente muito a atenção, principalmente por sua caracterização do Cazuza já soropositivo. Mas quem roubava a cena, pelo menos para mim, era Leandra Leal, no papel de Bebel Gilberto. Aliás, bem que a personagem poderia ter um espaço maior na película, digno do espaço que ocupou na própria vida de Cazuza.

Uma das cenas que mais me tocou foi aquela em que Bebel e Cazuza estão compondo “Preciso Dizer Que Te Amo”, a mais famosa parceria de ambos, escrita também com o baixista Dé Palmeira.

O engraçado é que, então, eu já tinha escutado uma outra canção composta pelo trio, sem ao menos desconfiar serem eles os autores. Foi em 2009, cinco anos depois, quando adquiri a coletânea Perfil (2001) de Adriana Calcanhotto, que fui perceber que “Mais Feliz” (relativamente bem tocada nas FMs) era uma obra da mesma leva.

Na verdade, a canção me parecia tão pouco cazuziana que, ao ver os créditos de sua autoria no encarte do CD da Adriana, julguei estar diante de algum tipo de erro. Mas, com a antologia Preciso dizer que te amo: todas as letras do poeta (São Paulo: Globo, 2001) em mãos, e lendo o poema sem a interferência da melodia, essa impressão se desfaz.

Consigo identificar dois elementos muito presentes em outras letras do ex-cantor do Barão Vermelho: o inevitável imperativo, ainda que meigo (“Me diga coisas bonitas”) e certa urgência de conjunção, aliada à contrução de um compromisso irrevogável (“Fura o dedo, faz um pacto comigo / Por um segundo meu no teu / Por um segundo mais feliz”).

Bebel lançou a canção em seu epônimo LP de estreia (melhor seria considerá-lo como um EP, por alinhar apenas cinco faixas), em 1986, vindo a regravá-la em estúdio em Tanto tempo (2000) – e é essa a minimalista versão que abre o post, com o próprio Dé Palmeira no violão e no baixo, além do produtor Suba nas programações.

Vale a pena reproduzir os depoimentos dos compositores remascentes da canção, conforme o mencionado livro sobre as letras de Cazuza:

“Foi a nossa primeira parceria. Dei a melodia para Cazuza, invertendo o processo de criação da parceria já que, em geral, Cazuza entregava a letra pronta para o parceiro. Eu estava preocupado. Queria que a pessoa que botasse letra respeitasse totalmente a melodia. Estava com muito medo de alguém desvirtuá-la e disse isso ao Cazuza, que foi craque. Nesta música, em especial, ele mostrou que era um puta letrista mesmo, que estava à altura de Chico Buarque, Aldir Blanc… dos mestres brasileiros. Eu fiquei impressionado, porque ele não mudou uma vírgula. Bebel tem um ouvido absurdo. Ela lapidava as melodias que eu fazia. Foram poucas as parcerias minhas com a Bebel e com Cazuza, mas todas foram boas. Bebel é uma grande melodista e Cazuza era o melhor letrista da geração dele.”

Bebel Gilberto

Cazuza criou a letra de “Mais Feliz” inspirado num pacto que fez com uma pessoa que namorava na época. Eles combinaram de furar o dedo. E até assinaram um papel. Daí os últimos versos da letra. Cazuza vivia um lindo caso de amor. E eu tinha o meu namorado, o Paulinho, meu primeiro namorado. A gente ia sempre para a Fazenda Inglesa, em Petrópolis. Um dia, o Cazuza acordou a gente com um papel dizendo que era o documento de um pacto de sangue que ele tinha feito com a pessoa que amava na época. Um pacto de amor que os dois assinaram. Eu fiquei impressionadíssima com essa história. Eu me lembro até hoje dela. Achei aquilo uma loucura: os dois cortaram o dedo, furaram o dedo… E os dois acordaram a gente com esse papel assinado por eles. A gente atravessava o rio da Fazenda, fazia a travessia… A letra descreve tudo, todo aquele amor, a pedra que divide o rio, as coisas bonitas…

bebel-gilberto.jpg
Bebel: cantando o amor e os pactos de Cazuza.

A além da original de 1986 (que não consegui encontrar numa versão aproveitável para disponibilizá-la no post) e da de Tanto tempo, da filha e João Gilberto releu a canção ao vivo em Bebel Gilberto in Rio (2013). O arranjo é praticamente o mesmo do registro de 2000:

Há também um remix da canção, em Tanto tempo remixes (2001), com o dedo do produtor Kassin. Confira a revisão downtempo de “Mais Feliz”:

A versão de Adriana Calcanhotto, de que falei no decorrer do post, consta em Marítmo (1998). O registro conta com, entre outros músicos, Liminha no baixo, no violão e nas programações; e Sacha Amback nos teclados. Ganhou um videoclipe muito bonito:

A própria Adriana reapresentaria a canção em Público (2000), que colige diversos números de suas apresentações. Ali, a obra ressurge num arranjo voz-e-violão. É inacreditável o que essas cantoras fazem com uma quantidade tão mínima de recursos! Ouça:

A curiosidade fica por conta da versão da espahola Carmen Ros, em Ficções e verdades (2018), numa versão meio bossa-novista, tingida por movimentos do tango, em passagens mais dramáticas. Vale a escuta:

3 comentários

  1. Me lembro bem do lançamento da Bebel Gilberto com essa música,foi bem no ano que descobri a Rádio Cultura (Brasil),a emissora que só tocava MPB resolveu revelar a filha de João Gilberto.

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