329. Wilson Aragão: “Guerra De Facão”

A dô do cocho é num tê ração pro gado
A dô do gado é num achá capim no pasto
A dô do pasto é num vê chuva tanto tempo
A dô do tempo é corre junto da morte


Quando conheci “Guerra De Facão”, de Wilson Aragão, não liguei o nome à pessoa: tratava-se do compositor de uma das minhas canções favoritas de Raul Seixas, “Capim-Guiné”. Na verdade, o baiano nascido em Piritiba havia criado sozinho boa parte da canção, sendo que Raulzito apenas fez alguns novos arranjos de palavras – incluindo, no primeiro verso, a própria Piritiba do dono da obra.

Aragão é um homem nordestino com uma trajetória belíssima: nascido em família de camponeses, apaixonou-se desde cedo por música, ousou ouvir gêneros e cantadores que extrapolavam o universo evangélico em que foi criado, desbravou o Brasil (chegando a morar no Sudeste), se diplomou e, hoje, pode se orgulhar por ter composto algumas pérolas de nosso cancioneiro – embora penso que jamais tenha recebido o reconhecimento merecido.

Já em seu álbum de estreia, Capim-guiné (uma guerra de facão) (1986), reapresentou a parceria com Raul e desfilou uma porção de canções que rendem tributo ao melhor das tradições populares do Nordeste: lá tem xote, arrasta-pé, repente e até um pop infantil (a bacana “Tanajura” – pense num Balão Mágico cabra-da-peste!), tudo isso embalado numa sonoridade oitentista que, surpreendentemente, não compromete o resultado final.

“Guerra De Facão” é justamente a faixa e abertura, se destacando pela letra que encadeia uma sucessão de objetos ligados pelo tema da dor (ou melhor, da “dô”). Assim, se “A dô do cocho é num tê ração pro gado”, então “A dô do gado é num achá capim no pasto”, e assim por diante. Poderia ter sido composta numa roda de improviso, ou desafio: o elemento mencionado ao final de um verso deve ser incorporado, pelo desafiante, no início de seu verso, e assim se revezam os poetas-cantores.

Como adoro as formas gráficas e diagramáticas, vale conhecer o encadeamento de elementos da canção (e aqui, para fins didáticos, vou contrariar o que faz Wilson em seu disco, que oficializa expressões de diversos dialetos do sertão, em franco confronto com o português dito oficial – vide o próprio título do repente “Matuto No Fitibó”, que encerra o álbum):

estrofe

sequência

cocho → gado → pasto → tempo → morte → nordestino

jegue → chifre → gente → outros → besta → filho

sol → noite → seresteiro → polícia → mundo inteiro → gringo

Chamo a atenção para dois conjuntos de versos, cantados em interrupções do jogo de desafio.

Num primeiro, há uma defesa intransigente da canção popular brasileira – e popular de verdade, isto é, feita por quem representa verdadeiramente o povo, como o próprio Wilson, um assentado da reforma agrária: “Tá chegano o fim das época, vai pegá fogo no mundo / E pior que os vagabundo toca música estrangeira / Em vez de aproveitá o que é da gente do Nordeste / Vou chamá de mintiroso quem dizê que é cabra da peste!”.

E, mais ao fim, uma apologia ao desarmamento (e que bem que poderia sensibilizar os ditos “cidadãos-de-bem”, não é mesmo?): “Tocá fogo em toda tenda que é de fabricá canhão / Morre muito menas gente se a guerra fô de facão”.

Curiosamente, entre as estrofes, Wilson e o coro feminino fazem um canto de aboio: “Ê, boi, ê boiada, ê boi!”. Impressionante! Parece que a canção foi escrita hoje e dirigida ao “gado” que nos rodeia…

Humor à parte, Campim-guiné é um disco bonito e que parece resistir ao tempo.

Em tempo: não deixe de escutar, aliás, a lindíssima work-song “Sertões E Sertões”, que poderia ser a contraparte nordestina de “Ponta De Areia”.

wilson-aragao.jpg
Wilson Aragão: trabalhador da canção popular, para muito além da parceria com Raulzito.

“Guerra De Facão” se espalhou para o Brasil quando foi gravada por Falcão, em A um passo da MPB (1997), com um dueto com Zé Ramalho. Arretada essa ponte Bahia-Ceará-Paraíba! Emulando o jogo do desafio, com um cantador respondendo ao outro, trata-se da versão definitiva (e infinitamente mais bonita que a original) da canção. Wilson Aragão deve ter ficado contente com o resultado. Confira:

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