331. Tiê: “Isqueiro Azul”

Travei
Parei
Parou meu coração
Te disse sim, te disse não
Depois neguei de um jeito frio
O amor que te prometi


Iniciei meu primeiro ano de vida nova, em Santo André, relativamente bem instalado. Nada a reclamar do espaço nem da vida em apartamento (pensando bem, tudo a reclamar, mas o drama foi bem menor do que imaginei que seria).

No entanto, demorei a dar uma cara minha ao espaço que começara a habitar. Um dos cômodos, inclusive, permaneceu incomodamente vazio por meses, aguardando a reunião de algumas economias para transformá-lo num local de trabalho – este onde, diariamente, escrevo para o 365 Canções Brasileiras.

Um tanto inseguro de sair sozinho comprando o mobiliário (a rigor, nada de extravagante: cama de solteiro para hóspedes, estante, escrivaninha e cadeira), aguardei a passagem de Cristiane por essas bandas, pois poderia fazer as compras guiado por uma pessoa de bom gosto e que, de quebra, se divertiria bem mais que eu nessa tarefa.

Então saímos às lojas e resolvemos tudo de forma relativamente célere. Em apenas um dia, havíamos comprado tudo – e, em apenas um dia, estava novamente pobre… doce ilusão a de ter algum dinheiro guardado para comprar móveis! – e o escritório finalmente, de plano, se tornava realidade.

O curioso é que, por duas lojas pelas quais passamos, uma canção parecia nos acompanhar. Não prestei muita atenção, pois achei a melodia óbvia e piegas. Cris, com quem nunca me compatibilizei muito em termos musicais, adorou e saiu à caça da obra. E, nisso, acabou gostando de outras canções da cantora, de quem tínhamos apenas ouvido falar, Tiê.

Resisti à sugestão de minha companheira mas, anos depois, enfim escutei algo da artista paulista. No fim das contas, passei até a gostar da canção que nos perseguiu, “Isqueiro Azul”, e do álbum que a abriga, Esmeraldas (2015).

O disco é simpático e traz o timbre bonito de Tiê emoldurado por pop-rocks e baladas com algum sabor folkcom destaque para a participação do eterno talking head David Byrne em “All Around You”.

Quanto a “Isqueiro Azul”, é uma canção sobre fim de relacionamentos, e ponto. Há muita lamentação na letra, como nos versos “Me vi chegar no fim do mundo / Me vi sofrer na solidão / De um jeito que não suportei”. Poderia ser, assim, uma obra ancorada nos clichês mais previsíveis.

De toda forma, há muita coisa ali que me chama a atenção.

Primeiramente, temos a metonimização de um objeto banal (o isqueiro azul), como resquício material da existência (e da ausência) da pessoa (des)amada – e procedimento semelhante aparece na mais célebre parceria de Chico Buarque com Francis Hime, “Trocando Em Miúdos”.

Além disso, gosto da forma como Tiê contrapõe, com verbos simples de duas sílabas, os aspectos positivos e negativos da relação que finda: de um lado, o valeu; de outro, parei/travei. Repare na sonoridade suave das três palavras, terminadas em ditongos decrescentes, como que condensando, foneticamente, a resignação associada ao término da relação, mais a inevitável decepção dela decorrente.

Por fim, tem o jogo melódico-harmônico. A ambiguidade acima mencionada também se faz presente ali: se, por um lado, o tom é um confortável e literalmente solar Sol Maior, por outro, o destaque recai sobre o pesado e disfórico acorde de Mi Menor (sintomaticamente, aparecendo pela primeira vez no verso “Parou meu coração”). A melodia segue, quase sempre, ao reboque dessas sístoles e diástoles, eventualmente atingindo regiões mais altas da tessitura com prolongamentos vocais pronunciadíssimos. Assim, a tematização ensaiada com o parei/travei acaba cedendo à inevitável passionalização, ressaltando os aspectos disjuntivos da narrativa, só para retornar à constituição de pequenos temas melódicos até o fim da canção.

O veredito, dessa análise tentativa e elementar, é que “Isqueiro Azul” (composta por Tiê e Rita Wainer) consegue superar a atração irresistível de ser uma banal canção de fossa. Tive que dar o braço a torcer à Cris!

E não deixe de conferir seu belo videoclipe.

tie.jpg
Tiê: empregando um respeitável repertório de recursos semióticos para cantar um tema pisado e repisado.

No show Esmeraldas ao vivo (2014), a cantora divulgou ao público as canções do álbum que abriga “Isqueiro Azul”. Dessa, ficou registrada uma bonita versão acústica:

Em 2016, Tiê reapresentou a canção, arranjada agora como um reggae. A releitura tem a participação de Alexandre Carlo, do Natiruts (conjunto que já foi abordado aqui, num post com baixíssima visitação), e vale a escuta:

2 comentários

    1. Muito obrigado pelo elogio! O reconhecimento pelo esforço do (pretenso) escritor é um enorme incentivo para dar continuidade a essa empreitada tão árdua, ainda mais a essa altura do campeonato.
      Quanto à canção, é mesmo bonita, e o restante de seu álbum também merece atenção.

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