332. Ana Rita Simonka: “Meditações”

Um está buscando quem
Outro em meditação
Um que nunca disse não
Diz agora pro seu bem


Já contei aqui como vim a conhecer Ana Rita Simonka e sua obra, num post publicado logo no início do blog.

Aqui, tenho a oportunidade compartilhar outra canção da cantora, compositora, instrumentista, dançarina e terapeuta. Trata-se de “Meditações”, que encerra Mantra 1 (2002), álbum dedicado a cantos devocionais que, em alguns casos, assumem a forma de canções dirigidas à introspecção.

O tema de hoje, ao lado da suíte em duas partes “Pessoa Transcendente”, é uma das três faixas do disco que apresentam ao público a faceta propriamente cancional de Mantra 1. Afinal, as demais obras do disco apenas trazem o belo canto de Ana Rita embalando a magia de mantras clássicos da tradição do bhakti yoga (o caminho para a reverência aos deuses hindus), como os chamamentos ao guru interior (“Guru Mantra”, “Sat Guru Omkara”) e as louvações a Ganesh (“Jay Ganesh”) e a Krishna (“Govinda Gopala”).

“Meditações” se vale da ambiguidade implicada no termo meditar – estar em estado propriamente meditativo ou, apenas, refletir detidamente sobre algum tema –, propondo quatro quadras de redondilhas maiores, que encerram pequenas provocações ao ouvinte.

A primeira, por exemplo, surge na forma de uma charada (vide a epígrafe do post), enquanto as duas do meio exploram a dialética oriental, com foco ou nas oposições conciliadas (“Cada som está também / Dentro de cada canção / O universo em cada grão / Dança como lhe convém”), ou nas contradições propriamente ditas (“Um está em confusão / Outro tenta estar mais zen / Um que nunca disse amém / Pode ter bom coração”).

O aforismo da quarta e última quadra lembra um aspecto que aparece repetidas vezes na literatura védica, a saber, o caráter ilusório dos fenômenos que nos rodeiam, obscurecidos por maya: “Tudo é transformação / Na verdade tudo tem / Sempre um quê de ilusão / Que se explica mais além”.

Aliás, para além do conteúdo metafísico do poema cantado, simpatizo bastante com o esquema de rimas adotado, ABBA, menos comum na canção popular.

Encerrando a obra, um longo improviso instrumental conjuga os violões de Ana Rita com os solos de guitarra de Johny Murata, enquanto a sítara de Krucis Kahn – o grande atrativo instrumental da faixa – sustenta o modalismo em que se inscreve a canção.

Para deixar-se ir fundo, mais e mais…

ana-rita-simonka(2)
Ana Rita Simonka: música para o mergulho introspectivo.

2 comentários

    1. Precisa cada vez mais! Torço para que a introspecção, auxiliada por esse tipo de produção cancional, nos ajude a enxergar a realidade de forma mais clara.
      Grato pelo comentário.

      Curtir

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