334. A Bolha: “Não Pare Na Pista”

Não pare na pista
É muito cedo pra você se acostumar
Amor, não desista
Se você para, o carro pode te pegar
Bibi, fonfon, pepê
Se você para, o carro pode te pegar


Andava matutando sobre os diversos artistas que construíram parcerias com Cazuza: Frejat e Dé Palmeira (e não só no Barão Vermelho), Leoni, Ezequiel Neves, Lobão, George Israel, Rogério Meanda, Nilo Romero, João Rebouças, Orlando Morais, João Donato, Bebel Gilberto, Supla, e até Cartola (numa parceria, de certa forma, involuntária, quanto ao mangueirense). Algumas dessas parcerias já renderam canções aqui no blog, essa, essa e essa.

É difícil observar um padrão, entre tantos parceiros: Cazuza, do contexto de onde veio (filho de João Araújo, diretor artístico da Phillips), interagiu com muita gente, desde nomes já consagrados da MPB, colegas de geração e mesmo uma turma da pesada, entre sessentistas e setentistas.

Quanto a estes, destaco dois nomes, por terem participado de duas composições que, além de enormes sucessos, estão certamente entre as dez melhores canções do Caju: Renato Ladeira, de “Faz Parte Do Meu Show”; e Arnaldo Brandão, de “O Tempo Não Pára”. E o que une esses personagens é o fato de ambos terem participado de um conjunto importante para a canção popular brasileira dos anos 1960-70, e mesmo de depois, embora nem sempre lembrado como deveria: A Bolha.

Não vou narrar toda a história da banda formada no Rio de Janeiro, e que acompanhou gente do quilate de Gal e de Erasmo Carlos. Basta dizer que, entre uma crise de identidade e outra (com um som passeando, em diversos momentos do conjunto, do iê-iê-iê jovem-guardista até o rock progressivo), A Bolha assumiu diferentes formações e formou gente que integraria outros grupos – que se tornariam célebres e perenes, como o Roupa Nova, ou pelos menos uma diversão passageira mas memorável, como o one-hit-wonder Herva Doce.

Das canções que A Bolha gravou nos anos 1970, a que mais gosto é “Não Pare Na Pista”, junto com Raul Seixas (mencionado no post de ontem… mas reitero que cheguei n’ A Bolha, hoje, por meio de Cazuza, e não pelo Maluco Beleza – portanto, estamos novamente vivendo uma coincidência, como tantas que já acometeram o blog nesses trezentos e tantos posts).

A obra apareceu, pela primeira vez, como lado-B do compacto Gîtâ (1974). Parceria de Raulzito com Paulo Coelho, parece trazer uma mensagem à militância nos anos de chumbo, disfarçada como uma divertida exortação automobilística: “Amor, não desista / Se você para, o carro pode te pegar / Bibi, fonfon, pepê / Se você para, o carro pode te pegar”.

Fica certa ambiguidade: a letra faz um chamamento à luta, contra o imobilismo, ou propõe uma saída, se não pela direita, ao menos para o exílio? Pois observe os versos: “Você me xingando / De louco pirado / E o mundo girando e a gente parado / Meu bem, me dê a mão, que eu vou te levar / Sem carro e sem medo / Do guarda multar / Meu bem, me dê a mão, que eu vou te levar / Sem carro e sem medo pra outro lugar”. E talvez haja uma terceira possibilidade: a ironia dirigida a quem, justamente, foge à luta.

Nos anos 2000, A Bolha se reuniu e lançou É só curtir (2006), com releituras de obras pretéritas e faixas inéditas. Chamou-me muito a atenção a psicodélica “Matematéria”, mas não tem jeito: um classicão do Raulzito, cantado numa versão moderna por quem participou da história da canção, é sempre sedutor. Eis, então, a faixa que ilustra o post.

Embora não vá além de diversos clichês do rock (numa linha hard que não chega exatamente a ser hard rock), como efeitos de wah-wah na guitarra e cowbells, a versão renovada de “Não Pare Na Pista” respeita o arranjo original de 1974 e diverte à beça.

a-bolha.jpg
A Bolha, nos anos 1970: apoiando o rock (e mesmo a MPB) numa era efervescente da canção tupiniquim.

A versão original de Raul é obrigatória:

No ao vivo póstumo Se o rádio não toca… (1994), uma versão tosca e pesada da canção é apresentada, conforme uma gravação de 1974:

Existem outras versões ao vivo oficiais, mas todas são tão precárias, em termos de qualidade de gravação, que fiquemos apenas com o registro acima.

No tributo O baú do Raul: uma homenagem a Raul Seixas (2004), os Raimundos apresentam uma versão cheia de peso para “Não Pare Na Pista”. Mas permanece a impressão de que Digão não consegue segurar muito bem a onda e o fôlego que a canção exige. Julgue você:

A curiosidade fica por conta da divertidíssima versão da Palhaça Rubra (que começou sua carreira como “doutora da alegria”), aproveitando os acenos de Raul e Paulo Coelho à música infantil. “Não Pare Na Pista” abre o Almanaque musical da Banda Gigante (2017) e  vale muitíssimo a escuta – até o final! Bora lá:

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