335. Tequila Baby: “Mulher Problema”

Toda vez que eu estou com você
As coisas dão errado.
Seria muito eu pedir pra você
Olhar pra outro lado?


Na passagem de 2012 para 2013, a amiga Aline Tavares deixava São Carlos, após alguns anos de pós-doutoramento, e voltava a sua terra natal, Porto Alegre. Lugar, por sinal, que sempre quis conhecer, mas nunca “desci” além de Santa Catarina.

Em nossa despedida, os amigos trocaram CDs, aficcionados por música que só eles. Recebi de Aline dois discos do pop-rock sulista: Jardim inglês (1998), do ex-TNT Nei Van Soria; e Por onde você andava? (2012), de uma banda que não conhecia, o Tequila Baby.

À época, não estava muito ligado em sons roqueiros, interessando-me bem mais os clássicos sambistas. Então, estava em plena atividade com meu conjunto (artesanal) de samba, com o bom e velho Serjão Trajano. De toda forma, parei para ouvir as novas aquisições musicais e acabei gostando, bem mais do que imaginaria, do álbum do Tequila.

Inclusive, fiquei surpreso ao revisitar o disco, recentemente, e perceber que sabia de cor quase todas as canções, do começo ao fim. E, de fato, algumas faixas me fisgaram de jeito, como a punk “Desilusão” (minha favorita) e “Pânico!” (cujos versos iniciais “Pânico / Nas ruas de Porto Alegre / Nas grandes avenidas de São Paulo / Nas areias do Rio” me remeteram, imediatamente, à “Panic” dos Smiths – “Panic on the streets of London / Panic on the streets of Birmingham / I wonder to myself / Could life ever be sane again?”).

Lembro, especialmente, de como me identificava com “Mulher Problema”, composta pelo vocalista Duda Calvin e pelo guitarrista James Andrew. Antes de tudo, uma breve contextualização: o Tequila Baby sempre esteve associado a um som mais punk, sentindo-se a influência dos Ramones até nas letras, muitas delas tratando simplesmente de… garotas. Não chegam a ser os Velhas Virgens do Sul, mas não ficam muito aquém.

A faixa em questão, nosso tema de hoje, fala de uma presença inevitável, da qual o protagonista da canção vive fugindo: a tal “mulher problema”. Como dizem os versos iniciais, “Toda vez que eu estou com você as coisas dão errado / Seria muito eu pedir pra você olhar pra outro lado?”.

Versos que pareciam descrever exatamente o que vivia na época. Acabara de conhecer uma garota, pessoa por quem nutro afeto e admiração até hoje, mas com quem jamais conseguiria manter um relacionamento estável. Naquele momento, vivíamos um caso cheio de altos e baixos, até que me dei conta de uma regularidade: após passar algum tempo com ela, ao retornar para as atividades cotidianas, tudo… dava errado.

Os desastres vinham, de forma indefectível, sempre que retornava de sua casa para a minha. No início, eram pequenas coisas: o frasco de xampu caía durante o banho, quebrando-se e me deixando sem o que passar na moleira; ia abrir uma porta, e a maçaneta se partia na minha mão; numa época de pouquíssimo dinheiro, pensava em gastar aqueles cinco reais que estavam na carteira, só para perceber que eles não estavam mais lá, perdidos ou surrupiados. Depois, vieram fatos cada vez mais graves: a roda dianteira de minha bicicleta travou e levei um tombo; com meus pais viajando, quebrei a magrela de meu pai enquanto tentava tirá-la de um suporte elevado, para emprestá-la; dirigindo de carro na rodovia, um guarda me parou e tomei minha primeira multa, por motivo torpe.

A canção do Tequila Baby dizia: “Por que as forças da natureza nos põem lado a lado?” Pois resolvi intervir nessas forças e, voluntariamente – não sem certa dor no coração – passei a fugir da tal presença como o diabo corre da cruz. Muitas lágrimas rolaram. Sinto muito mesmo, até hoje, mas era uma questão até de sobrevivência (bom, era o que eu pensava), pelo menos até que se resolvesse aquela nossa ziquizira.

Como disse, vivia, então, mais ligado no som do samba do que no punk do Tequila, e ali encontrei a solução. Foi “Banho De Manjericão”, clássico de João Nogueira e Paulo César Pinheiro, na versão de Clara Nunes, que me levou a experimentar a sabedoria da espiritualidade afro – ainda que, temerariamente, sem passar, antes, por uma consulta com um babalorixá. Fui ao quintal de minha avó, colhi algumas folhas e preparei o tal banho de ervas.

Pois não é que deu certo? Até minha mãe experimentou e saiu flutuando do chuveiro: “Dá uma sensação de leveza”.

Contei a novidade à moça que, muito aberta aos assuntos espirituais (embora com um medo danado da umbanda), acabou também se banhando. Desde então, aquela zica passou, outras mais vieram (e passaram também) e a tal mulher problema virou coisa do passado.

Se tudo se resolveu por conta do banho de Ocimum basilicum (e esqueci de dizer: após um bom descarrego com sal grosso, claro), jamais saberemos. Mas sempre lembro dessa fase (e que faaaaase!) quando rola um som do Tequila Baby – banda que, afinal, não tem absolutamente nada a ver com a espiritualidade afro, nem com Clara, nem com João, nem com Paulinho.

Mas, já dissemos aqui, o universo parece feito de elementos dispersos, cujos elos invisíveis, por vezes, se nos relevam de forma marcante.

tequila-baby.jpg
Tequila Baby: punks sulistas falando de amor e desamor.

Em Estúdio Showlivre – ao vivo (2018), a banda apresenta um registro fidelíssimo à versão original de “Mulher Problema”. Destaque para os vocais à AC/DC de Duda Calvim:

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