336. Baco Exu do Blues: “Capitães De Areia”

Somos homens e mulheres livres
Carrego comigo coragem de Erê
Carrego comigo coragem, dinheiro e bala
Palavras de Pedro Bala


Celebramos a Proclamação da República há algumas semanas. Mas, como disse recentemente aos estudantes de História da Educação, o fim do Brasil Imperial não mudou, essencialmente, o quadro de um país com vocação para excluir. A escravatura foi abolida, promulgou-se uma nova Constituição em 1891 mas, a rigor, tudo permanecia tal e qual, situação que perduraria por muitas décadas.

Somente a partir dos anos 1930, ao que parece, esboçou-se um começo de reação: algo se movia, e para além dos movimentos populares. Terminava a política do café com leite e a república, iniciada com um golpe e governada a partir de conchavos ditados pelos interesses de uma elite agrária, parecia se conscientizar, mais e mais, dos grandes problemas nacionais. A Revolução de 30, assim, parecia abrir possibilidades para uma vida verdadeiramente democrática, no solo brasileiro.

A Constituição de 1934 oficializava aspirações da sociedade civil e, em termos culturais, o Brasil estava agitado: surgiam novas universidades, o Manifesto dos pioneiros da educação nova (1932) via suas reivindicações se tornarem ideias hegemônicas e o modernismo frutificava bem mais do que poderiam imaginar os idealizadores da Semana de 22. Só num tal momento de entusiasmo e agitação é que uma obra como Casa-grande e senzala (1933), de Gilberto Freyre, poderia vir a lume.

No plano político, no entanto, e reverberando os eventos críticos de 1929 – a grande crise capitalista, talvez a primeira em escala mundial –, havia muita tensão no ar, desde a eleição de Getúlio Vargas. E, inagurando a tradição de alternância entre regimes mais democráticos e mais autoritários, eis que o gaúcho se decreta ditador num Estado Novo.

Os artistas pareciam captar o clima de apreensão e, no mesmo 1937 da nova ditadura, Jorge Amado publicava Capitães de areia. Nessa fase da literatura moderna, os temas sociais ganhavam relevo e a obra do baiano trazia como protagonista Pedro Bala, uma espécie de “trombadinha” que lidera outros jovens abandonados, em meio à pobreza, à marginalidade e a pequenos e fugazes prazeres associados à infância.

O Estado Novo passou, o Brasil viveu novos tempos democráticos por menos de 20 anos, veio nova ditadura, depois Nova República e cá estamos. Os regimes se abrem, se fecham, se abrem, se fecham. E as conquistas sociais se acumulam, é verdade, mas a passos de tartaruga.

E então, com apenas 21 anos, um jovem baiano chamado Diogo, mas adotando a curiosa alcunha de Baco Exu do Blues, elabora um álbum de rap que – entre outros assuntos – encampa uma análise lúcida (e talvez, propositiva) acerca desse Brasil atual, que nem é tão diferente assim daquele microcosmo de país retratado na obra de Jorge Amado.

Esú (2017) é um álbum conceitual que realiza e eleva ao paroxismo aquilo que Mano Brown e os Racionais MCs anunciavam 20 anos antes, em Sobrevivendo no inferno: a crítica social certeira aliada à força da cultura afro-brasileira, especificamente, suas tradições espiritualistas.

Já na “Intro” do disco, Baco Exu se apresenta e, sem cerimônias, alerta o ouvinte para um fato da maior importância: percorrerá as demais faixas a partir de um transe mediúnico, incorporando ninguém menos que o próprio deus trickster do candomblé – “Senti Exu, virei Exu”, assevera o rapper que é também cavalo-de-santo, ao menos figurativamente.

E na faixa sintomaticamente intitulada “Capitães De Areia”, Pedro Bala ressurge como um erê que nos lembra da liberdade dos oprimidos: quem não tem nada, nada tem a perder. O personagem irá, então, acompanhar a jornada de Exu pelo cotidiano das periferias, fragmentado, decadente e depravado. É nesse caos que a entidade se sente mais à vontade: “As vozes dos bêbados / Risadas gritos / Garrafas quebrando, as drogas, os conflitos / As luzes da cidade, batuque, tiro / Gemidos, briga é um caos tão bonito”.

Nesse passeio, Baco Exu-Exu-Pedro Bala acaba enredando por um delírio que, a meu entender, é o episódio de maior relevância em todo o Esú – e aqui, estou pensando na magia dos feitiços e obrigações se que prestam aos orixás, e na sabedoria que indica a visualização como semente da realização: ele observa/sonha o dia em que o oprimido finalmente se dará conta de estar justificado (pelos deuses, pelas forças da natureza, pelo universo) a inverter o jogo, fazendo o opressor provar do próprio veneno. Diverte-se a voz que canta: “Eu tô brindando e assistindo / Um homofóbico xenófobo apanhando de / Um gay nordestino / Eu tô rindo / Vendo uma mãe solteira espancando o PM / Que matou seu filho / Me olho no espelho, vejo caos sorrindo / O karma sorrindo / Eu nasci no dia que viram a raiva parindo / Eu nasci no dia que viram a raiva parindo / Onde cidadãos de bem queimam terreiros / Espancam mulheres e odeiam os pretos / Odeiam o gueto, matam por dinheiro / Eu sou caos, eu sou vilão / Eu nasci no dia que viram a raiva parindo”.

Muita coisa passa pela minha cabeça, ao ouvir esses versos. Sou remetido, por exemplo, a Bacurau – experiência cinematográfica recente que já rendeu um post aqui. E penso também num fato mais recente ainda, a morte de 9 pessoas ontem em Paraisópolis (não muito longe de onde moro), após uma ação truculenta e irresponsável da Polícia Militar, que está fazendo muita mãe chorar. Outro caso semelhante, dos últimos dias, é o do menino Lucas, assassinado (e tudo indica, também por um PM) só por morar onde morava, também numa periferia aqui de Santo André.

Pessoas sem culpa e sem perdão.

O que me leva a pensar muito na palavra “karma”, posta na boca do Exu de “Capitães De Areia”. Curiosamente, outro rapper – dessa vez, paulista – deu corpo, nos últimos anos, a um manifesto cheio de sincretismos religiosos, exortando a um movimento (coisa de Exu!) amparado por figuras de vários panteões: em “Convoque Seu Buda” (faixa do álbum de mesmo nome, lançado em 2014), Criolo fala não apenas em Sidarta Gautama, mas também em Oxalá, Ganesh, Shiva e Zé Pilintra.

“Capitães De Areia” está sugerindo isso: quem tem as costas quentes, o corpo fechado, a licença suprema, é mesmo o povo. Se Exu já deu agô, a revolução está autorizadíssima. Basta aos homens colocá-la em movimento.

baco-exu-do-blues.jpg
Baco Exu do Blues: um subversivo/subversor no/do rap.

2 comentários

    1. Sim, o Brasil atravessa uma fase pré-positivista, diria mais, pré-Revolução Francesa. Se apenas cumpríssemos os ideais das revoluções burguesas do século XVIII, não estaríamos vivendo essa barbárie.
      Grato pelo comentário

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